“Trazer o judaísmo para o século XXI é um trabalho delicado”

- 20 de fevereiro de 2014


Em entrevista ao ID 126, o rabino da Sociedade Israelita da Bahia fala sobre movimentos do judaísmo, conversão e diálogo com outras religiões

Texto e fotos: Lara Perl

Uri Lam é um rabino que se comunica pelo facebook e pede para ser chamado de ‘você’. Vinculado ao movimento reformista judaico, o paulista criado solto pelas ruas do Bom Retiro é o primeiro rabino brasileiro a atuar em Salvador e completa, em março, um ano à frente da Sociedade Israelita da Bahia (SIB). A comunidade tem cerca de 200 famílias associadas, número que ele estima em aproximadamente 500 pessoas próximas. Formou-se psicólogo e descobriu sua vocação como rabino quando começou a cantar como solista no coral da Congregação Israelita Paulista (CIP). Ele defende um judaísmo libertário, que busca atualizar-se e acolher sem abandonar os valores tradicionais da comunidade. Na capital baiana, tem participado de debates e estabelecido um contato com líderes de outras religiões.

Impressão Digital 126: Olhando para trás, como acredita que a sua formação judaica da infância e adolescência influenciou na sua visão de judaísmo hoje?

Eu acho que teve uma grande influência. Desde pequeno, sempre tive problemas quando alguém chegava querendo impor algo, dizer como eu tinha que fazer as coisas. Na escola, eu sempre fui um dos melhores alunos de hebraico, cultura e história judaica, sempre gostei dessa parte porque eu também via isso em casa. Meu pai trazia uma formação sionista muito forte, tinha sido soldado do exército de Israel e eu e meus irmãos absorvíamos muito isso, a gente tinha orgulho. O movimento juvenil também, eu não via a hora de chegar todo sábado, às 15h, para jogar bola com os amigos, ter as atividades e depois discussões. Como eu cresci nesse meio, no qual tudo acontecia de maneira muito natural, quando tentavam me impor algo do tipo ‘olha, você tem que rezar dessa forma’, eu falava que não. Cresci com a ideia de um judaísmo mais libertário, socialista, igualitário no sentido político, mas quando eu era confrontado com a questão religiosa, batia de frente se percebia que era uma visão fechada, restrita.

ID 126: Como caracterizaria o movimento reformista?

Ele tem por volta de 200 anos, surgiu na Europa e foi uma resposta à situação pós-revolução francesa e industrial em que os judeus passaram a ser reconhecidos como cidadãos dos seus países. Eles começaram a sair das aldeias e, nas capitais, a integração não era tão simples. Quando chegavam nas universidades, por exemplo, ser cristão era uma condição para entrar. E aí começaram dois processos: um deles foi uma grande assimilação em massa, ou seja, judeus que abandonaram totalmente os valores judaicos e o outro foi de judeus que se fecharam em pequenos bairros tentando voltar a viver como nas aldeias, isolados. No meio do caminho, surge o movimento reformista propondo a possibilidade um judaísmo que dialoga mais com a sociedade.

ID 126: Fale um pouco sobre a história da SIB. Em que medida ela se aproxima do movimento reformista?

A grosso modo, o judaísmo tem três principais segmentos religiosos: o ortodoxo, o reformista e o conservador, que estaria entre os dois. A SIB não é formalmente vinculada a nenhum deles, é uma comunidade de 90 anos que recebeu diversas influências religiosas e políticas. Formou-se a partir de judeus ashkenazim, que vieram principalmente da Europa Oriental, e também sefaradim, vindos do Líbano, Egito e países árabes e essa divisão sempre foi muito mais forte. Em outra época, a comunidade se dividia entre sionistas e não sionistas, os que apoiavam a imigração para Israel e os que defendiam uma integração com a sociedade para construir o socialismo junto com todos. Com a chegada dos rabinos conservadores, os dois argentinos que vieram antes de mim, aconteceram alguns avanços liberais. Por exemplo, a mulher passou a ter mais participação dentro do serviço religioso, apesar de haver uma resistência da própria comunidade. Trazer o judaísmo para o século XXI é um trabalho delicado, pois precisamos lidar com uma comunidade que, ao mesmo tempo, não quer ter todos os compromissos religiosos, mas também não abre mão de certas características tradicionais.

ID 126: Você citou o conceito de sionismo como contrário ao comunismo. Na sua visão, essa oposição ainda é válida hoje?

Um ponto importante é perceber que todos esses movimentos são dinâmicos. Quando falei sobre o movimento reformista, trouxe as suas origens, estava falando de 1850. O movimento hoje é muito diferente do que predominou no século passado. Os próprios reformistas da época eram antissionistas, achavam que não era preciso criar o estado. Só depois da segunda guerra, o movimento recebe uma lição e mudou seu posicionamento, tornando-se sionista. E havia muitos sionistas comunistas, eu mesmo tive um professor de hebraico em Israel que tinha uma foto do Stalin que ia do chão até o teto de uma parede da sua casa. Então existe sionismo que vai desde o mais laico e ateu possível até o mais religioso, da extrema esquerda até a extrema direita. A gente vê muito na imprensa as pessoas relacionando o sionismo a uma visão de extrema direita, o que é uma associação burra. Nesse discurso você acaba, de uma maneira muito ingênua, dizendo que os palestinos são de esquerda e os judeus “sionistas” são se direita. Isso chega a ser ridículo porque existem diversos partidos políticos e movimentos de esquerda em Israel, a exemplo dos kibutzim e os movimentos juvenis.

ID 126: Em Salvador, existem dois movimentos judaicos muito diferentes: a SIB e o Beit Chabad. Como é a relação entre estes dois movimentos e como eles dialogam?

São duas comunidades de tamanhos, ideologias e papeis muito diferentes dentro da comunidade judaica baiana e dentro da sociedade em geral também. Me parece que o Beit Chabad busca marcar um território desse movimento de orientação ortodoxa aqui em Salvador, assim como tem seus enviados em vários lugares do mundo. Essa ideia atrai poucas famílias de Salvador (acho que não chega a 10) e mais israelenses e judeus de fora que estão de passagem. Já a SIB já é uma comunidade construída historicamente num período de 90 anos e funciona mais uma congregação. Dispersa, com as suas dificuldades, mas que tem uma inserção muito maior na sociedade baiana, até porque muitas pessoas da comunidade se apaixonaram e se casaram com não judeus e a SIB busca acolher essas pessoas, desde que elas queiram. O dialogo ainda é pequeno, são formas muito diferente de ver as coisas, acho que ainda falta confiança dos dois lados.

ID 126: Você fala em converter não judeus que se casam com pessoas da comunidade. Além desses casos, existem pessoas que se aproximam por interesse, por acreditaram que a família tem origem judaica ou até mesmo evangélicos que se identificam com a prática. Qual o posicionamento da SIB sobre esses casos?

Você sabe que a cada dois judeus existem três opiniões (rs), então vou falar sobre a minha visão. Primeiro, eu acho que o meu papel aqui é acolher quem já tem um laço com a comunidade, o filho de pai judeu e mãe não judia ou aquele que está afastado e sente vontade de voltar, não só para rezar, mas também para aprender. A SIB não é uma comunidade ortodoxa, está entre tradicional e liberal e, nesse sentido, a aceitação tende a ser maior, mas também não é uma coisa totalmente aberta. Algumas vezes, pessoas que se consideram descendentes de judeus da época da inquisição têm uma visão de judaísmo que não é a da nossa comunidade, parece que precisam afirmar o seu judaísmo de maneira rígida e começam a apresentar comportamentos ortodoxos que assustam os frequentadores. Outros grupos se consideram judeus crentes em Jesus, o que é uma grande contradição. Nesses casos, eu preciso dizer que esta não é a casa deles. A aproximação deve ser feita com cuidado para que as pessoas entendam a dinâmica, conheçam o judaísmo como ele é hoje e decidam se querem fazer parte da comunidade como ela é. Já fizemos conversões de pessoas que simplesmente se identificavam com o judaísmo e que hoje estão muito bem integradas na comunidade.

ID 126: Essa confusão entre religiões é muito forte em uma cidade como Salvador, marcada pela diversidade religiosa e pelo sincretismo. Como tem sido esse diálogo com líderes de outras religiões?

O termo sincretismo me incomoda um pouco. Ele foi usado para dizer, por exemplo, que o catolicismo e as religiões de matriz africana se fundiram de maneira tranquila e harmoniosa, quando me soa como uma imposição de uma religião mais forte sob outra mais fraca. Eu gosto muito da ideia do diálogo interreligioso e quero chegarem um dia em que o contato seja muito mais das comunidades do que as lideranças religiosas, apesar de já ser um passo muito importante. Estou retomando o fórum do dialogo católico-judaico e já tive algumas conversas com a [educadora e líder religiosa] Makota Valdina. Ela também ela é a favor de um diálogo das religiões de matriz africana com o catolicismo, protestantismo, espiritismo e judaísmo, sempre com respeito e sem um tentar converter o outro. Esse contato me fascina e eu espero poder aprofundar muito mais.

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