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YogaSkills Method: o método de yoga baseado na ancestralidade africana

Giulia Estrela, I'sis Almeida, Maria Marta Lima - 25 de setembro de 2019

Giulia Estrela, I’sis Almeida, Maria Marta Lima – 14 de outubro de 2019

A busca pelo yoga (ou ioga em português) cresceu nos últimos anos. Considerado como uma “prática integrativa complementar” pelo Sistema Único de Saúde brasileiro (SUS), somente entre os anos de 2017 e 2018 a procura por essa e outras práticas cresceu de 216 mil para 315 mil de acordo com informações fornecidas pela instituição. Esse interesse da população se dá pelo yoga reconhecido hegemonicamente como “tradicional”, de origem indiana.

YogaSkills Method (método YogaSkills, em português), é um método contemporâneo da prática do yoga baseado na ancestralidade africana e mais especificamente na ‘Kemetic Yoga’. Kemetic em inglês vêm de Kemet, nome original do Antigo Egito – assim conhecido porque fora batizado pelos gregos. Segundo Yirser Ra Hotep, criador e coordenador da YogaSkills School, a Kemetic Yoga é o antigo sistema egípcio do que hoje é conhecido mundialmente como yoga. YogaSkills é a versão moderna deste sistema antigo que foi desenvolvido a partir de pesquisas conduzidas primeiramente pelo Dr. Asar Hapi, e desenvolvidas, posteriormente, em colaboração do Dr. Ra Hotep, que foi seu professor de Yoga em Chicago na década de 70.

A prática de yoga com base em princípios africanos está baseada na ciência espiritual kemética, que compreende que todos africanos e seus descendentes retomem a autoconsciência e autodeterminação a partir de sua ancestralidade.

 

Yirser Ra Hotep na década de 80 – Foto/Reprodução

Já se perguntou  por que a civilização egípcia e as divindades do antigo Egito são representadas em poses quase acrobáticas?

Segundo Ra Hotep, a origem da yoga está em Kemet. O antigo Egito está datado 2 milhões de anos à frente que da civilização indiana, sendo o continente africano considerado o ‘berço do mundo’. Isso explica porque Kemetic Yoga e, mais especificamente, a YogaSkills questionam a história ao contrapor pesquisas científicas que apontam a origem do yoga na Índia.

Apesar disso, o mestre, como é chamado pelos alunos da YogaSkills, conta que o método não foi criado com objetivo de criar rivalidade entre as diferentes escolas indianas do Yoga, mas sim agregar técnicas de todas elas, centrado nas pesquisas que traduziram e interpretaram dos hieroglifos de Kemet, como aponta o site da escola.

A pesquisa

Em entrevista para o Impressão Digital 126,  Ra Hotep conta sobre sua primeira aula de Yoga com o professor Dr. Asar Hapi quando era universitário. “Minha perspectiva foi formada pelas leituras dos livros de J.A. Rogers, Chancellor Williams, Yosef Ben Jochannon, John Henrique Clark, Cheikh Anta Diop e muitos outros historicistas estudados desde meu tempo na escola”. Junto a Asar Hapi, o aluno concluiu que a origem da yoga é africana.

Ele precisou aprender a antiga língua egípcia chamada MDW NTR (hieróglifos). “Começamos o processo de traduzir textos, interpretar símbolos e descobrir significados de uma perspectiva da Yoga. Passamos a executar diversos movimentos e posturas que eram representadas nas paredes dos templos e nos textos keméticos para entender quais eram os benefícios físicos, fisiológicos, psicológicos e bioenergéticos”, afirma.

Essa foi a primeira etapa da pesquisa, já que não haviam encontrado nenhum texto kemético específico explicando como se expressava a Yoga em Kemet. Ra Hotep continuou a praticar e pesquisar, viajou a Kemet (antigo Egito) diversas vezes e juntou as peças de diversas ideias e práticas para estabelecer o método YogaSkills.

“Na Yoga Kemética reconhecemos o NTRU (as chamadas entidades do Kemet) como arquétipos simbólicos representantes de princípios e poderes universais. Também reconhecemos que muitos dos NTRU estão representados e gravados nas paredes dos templos e em textos performando posições da Yoga”.

Yirser Ra Hotep

No percurso de ensinar o que aprendeu, o retorno recebido segundo Ra Hotep é a grande força curadora da ancestralidade africana. Ela abre caminhos psíquicos que conectam o praticante com o mundo desconhecido de diversas formas. “Esse tipo de retorno é a minha confirmação da verdade da Kemetic Yoga e seu valor para os afrodescendentes e todos os seres humanos interessados em participar dela”, afirma.


Conheça algumas poses da Kemetic Yoga

Ilustração por Giulia Estrela

 

Kemetic Yoga e YogaSkills no Brasil

Nascida no Rio de Janeiro e atual moradora da Califórnia (EUA), Emaye Ama Mizani é formada na YogaSkills Kemetic Yoga School. Ela é uma das poucas  brasileiras encontrada nas buscas por “Kemetic Yoga” ou “Yoga Africana” no YouTube.  Em 2018, ela concedeu entrevista à Revista Trip na qual conta a história do yoga africano e a sua relação com a ancestralidade.

Ela teve primeiro contato com a Kemetic Yoga em 2011, mas via a prática como algo “corrompido predominantemente pelo mundo branco ocidental”, revela. Assim como muitos curiosos, começou a praticar através de vídeos no YouTube “que eram muito menos disponíveis do que são hoje”. Cinco anos depois, no retiro para a formação de instrutores em Kemetic Yoga, teve oportunidade de ter contato com o mestre Ra Hotep.

Mizani se lembra exatamente da sensação que teve ao realizar pela primeira vez a yoga de base africana. “Foi um estalo que eu jamais esqueço: a forte sensação de pertencimento e propósito. Quando você se coloca nas mesmas posturas que nossos ancestrais se colocavam, se restabelece uma conexão profunda com essa ancestralidade através de uma recordação que chega a ser no nível de DNA”. 


“Conectado a esse pertencimento, está o propósito. O propósito de uma prática que não se trata de vaidade e proselitismos, muito comum de se ver no mundo yogui branco. Se trata de autoconhecimento e autocura”.

Emaye Ama Mizani

No Brasil, outra figura considerada fundamental pelos praticantes e inclusive pelo mestre Yirser é Rosangêla Natalino, fundadora da Kasa de Maa’t, primeiro Centro de Formação em Instrutores de Kemetic Yoga no país. Este ano a casa formou 14 instrutores  através de uma imersão de 15 dias conduzida pelo Yirser em Paraty, Rio de Janeiro. A primeira turma foi formada por um grupo diversificado de pessoas negras, muitas já instrutoras de yoga interessadas, através da Kemetic Yoga, em resgatar a ancestralidade e a história da qual descendem. Uma delas é Tainá Antônio, criadora do projeto Yoga Marginal e Fuhara Amani, do coletivo Rekhet Yoga. 

 

Tainá é cientista ambiental formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professora de yoga e reside em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Ela conta o fato de já possuir relação com a yoga de base indiana há muito tempo, mas não conhecia a história e contribuições de Kemet. Seu primeiro contato foi através da internet, pesquisando sobre a relação entre yoga e pessoas negras e, desde então, nunca mais deixou a prática africana. “Quando percebemos o yoga como um legado e uma herança nossa, do nosso povo, você se sente muito mais representado e pertencente a essa prática. Não é a toa que o Kemetic Yoga atrai para si pessoas africanas, em diáspora ou em continente”, afirma. 

O Yoga Marginal é um projeto criado por Tainá que tem como objetivo levar o yoga a espaços que ele geralmente não estaria presente. Tudo começou a partir da ideia de fazer um aulão de yoga para pré-vestibulandos da região da Baixada Fluminense com o intuito  de que pudessem ter um tempo para se concentrar e vivenciar o autoconhecimento. A partir disso, começou a dar aulas em outros espaços comunitários como orfanatos, escolas municipais e públicas, rodas de conversa, entre outros. “Estamos numa margem, mas tudo bem, porque agora teremos yoga, terapias e pedagogias outras que pensem a partir da margem”, exclama Antônio.

 

Aproxime para conhecer os intrutores de Kemetic Yoga no Brasil.


A ancestralidade como cura

Para Thaís Paixão, instrutora de Hatha Yoga, descobrir a prática da yoga baseada em Kemet é uma oportunidade de se autoconhecer e também se diferenciar no mercado. Sua relação com a yoga de base indiana iniciou quando numa consulta médica a profissional lhe indicou a prática para diminuir os sintomas de enxaqueca. Este ano, ela participou de sua primeira vivência prática de Kemetic Yoga através do encontro “O Legado Cultural Espiritual AfRaKano de Kemet” realizado pela Kasa de Maa’t” .

Entrevista com Thaís Paixão

 


Furaha Imani, natural de São Paulo e instrutor de Kemetic Yoga formado na primeira turma de instrutores de Kemetic Yoga pela Kasa de Maa’t, conta que o saber do antigo Egito fundamenta não apenas a prática “do tapete”, mas a “experiência de uma outra dimensão de ser”.  O coletivo Rekhet Yoga, projeto do qual faz parte,  oferece aulas de Kemetic Yoga a preço acessível, voltado para pessoas negras. Além de terem acesso a prática, as turmas aprendem conteúdos teóricos sobre a história do yoga egípcio e demais conteúdos afrocentrados (estudos do continente africano e da diáspora africana).

“A gente nunca tinha ouvido falar de yoga, seja de qualquer linhagem, e muito menos que no Kemet já existia essa prática que os povos indianos chamam de yoga”, relata Fuhara. Seu primeiro contato com a prática foi em 2014, num evento onde Emaye Ama Mizani fazia parte da organização. Na época, ela ainda não era formada como instrutora, porém, a partir de então, formou-se uma parceria e ponto de apoio entre muitos brasileiros na troca de conhecimento sobre Kemetic Yoga entre ambos.

Acompanhe os próximos eventos no Brasil

15 a 24 de novembro de 2019 | Salvador
Realização: Return to Kemet

12 a 21 de dezembro de 2019 | São Paulo
Realização: YogaSkills Kemetic Yoga School e Kasa de Maa’t

8 a 19 de agosto de 2020 (previsão) | Salvador
Realização: YogaSkills Kemetic Yoga School e Kasa de Maa’t

 

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