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Torcidas organizadas: tradição transformada em medo

- 21 de maio de 2014

Repórter esportivo Tony Carneiro relembra processo histórico da presença das torcidas nos estádios

Émille Cerqueira e Susana Rebouças

Não torcer para nenhuma seleção durante a Copa do Mundo é uma tarefa bastante difícil, já que este é o assunto mais falado em todos os países envolvidos na competição. Algumas pessoas reúnem as suas torcidas em casa, com os amigos e familiares. Outras preferem ir aos bares, torcer até com os desconhecidos. Mas ainda existem aqueles que preferem juntar a torcida e ir ver tudo bem de perto, nos estádios, para sentir a emoção de uma partida de futebol.

Organizar as torcidas é um costume tão antigo  que não há como especificar quando e porque começou a existir. O repórter esportivo da Rádio Sociedade da Bahia Tony Carneiro explicou que “as torcidas organizadas de time vieram antes das pessoas se juntarem para torcer pelas seleções. Na verdade, não existem torcidas organizadas de seleções como as de times, existem pessoas que vão ao estádio juntas vibrar pela vitória do seu país”.

Repórter Tony Carneiro. Fonte: Arquivo pessoal

A primeira torcida organizada do Brasil foi a do São Paulo Futebol Clube, que surgiu em 1939, em São Paulo, com a denominação de Torcida Uniformizada do São Paulo (TUSP). Depois disso, alguns times começaram a ter também as suas associações de torcedores, mas o modelo de torcida como conhecemos hoje é datado do final de 1960. “Elas surgiram a pouco tempo (fazendo referência aos anos 60) no Rio de Janeiro e em São Paulo. Depois que se espalharam pelo país e passaram a ter em todos os estados, como aqui na Bahia que temos a Bamor (torcida do Bahia) e os Imbatíveis (organizada do Vitória)”, comenta Carneiro.

Durante os jogos, as torcidas fazem uso de diversos materiais, como bandeiras customizadas, faixas com o nome da torcida e até fogos de artifício. “Nos jogos da Copa do Mundo não tem essa coisa tão clara como nos campeonatos internos, a exemplo do Campeonato Brasileiro. As pessoas usam a camisa e as cores da seleção, mas não existem faixas como nos jogos de times que acontecem durante o ano”, diz o repórter esportivo.

Torcida do Bahia. Fonte: Maria Ribeiro/Labfoto©2012

Violência nos estádios – Alguns grupos recebem ingressos para acompanharem os seus times. “Mas hoje isso diminuiu bastante, já que o que mais se vê são facções e não torcidas. Antes as associações recebiam ingresso, transporte e muitos benefícios para estarem presentes nas partidas. Hoje, como a maioria delas é violenta, o patrocínio diminuiu bastante”, lamenta Carneiro. A violência provocada pelas organizadas ganharam tanta proporção que algumas pessoas diminuíram a ida aos estádios.

Bruno Oliveira*, 22, e Gabriel Rodrigues, 21, são amigos e compartilham muitas opiniões, mas quando o assunto é futebol, cada um tem o seu lado. Bruno é torcedor do Vitória e vai aos estádios desde pequeno. Já participou de duas torcidas organizadas do Vitória em 2008 e 2011 e é a favor das torcidas dentro do estádio, mas confessa ter medo delas. “Sou a favor das torcidas dentro do estádio, mas eu tenho medo delas sim. A maioria não se preocupa com o time, seus integrantes vivem para a torcida, mal sabem qual o adversário do dia, a competição que está em jogo ou os jogadores que estarão em campo, eles vivem para eles mesmos, vide os seus gritos de guerra e materiais que valorizam mais suas marcas do que a do seu time”, conta.

Já Gabriel que também frequenta estádios de futebol desde pequeno, nunca fez parte de uma torcida organizada, mas já assistiu a muitos jogos na torcida Bamor, a maior organizada do Bahia. “Participei de um movimento, que não era torcida organizada, mas forma de organização diferente que tinha intuito apenas de apoiar o time em campo, sem uniformes, sem regras. Eu não tenho medo das torcidas organizadas, mas existe um receio, por conta da violência, e por eu não concordar com a ideologia. As brigas entre torcidas de todo o Brasil ganharam uma proporção que afetaram a forma do torcedor ir ao estádio. Muitas pessoas têm medo e procuram os jogos ‘mais fracos’, com menos torcidas”.

Bruno ainda conta que já enfrentou problemas quando estava na torcida organizada. “Em 2008 entrei numa briga de torcida, do Vitória contra vascaínos. Os cariocas estavam armados! Nesse dia acabei indo pra casa mais cedo e não assistindo ao jogo. Eu também evito BaVis com mando de campo do Bahia, onde eles são a maioria”.

Para Gabriel, muitas pessoas também não vão mais aos estádios com medo da violência. “Meu pai, por exemplo, não vai para BaVis no Barradão. Ele sente receio por conta do local do estádio e quase sempre ter brigas na saída”, conta. É o que confirma o contador Edvaldo de Jesus, 49, morador de Feira de Santana, que deixou de ir aos jogos do Bahia por causa da violência. “Eu já fui muito. Inclusive já fiz diversas caravanas com amigos para vir a Salvador assistir aos jogos. Mas hoje a violência tomou conta do campo. Hoje você vai não sabendo se vai voltar”, afirma.

“Antes as pessoas vibravam mais, porque o torcedor ia para o jogo focado na vitória do time e para transmitir energia. Hoje eles já vão com uma rivalidade tão grande que acontecem as brigas. Os pais levavam seus filhos para os estádios, até recém-nascidos. Hoje a vibração foi substituída pelo medo. Quem vai ao estádio são os jovens, que são mais corajosos e mais dispostos a tudo”, reflete Tony Carneiro. Mesmo com os pontos negativos em relação às torcidas organizadas, o repórter destaca uma coisa boa: “a vibração e a energia que eles passam para os jogadores são bem grandes. Muitas vezes o time consegue alcançar uma vitória por isso”.

Mesmo com tanta rivalidade, o sentimento de estar perto da seleção brasileira para comemorar uma vitória ainda é grande. Muitas pessoas não abrem mão disso e continuam impulsionando os jogadores à vitória, já que o importante mesmo é torcer.

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