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Tire a mão da boca, menin@!

- 22 de outubro de 2014

Hábito compulsivo de roer as unhas está ligado a diversos fatores, como ansiedade, depressão e transtornos alimentares 

Vitor Gabriel

As pessoas não conseguem responder por quais motivos elas roem as próprias unhas. Às vezes, um longo momento em uma fila ou no ponto de ônibus à espera do transporte coletivo e pronto. Logo a mão vai à boca como forma de aliviar aquele sofrimento e a pessoa se sente bem, ao menos momentaneamente. O hábito começa quase sempre na infância, fase que mães ameaçam passar pimenta, cebola, alho e outros condimentos culinários nos dedos dos filhos caso não obedeçam à ordem de tirar a mão da boca.

A onicofagia, termo clínico para o costume de roer compulsivamente as unhas dos dedos das mãos ou dos pés, está dentro do espectro do transtorno de ansiedade por ser um hábito repetitivo, mas não chega a ser exatamente um sintoma do Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). “Começa a requerer cuidados quando a pessoa tem um prejuízo social ou ocupacional”, explica a médica residente em psiquiatria do Hospital das Clínicas, Livia Castelo Branco. “Tem certo momento que ela evita sair, fazer novos amigos e também não consegue emprego porque começa a ter vergonha e se isolar”, conta.

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Welldon Jobert começou a roer as unhas ainda na infância. Hoje, aos 25 anos, continua com o hábito. “Para mim é um ato involuntário. Às vezes chega a sangrar e aí eu já passo a ter mais cuidado porque dói pra caramba. Mas como não atrapalha a minha vida e eu nunca peguei nenhuma doença, ainda não procurei tratamento”, conta. Na adolescência ele deu uma pequena pausa no costume, quando estava aprendendo a tocar violão. Mas logo depois retornou à prática.

Há vários motivos ligados ao hábito de roer unhas. Pode ter relação com ansiedade, transtorno alimentar, depressão, timidez e insegurança. Porém, as causam variam de pessoa para pessoa. “Alguns autores relacionam à ausência da mãe ou à necessidade de confrontar os pais, mas são teorias difíceis de provar. Então a gente não se fixa tanto na causa”, completa Livia. Outra explicação é o chamado déficit de controle inibitório, que é quando se tem o comportamento e não consegue parar. É aí que surgem os primeiros ferimentos.

O alvo do adolescentes Sérgio Menezes não é apenas as unhas das mãos. “Eu roo a dos pés também porque lá é onde tem mais unhas”, diverte-se. Quando perguntado por telefone até que ponto rói as unhas, diz que tem uma “sarando agora”, pois o hábito que o acompanha desde os cinco anos de idade sempre lhe causa um ferimento ou inflamação nos dedos. Mesmo assim, acredita que não precisa de nenhum tipo de tratamento. “Acho que dá pra conviver com as outras coisas assim mesmo”, finaliza.

Tratamento psicológico – Quando a onicofagia se manifesta de forma isolada, o quadro pode ser considerado leve e não chega a causar grandes problemas. Então não há procura por um psiquiatra. O hábito está quase sempre associado a outros transtornos mentais, como ansiedade generalizada e TOC, mas é possível um paciente procurar atendimento específico para o caso, apesar de não ser comum. No ambulatório de ansiedade do Hospital das Clínicas, no bairro do Canela, a maioria das pessoas não tem problemas graves, “mas tem uns que chegam com a unha aqui assim (faz uma demonstração com o próprio dedo indicando a unha minúscula do paciente), com a unha bem ferida. Você vê sangue, vê a cicatriz”, garante a psiquiatra Livia Castelo Branco.

Não existe um tratamento específico para a onicofagia. Se a pessoa tem um comportamento e não consegue parar, é indicada psicoterapia ou medicação que aja no controle de impulso. Para a ansiedade e depressão, considerando a gravidade, podem ser utilizados antidepressivos ou antipsicóticos. Outro método utilizado é a psicoeducação, que consiste em conversar com os pacientes sobre os riscos. É a partir de um contexto mais amplo que o tratamento começa, como o que provoca a ansiedade no paciente. De acordo com a Análise do Comportamento – área da Psicologia que avalia a interação entre organismo e ambiente –, são investigados os fatores filogenéticos (relacionados à evolução das espécies), genéticos e culturais para entender as variáveis que produziram como também quais mantêm o comportamento, uma vez que se entende o caso como um fator multicausal.

Se o paciente considerar que o seu grau de onicofagia é leve, o atendimento psicológico é suficiente. Mas se ele já tentou parar por diversas vezes e não conseguiu, é indicada a consulta com um psiquiatra. A psicóloga Mychelle Morais diz que, segundo a Análise do Comportamento, a ansiedade é por si só uma consequência e por isso tem diversos fatores envolvidos. Desta forma, ela não costuma perguntar ao paciente porque ele rói as unhas simplesmente. “O indivíduo geralmente não analisa antes de emitir um ato de compulsão, é uma forma de alívio. Ninguém quer ficar com os dedos lesionados, então, não é um ato plenamente consciente ou intencional”, explica. No processo psicoterápico é realizada análise funcional desta conduta, o que dá respaldo para o desenvolvimento de comportamentos de autonomia diante as dificuldades enfrentadas pelo paciente.

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