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Vovô do Ilê fala sobre a situação do negro durante o carnaval

- 15 de julho de 2013

Val Benvindo e Wesley Miranda

Durante o carnaval, a maior festa de rua da capital baiana,  a condição do negro ainda é  inferior se comparada a dos brancos.  Antônio Carlos dos Santos, mais conhecido como Vovô do Ilê, conversou  com o Impressão Digital 126 sobre o racismo no carnaval de Salvador. O presidente do bloco Ilê Aiyê mostrou as condições do negro antes e depois, dentro e fora das cordas.

Impressão Digital 126: Salvador é uma cidade de maioria negra, conhecida por um carnaval tido como popular e democrático, mas os papeis de brancos e negros na festa são bem distintos. Qual a sua análise sobre esses deslocamentos? 

Vovô do Ilê: Antes de ser “a maior festa popular do mundo”, é um negócio muito rentável. O carnaval da Bahia sempre discriminou. Antes de surgir o Ilê Aiyê, os únicos blocos de destaque eram os de maioria branca – Clube Fantoches, Cruz Vermelha. Os Filhos de Gandhy também surgiu neste período,  que na época era composto por homens que trabalhavam nas docas de Salvador. A partir de 1975, com a transformação que a música sofreu, com a influência dos tambores, da entrada do samba duro e do Ijexá no carnaval, foi mudando um pouco a mentalidade das pessoas. A partir daí, os diretores de blocos, que em sua maioria eram colegas de tempos escolares, ao ver o negro se fortalecendo no carnaval, começaram a ter uma visão mais repulsiva. Quando o Ilê assumiu uma postura firme de “só entra negro” foi um choque. Eles tentavam fazer com que acreditassem que nós estávamos fazendo “racismo às avessas” e também impuseram dificuldades econômicas, por exemplo, um metro de um tecido de bloco afro equivale ao custo de duas camisas de blocos normais. Entram questões governamentais, de maioria branca e racista, sem preocupação com a questão da cultura, da sociedade e da desigualdade.

ID 126: A ausência dos blocos afros no “horário nobre” da folia é mais um sintoma desse “olhar acirrado”?

Vovô: Antigamente não precisávamos de tanta visibilidade. Nos reuníamos aqui. Hoje, têm critérios e mais critérios para entrar no carnaval e muitas entidades não estão preparadas para isso. De uns tempos pra cá, criaram a ABT (Associação de Blocos e Trios) e, em um período que eu fui coordenador do carnaval, fizeram a programação do desfile sem incluir o Ilê Aiyê, os Filhos de Gandhy e o Olodum. Os caras exigem policiamento, segurança para os seus blocos que são de gente rica, de gente bonita e que vem de fora. Então, foi criada essa famigerada “fila” (de trios), com interesse em televisão. Tudo isso são critérios criados que fazem com o que o negro não tenha visibilidade. O Ilê Aiyê não passa em bom horário, para uns, mas, fomos o segundo em exposição na mídia neste carnaval em nível local e nacional.

O importante é dar continuidade a toda a essa luta e entender que o racismo não é fácil de combater e tem que estar sempre preparado para as várias formas que ele assume. E, mais importante ainda, é nunca negar que é negro

ID 126: Como driblar esses critérios?

Vovô: Com muita persistência e insistência. A saída do Ilê é um ritual que minha mãe começou em 1975 e acontece de madrugada e se tornou um acontecimento fidelizado no carnaval. Saímos bem tarde no sábado, quase pela manhã e as pessoas parecem que estão começando naquela hora.

ID126: Como funciona a relação com possíveis patrocinadores?

Vovô: A população negra consome e consome muito! O pessoal jovem que vai para a balada toma é vodka. Mas, isso não quer dizer nada para eles [patrocinadores]. Aqui não temos a cultura do boicote. Os empresários, antes de serem capitalistas, são racistas, então eles não querem sua marca associada à população negra. Além disso, a mídia incentiva as pessoas de mente mais fraca, que deixavam até de se assumir como negras para tentar sair em blocos de trios. Nós conseguimos fazer sucesso porque o que eu faço a negrada responde “sim”, mas ainda é complicado. Você tem patrocínio de um banco que dá R$ 1 milhão para um bloco de trio que vai sair um dia com a marca dele e dá R$ 300 mil para o Ilê, sendo que os custos são os mesmos.

ID 126: Hoje em dia, muitas pessoas questionam a impossibilidade de participar do Ilê por não serem negras. O próprio conceito de ser ou não negro vem sendo questionado. Você acredita que atualmente há uma inversão de valores nesse sentido?

Vovô: Antigamente, as pessoas que se diziam morenas e iam para os blocos de trio não eram aceitas lá, mas também não eram aceitas aqui e elas ficavam piradas, sem entender. Atualmente, conseguimos ver muitos negros saindo em bloco de trio, até porque eles pagam e pronto. Ainda são minoria, mas são aceitos. E, hoje, vemos cada vez mais pessoas de pele mais clara se assumindo como negras e, até mesmo, brancos querendo sair no Ilê.

ID 126: E o que você tem a dizer sobre essa polêmica do Ilê não aceitar brancos dentro da corda?

Vovô: Quando alguém fala sobre isso comigo, eu pergunto o por quê dela não sair em um bloco menor, já que a vontade é sair em bloco afro. Mas as pessoas querem sair no Ilê Aiyê porque é um bloco famoso, tem visibilidade na mídia. Mas isso não quer dizer que diminuiu, nem que as pessoas estão aceitando mais os negros.

ID 126: O Ilê é atualmente o único bloco afro que não mantém essa restrição?

Vovô: É sim! A ideia é que todos fossem assim, mas sabemos que é difícil se manter. No início, enfrentamos diversos preconceitos, ouvíamos coisas do tipo “tudo que sobe, desce”, “nada na Liberdade vai para frente”, por ser um bairro de negro. As pessoas têm que entender que, se elas querem sair em um bloco, elas têm que pagar. Não tem isso de que vai fazer um bloco que vai distribuir fantasias. Vai se manter como? Certas coisas no carnaval são “comum de dois”, não têm como modificar. Trio? Tem que ter trio bom. Carro com sanitários, camarim, som potente, segurança etc. Isso é comum a todos os blocos e não seria diferente com os afros.

ID 126: Já se percebe alguma alteração neste cenário com a implementação de ações como o Obsvertório da Discriminação Racial?

Vovô: Há mudanças sim. Os governantes estão começando a perceber que não dá para ficar com esse modelo que está. O nosso carnaval está começando a perder espaço para o de Pernambuco e Rio de Janeiro que está voltando com o carnaval de rua. E se aqui continuar com esse mesmo modelo, as pessoas vão acabar se cansando. Em Pernambuco, por exemplo, é muito mais democrático: o mesmo artista que toca no Marco Zero, toca em Brasilia Teimosa, diferentemente daqui, que alguns artistas, considerados de ponta, acabam tocando  apenas para um determinado tipo de público. E é essa a preocupação com o Afródromo.

ID 126: E qual a sua opinião sobre o Afródromo?

Vovô: O Afródromo é um produto que foi criado por Carlinhos Brown e mais sete blocos afros, que juntos formam a Liga Afro. A ideia não é fazer uma apartheid, o circuito oficial vai continuar e os blocos continuarão saindo em seus dias normais. Seria um circuito a parte para que os blocos tenham mais visibilidade. E a proposta, para além do carnaval, é que se aproveite os espaços daquela área do Comércio, pegando as festas populares de Salvador.

ID 126: Para o senhor, qual o lugar que o negro ocupa no carnaval de Salvador?

Vovô: Ainda não conseguimos chegar ao topo. Com todo o destaque de alguns blocos, ainda não conseguimos ser top de linha no carnaval da Bahia. Na hora do discurso de vender, aí entra a negrada, a cultura afro, mas, na hora do retorno, não.

ID 126: O que senhor acredita que deve ser feito para combater o racismo?

Vovô: Acho que os jovens não podem desistir, achar que está tudo certo. Essa questão das cotas, por exemplo, ficamos tristes quando vemos cotistas calados nessas discussões ou, até mesmo, escondendo sua situação. Ouvi um jovem dizer que está cansado, mas ele tem que entender que tudo isso é resultado de muita luta e, antes de mim e dos da minha época, muita gente já tinha feita muita coisa também. Então, o importante é dar continuidade a toda a essa luta e entender que o racismo não é fácil de combater e tem que estar sempre preparado para as várias formas que ele assume. E, mais importante ainda, é nunca negar que é negro.

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