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Serviços públicos de saúde se preparam para receber pacientes com microcefalia

- 9 de março de 2016

O aumento de casos da síndrome demanda infraestrutura especializada e multidisciplinar para atender bebês e familiares

Victória Libório | Foto destaque: Caique Bouzas/Labfoto

Um a dois casos para cada mil nascidos vivos. Esta era a projeção da taxa de bebês portadores de microcefalia até o final de 2015, quando as autoridades federais declararam estado de emergência nacional em saúde pública. Segundo o Ministério da Saúde (MS), atualmente o número de casos suspeitos já soma quase 4800 bebês, dos quais 404 já foram confirmados. Entretanto, a previsão é que este número aumente ainda mais nos próximos meses por conta da possível relação entre a infecção pelo Zika Vírus e as alterações neurológicas dos fetos.

“Como o surto da infecção pelo Zika ocorreu a partir de maio do ano passado, as famílias com bebês atingidos começam a chegar por agora às instituições públicas em busca de tratamento especializado”, afirmam os neuropediatras Janeuza Primo e Antônio Andrade, das Obras Sociais Irmã Dulce (OSID) e Hospital das Clínicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), respectivamente. Diante desse cenário, instituições públicas de todo o Brasil e, principalmente da Bahia — um dos estados mais afetados pelo Zika — se preparam para receber numerosos casos de bebês com microcefalia ainda em seus primeiros dias de vida.

A medida está de acordo com as “Diretrizes de Estimulação Precoce: Crianças de 0 a 3 anos com atraso no desenvolvimento neuropsicomotor decorrente da microcefalia”, publicada pelo MS em fevereiro deste ano. O documento conta com orientações para a estimulação precoce de crianças portadoras da síndrome.

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 A OSID, localizada no Largo de Roma, em Salvador, foi uma das primeiras instituições do Brasil a abrir um ambulatório de referência para as ocorrências de microcefalia. O Ambulatório de Neuropediatria da instituição, que já atendia pacientes com diversas patologias durante dois dias da semana, teve que abrir as portas por mais um dia para conseguir dar conta da demanda. Coordenado por Janeusa Primo, o ambulatório faz parte da força tarefa baiana para o estudo desses casos e envia, semanalmente, dados aos pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

“Desde novembro do ano passado, quando disponibilizamos três dias de atendimento no Ambulatório de Neuropediatria, já atendemos 109 casos confirmados”, afirma Janeuza. De acordo com ela, as famílias que passam pela primeira consulta são encaminhadas para realizar exames laboratoriais e de imagem, retornando ao hospital para receber o diagnóstico do médico. Depois disso, são encaminhadas para a reabilitação com a equipe multidisciplinar. “Já faz parte da rotina receber novos pacientes com suspeita da doença. Estamos cogitando, inclusive, aumentar o ambulatório para um novo turno, pois temos consultas marcadas para o próximo mês, o que é muito longe considerando o risco que é um bebê com microcefalia sem atendimento”, completa.

COMPLEXIDADE DO TRATAMENTO

O Centro de Prevenção e Reabilitação do Portador de Deficiência (Cepred), outra instituição que oferece atendimento contínuo ao paciente com microcefalia, também alterou sua rotina para receber os bebês portadores da síndrome. A instituição costumava receber um caso de microcefalia a cada três meses, mas há quatro começou a atender 21 crianças três vezes por semana, para a reabilitação. A instituição remanejou as crianças com outras deficiências e preparou sua equipe para receber, pelo menos, 50 casos. Os bebês chegam ao serviço com dias de nascido e são acompanhados até os três anos.

A microcefalia apresenta vários níveis de comprometimento neurológico. Da mesma forma que alguns bebês podem apresentar uma rigidez dos membros, outros podem ter dificuldades na deglutição, por exemplo. Dessa maneira, a abordagem é extremamente complexa, como indica Marília Marques, fisioterapeuta da intervenção no Cepred. “Não há como prever qual a necessidade que o bebê apresenta para a reabilitação. Não existe uma fórmula ou um modelo sobre a necessidade de estímulo que a criança tem e o que ela pode fazer no momento”, explica.

Síndrome de microcefalia demanda atendimento especializado e multidisciplinar | Foto: Caíque Bouzas

Para além do cuidado com o bebê, os serviços apostam no auxílio social e psicológico à família por meio de uma equipe multidisciplinar. Josiane Santana, 36 anos, é mãe de gêmeos, dos quais somente um, o pequeno Bernardo, nasceu portando a síndrome. Três vezes na semana ela se dirige ao Cepred, onde aprende com fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, entre outros profissionais, como fazer o melhor para seu filho.

Entretanto, quando ainda estava se adaptando à chegada do filho, não teve uma boa experiência com o serviço público de saúde. “No posto de saúde do bairro conversei com a pediatra e ela disse: ‘Olha, mãe, você sabe que bebê assim só vive até sete anos, né?’ Mas eu tenho cuidado e acompanho meu filho em todos os médicos, sei que não é assim. Ela falou isso por ignorância”, afirma.

O contato com uma grande equipe de saúde e a realização de exames constantes tomam a maior parte de sua semana e, apesar de estar se adaptando à nova rotina, Josiane revelou algumas táticas usadas para chamar a atenção do filho. Usar cabelo solto e batom vermelho foram algumas das dicas que ganhou dos profissionais do Cepred.

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