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Um público mirim: a relação entre crianças e museus

- 9 de março de 2016

Encarado como sinônimo de antiquadas tradições, o museu vem se reinventando. Em grande parte, isso se deve a um público infantil que vive inventando arte

Gustavo Salgado | Foto destaque: Daniele Rodrigues

“Desculpe-me, mas seus filhos não fariam necessariamente melhor” é algo que profissionais do mundo da arte gostariam de responder a muitas pessoas céticas quanto à legitimidade artística de obras nem sempre facilmente aceitas. Há ainda quem desqualifique algumas manifestações de arte por considerá-las “infantis”. Professores, Críticos e Historiadores da Arte explicam que certas ingenuidades aparentes são fruto de muito esforço e dedicação, resultado de uma vida de trabalho. Mas, em um sistema no qual a arte é cada vez mais institucionalizada e intelectualizada, sobra algum espaço para o universo (de fato!) infantil?

Mesmo que passando ultimamente por transformações, pode-se considerar que a ideia de museu como o conhecemos hoje é uma invenção relativamente jovem, com aproximadamente trezentos anos de existência. Desde suas origens, instituições e espaços de exposição de arte são pensados e desenvolvidos basicamente para os adultos. Entretanto, nos últimos cinquenta anos, os museus e galerias têm se reinventado, e cada vez mais voltam a sua atenção para o público mais jovem, e inclusive, desenvolvendo um olhar especial para as crianças. Em relação ao mundo da arte, alguma coisa vem mudando no comportamento das próprias crianças e para com elas.

Obra do artista catalão Joan Miró, com seu traço onírico característico. Brincadeira de criança? / Joan Miró: "O sorriso das asas flamejantes". 1953. Óleo sobre tela, 33x46 cm. Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, Madrid }}

Reinventar a roda

Locais muitas vezes associados à poeira e encarados como sinônimos de desinteressantes mausoléus, os museus tentam atualizar seu diálogo com o público em geral, e o esforço pode ser extra em um mundo de aplicativos e jogos que seduzem e brilham nos olhos atentos das novas gerações.

Buscar informações acerca do Louvre e da Mona Lisa com um simples movimento do polegar de uma criança sobre um gadget na palma de sua mão é uma tarefa extremamente simples, para não dizer trivial. Portanto, não é de se espantar que os integrantes da geração Z (aqueles nascidos após 1995) vão bem informados às mostras de arte e ávidos por buscar conteúdos ainda mais novos.

“Claro que já conheci outros museus! Tem aquele da França, né, com aquela moça famosa… Ah, e tem também um museu com aquela obra, O Grito, que eu gosto muito”, respondeu Renata Ferreira, com toda a empolgação de seus 8 anos, quando um mediador cultural do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) perguntou às crianças presentes se alguém já havia visitado outros museus. Conversando com Renata, ela contou que nunca pisou os pés no chão dos museus que citou, mas afirmou com tranquilidade que já percorreu muitas galerias online, como a do Museu do Louvre, de Paris, ou do Modern Museum of Art, o MoMA de Nova York.

Desenho feito por Renata Ferreira em atividade educativa no MAM-BA. A jovem apresenta sua relação com a arte, a tecnologia e o museu.

Renata, espontaneamente, fala sobre museu de arte mais enquanto um conjunto de obras produzidas pelas pessoas, uma coleção de produções, do que apenas uma casinha com umas telas pomposamente penduradas nas paredes.

Sobre as obras do artista Rubem Valentim, parte do acervo permanente do MAM-BA, a garota explicou que para ela as peças pareciam na verdade peças de xadrez, pondo em xeque verdades construídas acerca de arte. Para finalizar a jogada, Renata confessou que nem sempre entende de fato algumas obras (diferente de muitos adultos que também não entendem, embora finjam bem), mas sentia alguma coisa perante àquelas produções, ainda que não pudesse explicar.

“As mostras de arte tem papel ativo no imaginário das crianças. Talvez o olhar das crianças possa transformar a mostra na medida em que ela interpreta de forma livre, sem pré-julgamentos, ao contrário de nós que já temos uma carga de conhecimento a cerca das obras. A criança tem um olhar mais puro”, avalia a artista visual e mediadora cultural Lili Souza.

Museu é o mundo

Localizado no bairro de São João do Cabrito, o Acervo da Laje é um espaço que a princípio foi desenvolvido para abrigar elementos da produção artística e cultural produzidos no cenário local do Subúrbio Ferroviário Soteropolitano. Atualmente recebe, aos poucos, obras artísticas vindas das mais variadas partes do Brasil. O Acervo é uma iniciativa do pedagogo e pesquisador cultural, José Eduardo Ferreira Santos. Em seu livro homônimo ao espaço, Acervo da Laje, o pesquisador aponta que projeto tem como proposta social a reconstrução do mosaico simbólico da periferia de Salvador, de maneira a restituir dignidade, cultura, acesso às obras de arte e à beleza.

“Posso dar exemplo do acervo porque ele fica na periferia e é sempre emocionante. Uma das meninas que mais passava o dia no Acervo tem um pai que bebe muito e ela encontrou no espaço uma válvula de escape. Ela nos acompanhava aonde quer que fôssemos, e quer trabalhar lá quando crescer”, relata Caroline Souza, estudante de Arquitetura e Urbanismo e mediadora cultural voluntária do Acervo da Laje. “Acredito que sempre deixei que elas interagissem com as obras, com o propósito de fazê-las entrar em contato com a arte para além da visão… Sentir o cheiro de uma escultura em madeira, ou o som das [bolas de] gudes de brincar, e elas nunca quebraram nada”.

Caroline explica que em um ambiente tão estigmatizado, “muitas vezes, para pessoas humildes, entrar num acervo de arte é difícil, porque é como se o lugar as excluísse, mas as crianças são mais corajosas. Uma coisa que aprendi com elas é que elas se jogam com menos amarras que os adultos. Isso é bom para o processo de descoberta e evolução”. Para Jonatas Lopes, pesquisador e parceiro de Caroline Souza na mediação do Acervo, o contato irrevogável que se tem com a arte quando muito jovem acaba tendo grande importância tanto na construção do repertório individual, como na maneira com a qual o sujeito se relacionará com outras pessoas mais adiante. “As experiências estéticas artísticas no começo da vida são fundamentais no desenvolvimento de cognições pessoais e habilidades sociais”, reforça.

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