Cyberbullying é potencializado na quarentena

Leonardo Lima e Luísa Carvalho - 2 de junho de 2021

Principal modo de ofensa entre estudantes em ensino remoto durante a pandemia, cyberbullying pode deixar sequelas em crianças e adolescentes

Foi um mal entendido entre as colegas Bianca Souza* e Tereza Oliveira*, então estudantes do 8º ano do ensino fundamental,  que desencadeou uma série de agressões verbais. As estudantes se desentenderam na criação de um grupo para uma atividade escolar. Tereza se sentiu ofendida por Bianca não a ter aceitado em sua equipe e começou a insultar a colega através de mensagens privadas e no grupo da turma no WhatsApp. “Chamou ela de porca por causa das sobrancelhas dela que são grossas. Dizia ‘ninguém quer você, você é muito magra, estranha e feia, seu cabelo é duro’. Coisas desse tipo”, conta Ana Raquel Amaral, 14, que estuda com ambas e acompanhou toda a situação na tentativa de ajudar Bianca. 

O episódio aconteceu no ano passado, em Salvador, mas não foi um caso isolado. Com a mudança do regime de aulas para o modelo online por conta da pandemia da Covid-19, foram alteradas também as formas de praticar o bullying. A agressão, o assédio e a perseguição passam a acontecer com mais intensidade através das redes sociais. Os xingamentos nos corredores se transformam em mensagens em grupos de WhatsApp e os beliscões e empurrões viram montagens com o rosto da criança

De acordo com dados da ONG SaferNet Brasil, em 2020, o cyberbullying foi o quarto principal crime contra Direitos Humanos na internet para o qual os brasileiros pediram ajuda, com 234 atendimentos feitos pela organização, atrás apenas de denúncias relacionadas às categorias de Saúde Mental/ Bem-Estar, Problemas Com Dados Pessoais e Exposição de Imagens Íntimas. Na Bahia, o cyberbullying está entre as três violações mais denunciadas, com 69 casos acompanhados pela SaferNet.

 

O pesquisador da Faculdade de Educação (Faced) da UFBA, Cleyton Brandão, explica que quem pratica o cyberbullying “utiliza as tecnologias digitais, redes sociais e internet como meio para realizar tais crimes”. Mas este formato não é algo novo. Desde a popularização do Instagram, Facebook e outras redes sociais, os ataques na internet fazem parte das possibilidades da violência. “O que está por trás da prática é a intenção da pessoa. Se a intencionalidade existe, tanto no presencial, quanto no virtual, vai acontecer”, esclarece Cleyton.

Para ele, a principal diferença entre as formas de agressão está no alcance que elas podem chegar. Basta um celular com acesso à internet e é possível praticar o cyberbullying, seja como autor de comentários agressivos ou simplesmente compartilhando uma foto não autorizada. Muitas vezes a criança que é vítima não sabe nem de quem deve se defender, e fica sem controle de para onde vão suas informações.

Uma pesquisa realizada em 2018 por Cleyton junto à doutora em educação pela Faced-UFBA, Telma Brito Rocha, constatou quatro temáticas que mais motivam esse tipo de ataque em ambiente escolar. Em primeiro lugar vem o posicionamento político do aluno, seguido de sua religião, orientação sexual, e por fim raça. Ainda não há estudos acadêmicos sobre a prática de cyberbullying durante a pandemia, mas com a internet mediando grande parte de nossas atividades, inclusive as férias, é possível afirmar que há sim impacto nas crianças e adolescentes em decorrência do acesso constante ao ambiente online.

Além de cyberbullying, pandemia

“Muitos adolescentes participam apenas no chat, têm vergonha”, conta a psicopedagoga Jerusa Carvalho.

No contexto de aulas à distância, o cyberbullying pode ocorrer de diversas formas. Se destacam as agressões mais graves, mas também não devem deixar de ser consideradas as ofensas disfarçadas de brincadeiras, como zombarias sobre voz, aparência ou qualquer outro aspecto da presença de colegas nas plataformas de videochamada. 

As atitudes refletem na participação de suas vítimas no ambiente escolar, que tendem a ficar mais tímidas e receosas em se expor. “Há o medo de se mostrar. Muitos [adolescentes] engordaram, iniciaram o processo das espinhas aparecerem, os meninos estão na fase de mudança de voz. Então, quando isso causa risada, brincadeira, muitos participam apenas no chat dizendo que não vão falar, que têm vergonha da própria voz”, explica Jerusa Carvalho, psicopedagoga e orientadora educacional em uma escola de grande porte em Salvador. 

Jerusa destaca que as consequências do bullying e do cyberbullying, mesmo já passado um tempo desde que aconteceram, impactam no comportamento dos estudantes e podem tornar a adaptação ao regime escolar online ainda mais difícil para jovens que já foram vítimas. “Deixam marcas e mobilizam transtornos como depressão e fobia social. E esse jovem, quando se encontra no processo remoto, sofre muito mais. Um gatilho, qualquer que seja, uma risada porque apareceu com o cabelo assanhado, pode causar um grande desconforto”, afirma. 

Ana Raquel Amaral sabe bem como as lembranças das agressões verbais podem afetar a autoestima. A estudante sofria bullying quando mais nova e descreve a experiência como de grande perda do amor próprio e de constante auto sabotagem. Ana recordava disso quando intercedeu pela colega Bianca no episódio de cyberbullying em sua turma. 

 

A estudante compreende quão doloroso é ser vítima desse tipo de violência e acredita que pedir por ajuda pode ser ainda mais complicado em casos de cyberbullying. “Fica mais difícil de correr. Presencialmente pode ter uma intervenção adulta, de algum responsável, de uma pessoa do lado. Na internet, a pessoa vai no seu direct ou no bate-papo privado. Os pais e os professores não vêem. Ninguém vê, só você. Tem que ser muito forte para conseguir se abrir”, diz. 

E se antes da pandemia os pais e responsáveis já eram parte importante no combate ao cyberbullying, agora com a grande quantidade de atividades sendo realizadas pela internet e dentro de casa, são ainda mais fundamentais. É preciso que estejam atentos aos filhos.

Cleyton Brandão destaca que a mudança drástica de comportamento do aluno pode indicar que ele esteja passando por problemas com o cyberbullying. “Uma criança que está sempre inventando desculpas para não frequentar esse ambiente virtual de aprendizagem. Sinais de apetite, insônia, todos esses sinais emocionais podem [indicar que] esse estudante está sofrendo cyberbullying. Tem que ser observado tanto pelos pais, como pelos educadores”, orienta.

Esta também é a recomendação da advogada especialista em direito digital, Ana Paula de Moraes: “Não é possível que aquele pai não consiga entender que o filho dele não está bem. No momento que você observar uma mudança de atitude emocional no teu filho, é o momento de tomar as medidas judiciais cabíveis. Estamos falando de criança e adolescente sem condição de ir sozinho à justiça para pedir ajuda”.

Pais, escola e alunos: todos responsáveis


Para fazer um boletim de ocorrência em caso de cyberbullying, basta ir à Delegacia Especializada de Repressão a Crimes contra a Criança e o Adolescente de Salvador (DERCCA) em Brotas.

O bullying e o cyberbullying costumam ser bastante semelhantes, mudando, na maioria das vezes, apenas o contexto em que ocorrem. No entanto, a advogada Ana Paula de Moraes alerta que as repercussões do cyberbullying podem ser mais complicadas. “Você tem uma potencialização do crime por causa da internet. É isso que dá a diferença do bullying e do cyberbullying, é a potencialização do compartilhamento daquela informação na medida em que você não tem controle de até onde ela vai chegar”, explica.

Mesmo diante da possibilidade de um perigo ainda maior para as vítimas, os pais de crianças e adolescentes nem sempre sabem lidar juridicamente com a questão. Ainda é forte a ideia de que a internet é “terra sem lei” e que, portanto, a punição a quem pratica este tipo de violência tende a não ser efetuada. Mas essa ideia não passa de falta de conhecimento. “Falando de cyberbullying, a gente tem um universo em que efetivamente a judicialização entra em certos casos”, garante a advogada.

Casos em que a prática é realizada através do uso de imagens ou vídeos, na internet, de crianças e jovens associados a situações pornográficas estão incluídas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) com reclusão de até oito anos. 

Situações em que são feitas ofensas, como xingamentos em redes sociais e chats, e outros atos com potencial de desencadear quaisquer tipos de transtornos e até distúrbios psiquiátricos devem ser registradas em Delegacias Especializadas de Proteção à Criança e ao Adolescente. A Delegacia Especializada de Repressão a Crimes contra a Criança e o Adolescente de Salvador (DERCCA) fica no bairro de Brotas, basta ir até lá para fazer o boletim contra crimes de cyberbullying. 

A punição feita aos pais e responsáveis do menor que praticou cyberbullying também pode ser acompanhada por ação de indenização por danos morais. Além disso, em episódios em que a agressão é realizada em grupos de Whatsapp, os seus administradores podem ser penalizados já que são responsáveis civil e criminalmente pelo conteúdo que circula neste ambiente. Da mesma forma, pessoas que participam do grupo podem responder junto aos administradores, caso tenham realizado postagens que potencializaram a publicação difamadora.

Quando o episódio ocorre em alguma plataforma relacionada a atividades escolares, a instituição também deve ser responsabilizada já que, durante o período de aulas, as crianças estão sob sua guarda. “Tudo que acontece com seu filho dentro daquele ambiente é de responsabilidade do colégio. Legalmente e juridicamente falando é uma responsabilidade objetiva”, diz Ana Paula

Mas a escola também deve estar engajada em prevenir a prática. Só neste período de pandemia, Cleyton Brandão foi procurado 5 vezes por colégios de Salvador para dar oficinas e palestras de conscientização acerca do cyberbullying. Ele conta que o mais eficaz é sensibilizar os colegas sobre o que eles podem estar causando ao praticar essa violência. Explicar que podem criar problemas psicológicos aos outros alunos, levando inclusive a problemas físicos envolvendo questões emocionais, a exemplo de depressão e até suicídio em casos extremos.

“As crianças ficam acanhadas de contar aos professores e pais, o que não pode acontecer, têm que procurar imediatamente o responsável para contar o que está acontecendo”, instrui Cleyton.

 

No colégio em que trabalha Jerusa Carvalho, há a preocupação em garantir que não ocorram agressões entre os alunos durante as aulas online. Como na maioria das escolas, o aluno só consegue acessar a sala virtual através de um e-mail já cadastrado no sistema da instituição, o que garante, em turmas de 40 alunos como é o caso, que um desconhecido não entre sem autorização.

A escola também conta com um monitor em cada turma. “Quando o professor está dando as aulas e compartilha a tela, nem sempre consegue ler o chat. Então o funcionário fica atento”, conta a psicopedagoga. Neste ano, por exemplo, o aluno Paulo Magalhães*, ao fazer um comentário considerado desconexo pelos colegas, foi chamado no chat de “vacilão”, “otário, só fala merda”. 

O monitor imediatamente tirou print da tela e entrou em contato com Jerusa. Abriu o microfone: “Com licença, professora, estou vendo aqui a brincadeira no chat, vamos parar?”. Os alunos pararam. Mas há casos em que eles insistem. Mudam de sala para a próxima aula e continuam os comentários pejorativos. O monitor acompanha sempre o mesmo grupo e, caso haja persistência, Jerusa é chamada para ingressar na sala e conversar com a turma. Logo depois entra em contato com a família do aluno para situá-los do ocorrido.

Em todas as reuniões que são propostas com o aluno que praticou a agressão e com a família dele, eles precisam ligar a câmera. “Eu converso olhando para ele, olhando para a família e dizendo o que precisa melhorar”, explica Jerusa.

Cartilha de combate à violência digital

Confira abaixo a cartilha com instruções para você denunciar práticas de cyberbullying. Lembre-se, a questão da violência digital deve ser abordada e enfrentada por todos. Por isso, sempre que souber de algum caso, denuncie!

Cartilha de combate ao cyberbullying. Sempre que souber de um caso, denuncie!

*Os nomes foram alterados para preservar o sigilo das crianças e adolescentes.

 

O que mudou

Eles disseram sim: os dez anos da legalização das uniões homoafetivas

Número de casamentos na Bahia cresce 228% desde o reconhecimento pelo STF; casais contam suas histórias e avaliam o que mudou e o que ainda pode melhorar Duas pessoas se conhecem, se apaixonam, passam por namoro e noivado até decidirem casar de papel passado. O que pode parecer apenas o caminho natural, por muito tempo […]

Gabriel Amorim, Gabriel Bastos e Luciana Freire - 2 de junho de 2021

É possível ser pirata em paz?

Discutindo a pirataria no Brasil

Em 1975, Rita Lee disse que não, não era possível ser pirata em paz. Em 2021, a discussão segue por outros caminhos: a pirataria digital é um assunto que gera debates cada vez mais acalorados — e nem mesmo a lei brasileira sabe ao certo onde está no assunto. Você não roubaria um carro. Você […]

Alan Barbosa, Bruno Santana e Ícaro Lima - 2 de junho de 2021

Ansiedade

Transtorno em crianças não é 'falta de tapa'

Condição é uma das mais frequentes nesta faixa etária, e tem a família como base importante para reverter quadro As mãos suam, os batimentos cardíacos se aceleram e até respirar se torna um grande sacrifício. É como se o corpo estivesse totalmente fora do controle e aqueles minutos de mãos suadas e trêmulas parecem eternos. […]

Carlos Bahia Filho e Maria Luiza Vieira - 2 de junho de 2021

Pandemia levada a sério

Impactos de mais de um ano em isolamento social

Os efeitos do isolamento social e da pandemia em si ainda estão sendo estudados de forma preliminar pelos pesquisadores e estudiosos.  Estamos em Junho de 2021. Há exato um ano, dois meses e 11 dias, a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia declarado a pandemia da Covid-19. Naquele momento, quem poderia imaginar que estaríamos, ainda […]

Carla Galante e Yasmin Cade - 1 de junho de 2021

“Disse que estava se masturbando enquanto falava comigo”

O assédio sofrido pelas atendentes de telemarketing

“Sem meta batida não há empregabilidade. A orientação é sempre fazer o máximo para que o cliente encerre a ligação satisfeito. Em casos de trote, temos que chamar o supervisor. Mas mesmo não sendo a recomendação, eu desligo. Nesses quase 8 anos de call center, eu não vou ser mais obrigada a ouvir xingamentos e […]

Bianca Meireles e Romário Almeida - 1 de junho de 2021

Pulando a fogueira da pandemia

No segundo ano sem São João, artistas e cidades precisam se conformar com o remoto

Com o cancelamento da festa na Bahia, mais de R$ 500 milhões deixam de circular   São João e aglomeração têm tudo a ver. Mas, pelo segundo ano consecutivo, a pandemia de covid-19 jogou água na fogueira do povo nordestino, e a maior festa regional do país não poderá acontecer em seus moldes tradicionais. Na […]

Bianca Carneiro, Daniel Aloisio e Marcos Felipe - 1 de junho de 2021

Pandemia e universidade

Os desafios do ensino remoto na UFBA

Era início de março de 2020 e a Universidade Federal da Bahia retornava suas atividades dando partida ao primeiro semestre letivo do ano. Para ser mais exato, no segundo dia do mês, os campi universitários espalhados pela Bahia foram ocupados pelos mais de 40 mil estudantes de graduação. As salas de aula cheias, o Restaurante […]

Yasmin Santos, Ricardo Araújo e Fabio de Souza - 1 de junho de 2021

A febre dos NFTs

O que são e como movimentam o mundo por meio dos blockchains

Os NFTs se popularizaram este ano com as vendas de memes e imagens por milhões de dólares. Você com certeza já viu o velho e bom meme de uma garotinha que sorri em frente a um prédio queimando no fundo. Se por acaso não se lembrar, vamos mostrar agora. Você também pode já ter visto […]

Aline Alves e Catarina Oliveira - 1 de junho de 2021

Mais um ano sem São João

Baianos buscam amenizar prejuízos através do empreendedorismo

Junho é popularmente conhecido como o mês das férias, do frio, da canjica, e do forró.  Porém, o “começo de um sonho” deu tudo errado.  2021 não levou embora a pandemia do coronavírus. Pelo segundo ano seguido, os amantes do São João precisarão curtir a festa de dentro de casa.  Se a notícia abalou aqueles […]

Gabriel Nunes e Maria Beatriz Pacheco - 1 de junho de 2021

Montagem com imagens de 4 doramas distintos

K-drama

Doramas: da Coreia do Sul para o mundo

Entenda como os sul-coreanos expandiram sua influência cultural no mundo impulsionando suas produções audiovisuais Ao ouvir o nome K-drama é possível que te soe estranho o termo, mas se você é habituado às plataformas de streamings já deve ter se deparado com um deles. Chamados popularmente de Doramas, K-dramas são produtos audiovisuais sul-coreanos que estão […]

Erick Barbosa, Nadja Anjos e Rute Souza Cruz - 1 de junho de 2021


Pedras e pessoas esquecidas

A quebra de pedras e a destruição de pinturas rupestres em Paulo Afonso

Por conta da pandemia, o trabalho em sítios arqueológicos baianos está parado e o local corre risco de  passar por mais destruições Área de preservação ambiental desde 2002, o complexo arqueológico localizado  no município de Paulo Afonso, Bahia, conta com mais de 100 sítios de pinturas rupestres com cerca de 12.000 anos. Atualmente, o local […]

Bianca Bomfim, Anne da Silva e Pedro Nascimento - 1 de junho de 2021

Segue o jogo?

Um panorama sobre a situação do esporte amador diante da pandemia do Covid-19

Não interessa se você é da galera do baba no domingo, da equipe de corrida ou o fanático por academia, o fato é que a pandemia da Covid-19 modificou profundamente a relação das pessoas com a atividade física. Num momento de quarentena com sérias preocupações e dúvidas em relação ao novo coronavírus, a prática esportiva […]

Madson de Souza e Mauricio Viana - 1 de junho de 2021