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Venezuelanos tentam nova vida no Brasil

Cristiane Schwinden e Levy Teles - 27 de novembro de 2018

Fugindo de uma grave crise político-econômica, aproximadamente 200 venezuelanos tentam uma nova vida na Bahia

Deixar para trás sua residência e seu país de origem não é uma decisão fácil. O drama é ainda maior quando o êxodo é, na verdade, uma fuga. Por conta de uma grave crise sócio-econômica, milhares de venezuelanos têm fugido para o Brasil  atravessando a fronteira com Roraima em busca de melhores condições de vida.Uma parcela desse fluxo migratório teve como destino a Bahia. A Paróquia da Ascensão do Senhor, no Centro Administrativo da Bahia (CAB), estima ter acolhido cerca de 100 venezuelanos. Já o projeto ‘Refúgio em Salvador’, da Unifacs, organizado por Rafaela Ludolf, coordenadora do Núcleo de Práticas em Economia e Relações Internacionais, atende cerca de 30 venezuelanos com aulas de português e gramática. No interior, as cidades de Alagoinhas e Jequié somam mais 30 refugiados.

Numa parceria entre o Governo Federal do Brasil, a Organização das Nações Unidas (ONU) e uma ONG, criou-se uma ação de interiorização de refugiados, a partir do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), que auxilia a relação dos venezuelanos no pedido de refúgio com Brasil. A Bahia é o primeiro estado brasileiro a receber refugiados venezuelanos com ocupação remunerada garantida. No total, 25 venezuelanos foram para Alagoinhas, onde já têm emprego numa empresa peruana de bebidas. Outros cinco refugiados permanecem em Salvador.

Em Jequié, sudoeste da Bahia, a Igreja Batista local também acolheu venezuelanos, como é o caso da família de Pedro Salcedo González, de 50 anos, que chegou à cidade há 10 meses. Sua esposa, Norelis, está grávida de 5 meses, e eles pretendem ter o filho em Jequié. Pedro conta que é chef de cozinha crioula nacional, e que abandonou a Venezuela por conta do governo opressivo de Maduro e a situação fora de controle no país. Passaram um tempo em Boa Vista, capital de Roraima, mas nada conseguiram. Em contato com grupos cristãos, conseguiram seguir para a Igreja Batista de São Paulo com ajuda da ONU, juntos a outros 28 refugiados. Por meio de contato com um pastor de Jequié, conseguiram partir para a cidade baiana com recursos da Igreja.

Pedro Salcedo González, chef de cozinha venezuelano (Fonte: Reprodução / Acervo Pessoal)

Pedro e sua esposa foram bem recebidos pela comunidade local e têm planos de permanecer em Jequié até o governante da Venezuela mudar e o país se reerguer. Segundo ele, o desejo dos refugiados é o de retornar para sua pátria mãe futuramente. Sobre o novo governo que assumirá o Brasil, ele acredita que seja solidário com todos os imigrantes e espera que ajude a Venezuela.

Crise começou no governo de Hugo Chavez

Mesmo antes da morte do presidente Hugo Chávez, há cinco anos, a Venezuela já dava sinais de declínio: o preço do barril de petróleo, que é a base da economia da Venezuela, apresentava baixa de preço. Nicolás Maduro assumiu o país tentando manter a mesma política populista bolivariana de seu antecessor. O resultado foi desastroso. Nos mercados, imperam as grandes filas e faltam alimentos, além de produtos de higiene e remédios. Para 2018, o FMI prevê que a inflação atingirá 1.350.000% ao ano, com aumento exorbitante do preço de insumos básicos. A economia, ainda de acordo com o Fundo, recuará 18% em 2018, e 5% em 2019. Em 2017, o PIB (Produto Interno Bruto) da Venezuela recuou 14% — quarta queda anual consecutiva.

Em agosto deste ano, Maduro lançou um pacote para conter a hiperinflação e anunciou o corte de cinco zeros da moeda local, que passou a se chamar bolívar soberano. Porém, as medidas não têm surtido efeito, e a repressão aos movimentos contrários fica cada vez mais forte. As ruas se enchem de uma oposição cada vez mais radical, que encontra uma resposta também radical por parte do governo do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), já há 18 anos no poder.O governo opressivo de Maduro age quando o povo não gosta de suas regras. Estamos cansados da ditadura do regime de Maduro — somos um povo de protesto, mas eles nos calam”, conta o chef Pedro Salcedo González.

Cronologia da crise na Venezuela

Igrejas ajudam no deslocamento e abrigo

A crise econômica é, hoje, a maior responsável pelo aumento no número de venezuelanos que pedem refúgio. No Brasil há um mês, Daniel, 34, e Daniela, 36, e o filho Aaron, 7, são uma família de venezuelanos, que, diante da crise, decidiram sair do país. “Em nosso caso, o problema é econômico — como o de muitos. O que nos fez sair foi a falta de apoio na área de saúde, de não ter remédio para nosso filho, e a comida é muito cara. Desejo dar o melhor para o meu filho e me doía muito ir para um hospital e saber que não tinha um médico. Essa foi uma das razões para sair do país”, revela Daniela.

Antes moradores do Estado de Carabobo, a norte da Venezuela, a família decidiu vir para o Brasil, que fica a 30h de distância, em vez da Colômbia. Apesar de mais próximo, o país se encontrava sobrecarregado com a chegada de refugiados venezuelanos.

Hoje, com o auxílio do Acnur, a cidade de Pacaraima, em Roraima, fronteira com a Venezuela, ajuda os venezuelanos a conseguirem documentação para continuar no Brasil. Daniel conta que durante o processo de vinda ao Brasil, o posto da ONU resolveu todos os problemas burocráticos com a entrada no país. “Enquanto fazíamos os documentos, ficávamos em Santa Helena, na Venezuela, que fica a 15 minutos de Pacaraima. Dormíamos lá e voltávamos ao Brasil”, recorda Daniel.

A estadia deles em Roraima foi curta — foram apenas quatro dias. Testemunhas de Jeová, a família contou com o auxílio de outros companheiros de fé, que fizeram a articulação com outros membros da religião de Salvador para trazê-los à Bahia. “Nossa solidariedade é internacional e isso certamente nos ajudou”, conta Daniela.

O clima de apreensão que toma a Venezuela cria situações desesperadoras. Contudo, muitos não preferem esperar. “Quando fomos de Pacaraima para Boa Vista, capital do Estado, vimos pessoas caminhando — e é uma caminhada que levam dias. Por causa da crise, as pessoas não têm dinheiro e acabam indo andando até Boa Vista”, revela Daniela.

Uma nova oportunidade

Segundo a Polícia Federal, 127 mil pessoas cruzaram a fronteira da Venezuela para o Brasil de 2017 até o primeiro semestre deste ano. A situação de crise no território brasileiro levou a uma série de ataques xenofóbicos a venezuelanos, levando até a casos de morte.

O plano de interiorização de refugiados levou a 1.098 venezuelanos serem transferidos para estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul e Paraná. Alguns destes vieram para a Bahia e dezenas de venezuelanos já fazem presença em Salvador. Coordenadora do programa Refugiados na Unifacs, a professora Rafaela Ludolf conta que aproximadamente 25 pessoas participam do programa dela, em sua maioria, venezuelanos.

“Além das aulas de português instrumental, ajudamos também com aulas de empreendedorismo para que eles possam entrar no mercado de trabalho”, conta Rafaela. Apesar da proximidade dos idiomas, a barreira ainda prejudica a convivência dos venezuelanos no Brasil. “As pessoas não estão acostumadas com pessoas que não falam português. Uma vez, na farmácia, perguntei por um remédio para comprar, mas não lembrava o nome exato. Quando fui perguntar a funcionária, ela disse que não falava inglês”, lembra Daniela, às gargalhadas.

Nem ela, nem seu marido, Daniel, estão trabalhando formalmente. Mesmo com as dificuldades, eles contam que esse mês já apresentou melhoras na qualidade de vida. “Lá, se a gente escolhia comer carne, tínhamos que escolher se iríamos comer frango; se escolher frango, não teria dinheiro para grãos; se escolher comer arroz, não teria como comprar macarrão. Aqui podemos escolher o que vamos comer”, conta Daniel. “Na Venezuela, não são todos que têm smartphones. Meu marido, que trabalhava com vendas por lá, teve que usar o mesmo telefone por quatro anos, dividindo comigo ainda”, diz Daniela. “Tenho o meu telefone também!”, avisa o pequeno Aaron, ao ouvir sua mãe falar sobre smartphones.

Documentário apoia refugiados

Foi assinado em 24 de julho de 1998, em Ushuaia, na Argentina, inicialmente pelos quatro estados membros de MERCOSUL, (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), mais dois Estados associados (Bolívia e Chile), um tratado reafirmando o compromisso democrático entre os Estados membros do MERCOSUL. A Venezuela entrou no acordo em 2005.

Documentarista Dado Galvão (centro) junto a políticos de outras países da América do Sul, no Congresso do Uruguai. 11 de setembro de 2018. Fonte: http://www.missaoushuaia.org/



Dado Galvão é um documentarista e ativista político que reside atualmente em Jequié e toca o projeto Missão Ushuaia. O projeto, de cunho cultural e humanitário, nasceu em 2015, quando foi enviada uma bandeira do Mercosul para o autor Carlos Javier Arenciba Castro, autor do livro “Testimonios de la represión”. Na bandeira, aparecem assinaturas e mensagens com pedido de que se protocolo de Ushuaia, que garante o cumprimento de todos os direitos humanos aos cidadãos destes países.

Eles também estimulam que pessoas de vários países escrevam cartas, que serão entregues aos parlamentares dos países membros do MERCOSUL. Tudo será arquivado para um futuro documentário, que conta com colaboração do fotógrafo Arlen Cezar e a ativista Evelyn Pinto Diaz. 

 

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