Todo tempo do mundo

- 14 de maio de 2015

Bancos de tempo oferecem alternativas para a troca de serviços. O tempo é a moeda de troca

Lucas Gama

Os bancos de tempo são plataformas (físicas ou virtuais) que propõem a troca de serviços por tempo. Funcionam da seguinte maneira: uma pessoa oferece um tempo determinado de um serviço; em troca, recebe créditos equivalentes ao tempo do serviço. Esses créditos são computados em um banco que, posteriormente, poderão ser utilizados para “adquirir” outro serviço em troca. Assim, a moeda de troca é o tempo. Capitalizam-se serviços.

Nos bancos de tempo, há uma variedade de serviços ofertados: aulas de informática, arte e culinária (ou arte da culinária!), manutenção na casa, ajuda para carregar o peso na mudança de casa, além de companhia e cuidado de crianças, idosos, animais e plantas. Os serviços são oferecidos a partir das habilidades e (ou) da disponibilidade das pessoas.

Fonte: http://www.graal.org.pt/

Como já apontava Karl Marx, no livro Grundrisse ou Elementos fundamentais para a crítica da economia política, datado de 1858, “O que é a riqueza, senão a totalidade das necessidades, capacidades, prazeres, potencialidades produtoras, etc., dos indivíduos, adquirida no intercâmbio universal? (…) o que é, senão a plena elaboração de suas faculdades criadoras, sem outros pressupostos salvo o desenvolvimento histórico precedente que faz da totalidade deste desenvolvimento – isto é, o desenvolvimento de todos os poderes humanos em si, não medidos por qualquer padrão previamente estabelecido – um fim em si mesmo?” .

Ticiana Figueiredo, empreendedora social, facilitadora e articuladora de redes, aprova esse modelo de moeda social. “É  interessante sair da troca financeira e explorar outras possibilidades”.  Ela complementa, sublinhando a importância dessas trocas não serem necessariamente em forma de escambo. “Eu te dou algo e recebo um equivalente que posso trocar com outra pessoa. Essa possibilidade de troca não necessariamente bilateral é interessante também”.

Economia solidária e redes colaborativas

Os bancos de tempo são um exemplo contemporâneo de Economia solidária, um movimento que propõe novas formas de economia com o intuito de resolver os principais problemas do mercado e a desigualdade econômica. Com ideias que induzem relações sociais, com princípio de troca e compartilhamento, a economia solidária busca fortalecer e criar uma rede de pessoas através de um senso de comunidade. Nesse cenário estão ideias que propõem o compartilhamento de bens (de um martelo a um carro), troca de serviços e de objetos variados.

Bliive | Fonte: http://bliive.com/

A rede Bliive é um desses casos. Trata-se de uma rede colaborativa on-line, criada em uma plataforma de rede social, com usuários cadastrados a partir de perfis – numa lógica semelhante ao Facebook. Os perfis dos usuários comportam tanto uma descrição pessoal, quanto os serviços que têm interesse e que estão dispostos a oferecer.

Mais uma vez semelhantes a outras redes sociais, o usuário tem acesso e pode se conectar a conhecidos e desconhecidos. É por meio desse mecanismo que são feitas as trocas: categorias são disponibilizadas para encontrar o serviço em busca (saúde, lazer, turismo…), que permitem o acesso às inúmeras “oportunidades” de serviços em oferta.

Assim, marca-se o encontro em que créditos (em forma de tempo e nomeados “TimeMoney”) são debitados da conta de quem recebe o serviço, para a conta de quem o oferece. Cada TimeMoney equivale a uma hora que pode ser “gasta” com qualquer atividade ou serviço ofertado. Ao se cadastrar no Bliive, o usuário é agraciado com 5 TimeMoneys.

“Acho interessante você dar acesso a outras pessoas saberem como elas podem interagir com você”, diz Ticiana Figueiredo, usuária na rede Bliive. Para ela, a plataforma serve de “vitrine de possibilidades e conexões”.

Brincando e trocando

Outra plataforma do gênero é a J.E.U. – sigla para Jardin D’echange Universel (livremente traduzida como Jardim de Troca Universal),  mas que o acrônimo faz uma referência ao som  da palavra jeux, que em francês significa jogo. É justamente à base de um jogo que a plataforma foi pensada: fomenta-se um ambiente coletivo de troca de bens e serviços, no qual os “jogadores” acumulam pontos pelo número de trocas que oferecem, incluindo o seu tempo.

Portal do Jardin | Fonte: https://jardindechangeuniversel.wordpress.com/

Até aí, o J.E.U. se assemelha ao Bliive em que trocas são computadas de maneira equivalentes. A diferença, primeiramente, é que a  J.E.U. não oferece apenas serviços. Bens e produtos, como livros ou batatas, podem ser trocados ou adquiridos com os pontos. A segunda questão é que esse sistema é pensado para trocas dentro de um  em um espaço mais fechado, uma comunidade mais demarcada territorialmente.

O J.E.U. tem suas bases na França, mas também tem raízes bem afixadas no Canadá, no Quebec (possivelmente por conta da proximidade cultural francófona).Na França, por exemplo, as diferentes províncias do país e regiões da cidade articulam seus jogos. Assim, lojas e pessoas estão sempre participando. Dessa maneira, o J.E.U. oferece uma alternativa prática para o sistema financeiro, em que a pessoa pode optar por adquirir um produto ou um serviço em dinheiro ou através dos pontos conquistados no jogo. Essas trocas, porém, acabam limitando-se às comunidades, que nem sempre podem suprir todas as necessidades dos participantes.

 Voltando no tempo

Os bancos de tempo, como a rede colaborativa Bliive, que é vista como uma dos grandes projetos de 2014, não são tão modernos assim. As primeiras ideias e experiências surgiram ainda no século XIX, pautadas em pensamentos contrários aos hegemônicos, delineados por um teor (considerado na época como) anarquista. O primeiro grande exemplo é o Cincinnati Time Store, uma loja que funcionou com sucesso entre 1827 e 1830,em Cincinatti, cidade estadunidense historicamente mais progressista.

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