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Vício em sexo: quando prazer é fonte de angústia

- 22 de outubro de 2014

Insaciáveis, ninfomaníacos são mais comuns do que se imagina

Carolina Cunha e Naiana Ribeiro

Nos fundos de uma igreja ou em uma casa abandonada. Em um banheiro público, na praia ou até mesmo no fundo de um ônibus em plena luz do dia. Esses são apenas alguns dos lugares escolhidos por quem, de forma desenfreada, não deixa de saciar seu desejo sexual. Não importa onde estejam e nem com quem, não vão parar até conseguir. E não estarão satisfeitos quando fizerem. O que os move são fantasias, impulsos e comportamentos que levarão ao prazer.

Conhecidos como ninfomaníacos – no caso das mulheres – e satiríases – homens -, viciados em sexo são mais comuns do que se pensa. Apesar de não existirem números regionais sobre o assunto, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), os compulsivos sexuais representam cerca de 6% da população mundial. “O chamado Impulso Sexual Excessivo pode ser considerado um transtorno, uma anomalia e também uma compulsão. A atividade sexual passa a ser um vício quando há um nível elevado de desejo a ponto de causar prejuízos na vida da pessoa”,  explica a especialista em sexualidade humana pela UNICAMP, Antonieta Bianchi Mazon.

“Assim como existem viciados em drogas ou em álcool, por exemplo, existem viciados em sexo. O viciado em sexo vê potencialidade sexual em situações que outras pessoas não vêem. Ele geralmente fantasia situações cotidianas. Apesar disso, a pessoa consegue dissimular bem e não apresenta uma característica determinante que a diferencia das outras no meio social”, complementa.

Na necessidade de se satisfazerem, pessoas que possuem dependência por sexo se colocam em situações inusitadas, extremas e até de risco. É o caso do professor da rede estadual Rafael Santana*, de 29 anos, que teve relações sexuais na praia do Porto da Barra com uma desconhecida. “Meu tesão era muito. Mas eu estava ali penetrando uma mulher que nem sabia o nome, sem camisinha. Tentei ao máximo segurar meu orgasmo. Aquilo tudo me excitava. Tive medo de estar doente, mas fiz exames mais de uma vez e por sorte não deu nada”, conta. “Enquanto satisfazia minhas vontades não era racional. Eu precisava gozar, pois me sinto vazio. Senti alívio. Mas logo depois veio a frustração: sei que não deveria ter cedido às vontades”, explica.

O professor disse que o vício já o prejudicou muito, mas revelou que não considera a quantidade de relações sexuais um problema. “Já deixei de sair para ficar me masturbando. Já fiquei transando um dia todo e, mesmo satisfeito, optei por ficar com a garota porque sabia que ia relaxar e depois poderia transar mais. Eu transo duas ou três vezes, fico saciado. Chego em casa, me masturbo, olho sites pornô e depois quero mais. No entanto, o problema não é fazer mil vezes seguidas, mas toda hora pensar. Penso o tempo todo em sexo”, assume.

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Prejuízos – O sexo pode fazer mal quando praticado em excesso. Assim como acontece com Rafael*, o analista júnior de infraestrutura Paulo Rebouças*, de 24 anos, também afirma ter problemas em função do vício. “Estou em um relacionamento de quase quatro anos e não consigo ter um diálogo com ela. Só dialogamos na cama. É algo tão forte que, se a gente não for transar, não vejo necessidade de estar com ela. Se não consigo transar tantas vezes como desejo, entre cinco e sete, fico de mau humor “, conta.

Apesar de não considerar que tem um problema grave, Paulo revela que a compulsão também afeta a vida profissional. “Comecei a achar que talvez seja um problema porque não me sinto bem se não me masturbar três ou quatro vezes antes de ir trabalhar. Por isso, estou sempre chegando atrasado, algo que não é do meu perfil”, comenta.

Mesmo acreditando que aspectos do seu dia a dia podem ser afetados por essa compulsão, o analista disse que a prática só será prejudicial “quando começar a deixar de se relacionar com alguém para satisfazer seu vício. Acho que seria o limite. Deixar de sair com amigos para ficar vendo vídeo pornô”, constata.

Homens são maioria – Há mais de um século o Desejo Hiperativo Sexual (DSH) vem sendo discutido na esfera moral, mas o tema só passou a ser alvo de investigações científicas na década de 1990, o que torna os dados escassos. No entanto, é sabido que a ninfomania é mais comum em homens do que em mulheres. Para Antonieta Mazon, isso precisa ser entendido como um “fenômeno cultural e histórico, pois a sexualidade do homem e da mulher tem sido colocada de uma forma diferente. A mulher, muitas vezes, não fala sobre o assunto e não se permite, embora atualmente esteja melhor. Eu atribuo isso ao próprio comportamento sexual de homens ser diferente do das mulheres”, explica.

Aos 21 anos, a estudante Michelle*, também é do tipo que pensa em sexo o tempo todo. “Com qualquer pessoa eu me imagino transando. Não sei explicar, simplesmente sinto isso. É um tesão infinito. Depois que transo com alguém, me afasto e logo fantasio outra pessoa”, conta. Michelle diz também que é muito difícil ser fiel. “Só sinto vontade de fazer de novo, com a mesma pessoa, se estiver apaixonada. Mas isso não significa que eu não vá transar e desejar outras pessoas. O desejo é maior que tudo”, revela.

A jovem lembra que uma simples troca de olhares pode excitá-la. “Sinto como se estivesse sem roupa com alguém. É um calor, um tesão incontrolável. Fico toda molhada”, relata. “As vezes fico só olhando, se a pessoa corresponde eu tenho que ceder. Preciso satisfazer porque eu não consigo controlar.  Eu conheço o cara, sobe um tesão e eu faço sexo”, pontua. Dentre as histórias inusitadas, que vão desde se masturbar na rua até sexo no corredor da faculdade, a estudante revela que já fez sexo no fundo do ônibus, no meio da sua rotina. “Eu sentei lá e só tinha um cara. A gente trocou olhares e começou a se tocar. Fiz oral nele e ele me masturbou com o dedo. Fizemos sexo ali mesmo. Quando terminamos, eu agradeci e desci do ônibus como se ele nunca tivesse existido”, esclarece.

Ao contrário de Michelle, a estudante de comunicação Antônia*, de 20 anos, não chegou a realizar suas fantasias em lugares públicos por falta de oportunidade. “Penso em sexo o dia inteiro e tudo me remete a isso. Quero fazer todos os dias, todas as horas. Queria ter histórias loucas, mas meu namorado não permite”, diz. Ela tem consciência de que a constante vontade de fazer sexo afeta a sua rotina. “As pessoas cansam, querem dormir, trabalhar e você quer sexo em momentos inoportunos. Mas me encaro como a mulher mais legal do mundo. Afinal, que homem não quer ter uma ninfo?”, reflete.

Sintomas – Problemas para se relacionar, medo do abandono, envolvimento em relacionamentos destrutivos, além de transformar culpa e raiva em desejo sexual são alguns dos sintomas dos compulsivos, segundo o grupo Dependentes de Amor e Sexo Anônimos (DASA). Para o psiquiatra Marco Scavino, pesquisador do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq) e responsável pelo Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo, ligado à Universidade de São Paulo (USP), a hiperatividade sexual normalmente vem acompanhada de outros fatores. “Cerca de 72% dos pacientes têm depressão, ansiedade ou até risco de suicídio”, garante.

Tratamentos – Segundo a especialista Antonieta Mazon, por se tratar de uma questão que envolve uma dor psíquica, os tratamentos precisam ser multidisciplinares. Geralmente, estão relacionados à situação de perda, à falta de cura de relacionamento ou às situações de infância que poderiam ser cuidadas e não foram. “Há feriadas emocionais que são canalizadas, descontadas, nesta hiperatividade. Por isto a equipe não precisa só de um psicólogo, mas também de um terapeuta disciplinar e até mesmo um psiquiatra, que possuem técnicas específicas”. “Mas, antes de tudo, é preciso que a pessoa consiga assumir o transtorno, para buscar ajuda de profissionais qualificados”, complementa. Encontros em grupo, como os promovidos pela DASA, também são uma opção. Além do compartilhamento de experiências e exercícios lúdicos, a instituição propõe um programa de recuperação de 12 passos.

* Os nomes foram substituídos ou modificados para preservar a identidade das fontes.

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