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Tecnoxamanismo, crowdfunding e afeto em festival internacional

- 30 de julho de 2014
Catarse tem uma plataforma confiável, mas não ajuda muito. Se você vê no final a plataforma não ajuda seu projeto, nem a ser alavancado, nem a ser financiado. É tudo com você!”

Alex Oliveira

Fabiane Borges durante o I Festival de Tecnoxamanismo em Arraial D'Ajuda. Foto: Nubia Abe

Fabiane Borges é psicóloga, ensaísta e artista. Desenvolve pesquisas envolvendo arte urbana, performance, movimentos sociais, esquizoanálise e saúde mental. Fabi, como é conhecida no círculo de amigos, foi produtora do I Festival Internacional de Tecnoxamanismo que aconteceu em Arraial d’Ajuda, na cidade de Porto Seguro-BA. Foram oito dias de festival, entre os dias 23 a 30 de abril de 2014.

O objetivo era criar e manter coletivamente uma rede de colaboração entre projetos nacionais e internacionais que atuam no sentido da transformação de práticas e pensamentos, modos de vida e condição humana. Durante o período do festival, as pessoas ficaram imersas em uma floresta entre o sítio do Instituto de Tecnologia Alternativa, Permacultura e Ecologia (Itapeco) e a Casa de Barro, que ficam a 1,5 km de distância entre si e a alguns quilômetros da Vila de Arraial D’Ajuda. A entrevista que foi realizada por Skype numa conversa despretensiosa sobre tecnoxamanismo, afetos e crowdfunding.

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Impressão Digital 126 – De onde surgiu a ideia para o I Festival Internacional Tecnoxamanismo? Quem formatou o conceito?

Fabiane Borges – Quem organizou o evento fui eu e George Sander, artista, arte-educador social e produtor. Nós dois temos interesse nesse assunto faz algum tempo. Eu particularmente ajudei a organizar o Encontro de Tecnomagias que aconteceu em 2012 no Nuvem – Estação Rural de Arte e Tecnologia. O espaço funciona como residência artística em Visconde de Mauá, Rio de Janeiro. Durante o encontro, fiz um vídeo trazendo em questão para os participantes: O que é tecnomagia?

Essa ideia faz parte de uma rede mundial, com diversos nomes. Tecnomagia, Gnoise, Technospirituality, Cibermagia etc. Estou puxando o tecnoxamanismo, por causa da luta indígena no Brasil. Acho que faz sentido prestar atenção um pouco no universo do xamanismo indígena latino-americano e brasileiro, exatamente porque os índios estão em um momento de fortalecimento das lutas, com os pontos de cultura e os projetos de vídeos nas aldeias. Temos nossos inspiradores como Davi Kopenawa, Raoni, entre outros pajés que têm se erguido nesses tempos. O perspectivismo também é uma teoria que inspira muito e que nos traz essa quase metodologia de inversão ontológica, ou seja, a mudança do plano antropocêntrico para outro plano mais conectado com toda essa força do universo. Inclui nisso toda a cultura do it yourself (faça você mesmo) e do software livre, as comunidades hacklabistas, entre outros. São eles quem estão dando as respostas mais interessantes sobre a apropriação do conhecimento tecnológico e científico. O que responde ao mal estar de como fazer ciência e tecnologia, sem a produção incessante de destruição massiva, produzida pelas grandes indústrias, sejam farmacêuticas, de madeira ou dos próprios hardwares – parte física de um computador.

ID126 – Quais foram os desafios em produzir um festival sem ajuda de um edital ou patrocínio? Você já tinha apoiado outros projetos financiados pelo crowdfunding?

F.B. – No crowdfunding diretamente não, mas fui apoiadora de vários encontros, festivais e eventos, ligados à arte, mídia e sem teto, sem terra, submidialogia, metareciclagem, arte urbana, intervenção urbana, produção de livros colaborativos etc. Para mim foi uma experiência pesada. O Catarse tem uma plataforma confiável, mas não ajuda muito. Se você vê no final a plataforma não ajuda seu projeto, nem a ser alavancado, nem a ser financiado. É tudo com você! E eles ainda tiram uma porcentagem alta do valor arrecadado. Então acho que não faria isso de novo, mas talvez farei, não sei. Mas acho que tem que se inventar outras maneiras de se autofinanciar, sem depender tanto de editais, que é uma cultura muito chata. Talvez tenhamos avançado um pouco em relação a questão da apadrinhagem ou do QI [quem indica]. Mas ainda estamos muito longe de algo produtivo e democrático. O sistema de editais é cruel, competitivo, nada pessoalizado e faz toda uma rede de companheiros competirem entre si, valorizando pessoas e grupos em detrimento de outros. Não é compatível com uma cultura de rede.

ID126 – De acordo com uma pesquisa do Catarse, o afeto é o principal motivo da disposição em apoiar projetos colaborativos. Com o festival aconteceu dessa forma? Foram as redes de afeto as responsáveis pelo apoio do projeto?

F.B. – Foi a rede de afeto, mas também da forçação de barra. A gente teve que trabalhar muito. Mandar diariamente para todo mundo, falar diretamente com as pessoas, pedir cara a cara. A plataforma não ajuda. Ela só tem uma vantagem: é organizada e mantém uma relação direta com seu usuário, o que ajuda no modo como o projeto aparece.

Nos últimos dias, contamos com o apoio da francesa Laurence Trille, uma das organizadoras da festa Voodoohop, responsável pela festa feita no Teatro Oficina. Deu para ter dinheiro para trazer o Ônibus Hacker, que pegou pessoas de São Paulo e no Rio de Janeiro e veio subindo com a galera. Foi muito importante esse apoio da Voodoohop, do Keroacido, do Ônibus Hacker, do LCCPI, Laboratório de Corpo-Criação-Performance-Interferência da Bahia, do Itapeco (Arraial d’Ajuda) Pataxós de Aldeia Velha. Foi muito importante a ajuda de todos esses grupos e pessoas, senão não teria acontecido o festival. Quase todos que ajudaram foram amigos dos organizadores ou estavam na rede do tecnoxamanismo. Nossas redes de afeto são quase sempre a mesma e todo mundo tem projetos para pedir dinheiro, então, fica um campo saturado. Se pede dinheiro para vários projetos para as mesmas pessoas. Mesmo assim já é uma forma de alavancar certa independência dos editais e organizações privadas.

ID126 – Em entrevista ao documentário Três mil Km de Carlos Gonzalez, produzido durante o festival, você relatou que levava consigo uma dúvida. Seria o festival a forma mais viável de produzir encontros? Como ficou essa dúvida depois de quase três meses de realização?

F.B. – Não sei ainda. (risos) É muito bom encontrar as pessoas. E esse festival foi transformador para todo mundo. Criou uma zona de amor e fez grupos que não se conheciam se conhecer. O fato de não ser grande, mas pequeno e próximo aos índios pataxós, criou uma aura de cumplicidade e amor coletivo. Tudo foi muito horizontal, sem papel de líder ou dono do campinho, daí foi bem emocionante em vários momentos. Acho que super valeu a pena, mas realmente se fizermos outro festival em 2015, talvez não seja com o mesmo formato. Ainda não sabemos qual seria o formato ideal, mas é muito importante promover o encontro das redes de interesses e afetos.

ID126 – E o II festival acontecerá novamente em Arraial d’Ajuda ou você já em vista outro lugar?

F.B. – Acho que várias coisas vão brotar desse festival. E é possível que outras pessoas organizem. No momento, estou pensando no sul da Bahia novamente, para fortalecer nossa aliança com os Pataxós. Uma coisa de 2 meses, não de 10 dias, com pessoas chegando e partindo a todo momento, mas isso é só uma ideia. Não sabemos ainda. Agora o que temos em mente é a organização do livro, que tem levado todo nosso investimento. O II festival provavelmente vai acontecer. Não sabemos ainda como e quando. Por mim, sul da Bahia com os Pataxós.

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