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Vício em drogas causa perdas aos usuários

- 22 de outubro de 2014

Guilherme Reis

Aos 25 anos de idade, Maria Aparecida* ainda exibe as marcas deixadas pelo abuso de cocaína, crack e ecstasy. Livre do vício há dois anos, a estudante de Belas Artes da UFBA recuperou a vividez e o brilho no olhar, mas seu rosto jamais estará livre dos sinais deixados precocemente pelo tempo.

“Minha pele ficou com umas manchas e uma cor estranha, como se estivesse suja. Fiquei com marcas de expressão. As pessoas achavam que eu tinha mais trinta anos, mas só tinha vinte. Os outros viam em mim o que eu não conseguia ver, que era o efeito daquelas substâncias no meu organismo. Chegou uma hora em que decidi tentar parar”, conta.

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Ingrid T.*, como prefere ser chamada, não pretende parar nem demonstra vontade de reduzir o uso, apesar de estar consciente dos danos ao seu organismo. “Não desejo parar. Sobre reduzir, a quantidade nunca é estática, depende das necessidades do meu corpo. Há dias em que o uso pode ser absurdo, como nulo também”, diz. A estudante de Bacharelado Interdisciplinar em Artes decidiu não contar aos pais sobre o vício de cinco meses em maconha, haxixe e LSD. Para ela, a maior consequência em se tornar usuário de drogas é lidar com o preconceito. “Pensam que todo ‘drogado’ não tem personalidade, que mente. E, claro, não querem que a filha seja assim”, justifica.

O estudante fluminense de 19 anos, ‘Mick’ Medeiros*, usa maconha, tabaco e loló (nome popular de um entorpecente preparado à base de clorofórmio e éter) há cerca de dois anos. Há sete meses, começou a cheirar cocaína. Ele diz que, nesse meio tempo, não sentiu nenhum dano à própria saúde, embora saiba que isso acontecerá futuramente. “Já na parte econômica, relações sociais e familiares só traz prejuízo se o usuário quiser. Uso droga quando posso (financeira e psicologicamente). Não deixo de sair, de me divertir, de fazer tudo como qualquer outra pessoa por causa de drogas”, conta.

Caíque Matos, 21 anos, admite dependência em cigarro, porque é um vício “físico e psicológico”, e em café, “apesar de não ser considerado por muitos como tal [droga]”, revela. Estudante de Humanidades, Caíque afirma que o maior prejuízo para o usuário é a discriminação, pois o assunto ainda é cercado por mitos.

“A maioria da sociedade acha que drogas é apenas substâncias ilícitas como maconha, cocaína e crack. Porém, muita coisa pode ser considerada como tal, como café, remédios, álcool. Por isso, o usuário ainda é considerado como alguém à margem da sociedade e capaz de cometer qualquer tipo de crime para sustentar o vício”, critica.

As vidas que não foram – Para o professor e pesquisador no Instituto de Psicologia da UFBA, José Ferreira Santos, “a maior perda, certamente, é a das vidas que poderiam ter sido e não foram, parafraseando o Poeta Manuel Bandeira”. Na sua visão, as mortes causadas pelo tráfico e consumo de drogas constituem a face mais obscura de toda a questão. “Falando das drogas na periferia a maior perda é de fato a vida dos jovens, pois na periferia o consumo de drogas ilícitas está relacionado a diversos fatores com a violência estrutural em suas diversas manifestações, como a criminalização da pobreza, o racismo e estigmas em relação a essa população”, analisa.

Segundo José Ferreira, os usuários de drogas são tratados de maneiras diferentes em cada contexto social. “Usar drogas ilícitas em um bairro da periferia é diferente de outros espaços. Em um bairro ‘nobre’ caso as pessoas são vistas como ‘descoladas’, em um bairro periférico, como marginais que oferecem perigo à sociedade e ‘devem’ morrer, segundo o imaginário coletivo”, acredita. Para o professor, a família é um dos setores mais prejudicados, já que tal instituição nem sempre está preparada para lidar com um membro usuário de drogas. “Os impactos e as repercussões sobre as famílias são grandes e implicam muitas vezes a redução da expectativa de vida dos jovens”, declara.

O pesquisador diz ainda que os preconceitos e estigmas perpetrados pela sociedade são mazelas que contribuem para agravar o problema. De acordo com ele, a discriminação é tão pujante que é internalizada pelo próprio dependente químico. “Existem camadas de preconceitos que vão sendo internalizados também pelo usuário, que são compartilhados pela coletividade e eles influenciam diretamente na separação de mundo que ocorre entre o ‘nós-eles'”, afirma. Ferreira finaliza explicando que às vezes esquecemos que os usuários de drogas têm desejos que podem ter virado um desencanto diante do mundo e da realidade.

* Os nomes foram substituídos ou modificados para preservar a identidade das fontes.

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