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Universitários adotam o brega para sua playlist

- 9 de maio de 2012

Ritmos como o arrocha, o sertanejo e músicas de influência brega no geral viram hits de “baladas” e do dia a dia dos jovens

Alexandro Mota e Danielle Lopes

Sábado à noite. Música eletrônica toca na varanda de uma casa noturna em Vilas do Atlântico, região metropolitana de Salvador. Mas esse é o dia da semana em que tudo pode mudar. E mudou. Dentro do espaço, o ritmo que embala o “agito” dos jovens frequentadores é outro: o arrocha, ritmo genuinamente baiano. Cenas como essas têm se tornado cada vez mais comuns na Grande Salvador.

O arrocha, o sertanejo e a música brega têm estado presentes na playlist dos universitários. “Estes estilos musicais têm temas ligados ao amor e a bebidas, que estão muito relacionados com o cotidiano dos jovens hoje em dia, que costumam ter  desilusões amorosas. Essas canções falam da realidade dos jovens, talvez a sociedade esteja pedindo mais amor e mais bebida”, opina o estudante de Direito Thalmus Rodrigues, 24 anos.

O pesquisador Milton Moura também concorda que a ascensão dos ritmos bregas, em especial do arrocha, está associada aos assuntos sobre os quais versa. “Isso é uma grande sacada do arrocha, é uma música extremamente contemporânea. Já não há uma música de arrocha que fale de grande amor. E não tem mais grande amor, isso já acabou. Existem grandes paixões, grandes cornos, grandes bebedeiras, grandes noitadas”, exemplifica o historiador. Além disso, “O estilo é dançante, é alegre, por isso todo mundo gosta”, completa o estudante de Engenharia de Minas Andrei Damasceno, de 19 anos.

Fosse antes, o arrocha estaria limitado às serestas no brega de Carocha, em Candeias (local onde ganhou visibilidade), assim como o sertanejo aos caipiras e a música brega às sofridas pessoas desiludidas com o amor. Apesar de ainda estarem nesses espaços e consumidos por essas pessoas, é perceptível o quanto esses ritmos também conquistam o público, que antes era conhecido pela erudição ou pelo rock’n’roll.

Para Chico Castro Júnior, repórter de cultura do jornal A Tarde e crítico musical, o sufixo “universitário”, incorporado por algumas produções, pode ter dado o passe livre para que esses jovens se sintam à vontade não só para consumir esses ritmos, mas para que esse consumo seja em grupos e não se sintam reprimidos em curtir a fan page daquele cantor de arrocha, ou daquela outra banda sertaneja. “Essa é uma forma de proceder uma assepsia em uma coisa que veio do povão. O arrocha e o pagode vieram do povão e, para conquistar o público universitário, eles precisam dessas roupagens, para que a patricinha possa ir para esses espaços sem medo, porque não vai estar rodeada de gente ‘pobre e feia em volta’, acha ela”, critica Chico.

POPULARIZAÇÃO – Já para a estudante de Artes Plásticas Thais Mota, 22 anos, esta aproximação dos jovens a esses ritmos considerados bregas, não necessariamente tem relação com uma segregação social. “Ultimamente, muitas pessoas têm se voltado para o que é popular, as pessoas vão para observar e acham interessante”, opina a estudante. Thais, que gosta de arrocha e de música brega, se coloca como exemplo, diz que o “romantismo exagerado” e a sonoridade dos ritmos foram o que chamaram a sua atenção para estes estilos musicais. “Não é uma música feita para ser consumida por jovens universitários, e justamente por não ser comum, chama atenção e influencia o gosto”, afirma Thais.

Uma surpresa é o fato de esses ritmos chegarem a locais, antes, pouco prováveis. Do rádio de pilha de pessoas de pouca instrução e dos teclados programados de cantores despretensiosos, tendo como exemplo o arrocha, hoje este estilo de influência caribenha está presente em festas nada populares. “Eu queria ver esses jovens que dizem gostar de arrocha frequentar o Língua de Prata, em Itapuan”, provoca Yuri Almeida, 27, jornalista e mestrando, lembrando que, apesar do aumento do consumo desses ritmos, os points de sofisticação e privacidade dos universitários continuam os mesmos.

Na casa de show citada na abertura da matéria, quem frequenta o local para assistir ao show da banda Kart Love pode chegar a pagar R$60 só pela entrada. “Poderia até ir nesses lugares aí (Lingua de Prata e outras casas populares) por curiosidade, mas são mais baixos. Aqui (na casa de show de Vilas do Atlântico) o ambiente é completamente diferente”, compara a estudante de Odontologia da Unime, Catiane Pinheiro, 22 anos.

MERCADO  Para o mercado cultural, agradar esse público tem se tornado cada vez mais fácil e com possibilidades limitadas. O jornalista Chico Castro Júnior indica que a massificação desse novo gosto tem o apoio da grande mídia. “Isso também tem a ver com a baixa escolarização do brasileiro como um todo, que acaba não tendo a capacidade de discernir entre o que é bom ou o que é ruim. Apesar de esses conceitos serem questionados, eu não sou Regina Casé para achar que tudo o que vem da periferia é bom. É legitimo, isso eu não discuto”, completa.

O estudante Thalmus, por exemplo, diz gostar mesmo de rock, mas é o compositor de um arrocha com considerável sucesso na internet, “Vai Meu Bombeiro”. “Esse é meu lado cômico, minhas canções são mesmo voltadas para o social, mas para quem quer lançar seu trabalho tem que se prostituir um pouco porque o que rege a musica hoje é o amor e a bebida”, diz. Junto ao colega do curso de Direito da Faculdade Ruy Barbosa, Diego Gramacho, 23, forma a dupla conhecida como “Os Advogados Apaixonados”.

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