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Seção Memória da Biblioteca Central da UFBA guarda relíquias pouco conhecidas da comunidade UFBA

Saulo Miguez e Tiago Oliveira - 31 de agosto de 2017

Há mais de 30 anos como bibliotecária da UFBA, Tereza Gonçalves conhece a fundo os tesouros ainda pouco visitados

Saulo Miguez e Tiago Oliveira

Acervo da biblioteca (Foto: Tiago Almeida)

No pavimento mais alto da Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa – mais conhecida como Biblioteca Central da UFBA– por detrás da porta à esquerda de quem sobe as escadas, estão algumas das mais valiosas preciosidades do enorme acervo da universidade. A Seção Memória preserva coleções particulares que pertenceram a intelectuais baianos e foram doadas por eles ou suas famílias para consulta pública. Estão por lá, por exemplo, as livrarias de Armindo Bião, Cruz Rios, Anísio Teixeira e Hélio Simões.

O espaço também guarda cópias de todos os trabalhos de conclusão de curso e dissertações de mestrados e doutorados apresentados pelos alunos da Universidade, uma infinidade de CDs, DVDs, VHSs que contam a história da UFBA. Todo esse material ajuda a compor a relação de 145.434 volumes da Central, que estão distribuídos em 56.176 títulos.

Na seção estão ainda coleções de objetos pessoais e relíquias dos laboratórios da instituição que nos fazem viajar no tempo. São microscópios, louças portuguesas, medalhas, balanças, a borla do Reitor. Um verdadeiro museu sobre nossas cabeças.

A guardiã
Tanta história é mantida sob silêncio ‘monastérico’ raramente atravessado pelo toque da campainha que anuncia a chegada de visitantes. Em um dia de sorte, as visitas serão recepcionadas pelos olhos serenos e a voz mansa da bibliotecária Tereza Gonçalves. Funcionária concursada da UFBA desde 1982, ela já poderia estar aposentada. A paixão pelo o que faz, no entanto, a mantém de luvas de procedimentos nas mãos e de olhos vivos em cada detalhe das obras que chegam à sua bancada para ser catalogada.

Instrumento faz parte do acervo no 4º andar da biblioteca (Foto: Tiago Almeida)

“Preciso pensar em como vocês alunos irão pesquisar os livros”, explica Tereza enquanto passeamos por entre as estantes. “Vê esses livros que não têm etiquetas?” – pergunta com o dedo apontado para uma pilha de volumes – “são os que faltam ser catalogados”, completa.

A pouca circulação de pessoas na sala do terceiro pavimento contrasta com o movimento intenso dos andares de baixo. Diariamente pela Biblioteca Central, que desde 1968 atende alunos, professores, servidores e a comunidade externa, circulam cerca de três mil pessoas que vão se abrigar da chuva, matar uma aula e, vez por outra, ler um livro.

Tecnicamente apaixonada
Tereza é responsável pelo processamento técnico e por alimentar o sistema Pergamum com as obras que chegam à seção. Para fazer isso de forma ágil e precisa, desenvolveu uma técnica de leitura dinâmica que a permite registrar até dez obras diariamente.

“Eu não leio o livro todo, até porque isso levaria muito tempo. Me concentro nos pontos que sei que são chave para entender a obra e poder encaixá-la na categoria correta para vocês [alunos] pesquisarem”, comenta.

Apesar do trabalho carregado de raciocínio e técnica, a bibliotecária é só sentimentos ao narrar o ofício. “Tem horas que me controlo porque vou ficando encantada com o que eu vou lendo. É paixão mesmo”, descreve.

O olhar rodeado de brilho da bibliotecária, por sua vez, como que por um capricho do destino não será visto nesta matéria. Bem articulada com as palavra, mas ao mesmo tempo introspectiva, Tereza não se deixou fotografar. “Pelo amor de Deus!”, pediu – não insistimos.

Foto: Tiago Almeida

Papel, caneta e coração
Para além das letras impressas, o que faz Tereza suspirar nas obras não são as contribuições de quem propriamente escreveu ou editou o livro, e sim aquelas linhas escritas a mão, geralmente na folha de rosto do volume, e que costumam finalizar com a data do dia e uma assinatura. “Tive momentos que fiquei emocionada ao ler as dedicatórias dos alunos para os professores porque vi o carinho pelo mestre”.

Pelas obras preferidas dos intelectuais que hoje repousam seus acervos sobre as prateleiras da Central, Tereza acaba conhecendo um pouco da personalidade de cada um desses pensadores a ponto de se referir a alguns deles como quem fala daquele amigo de infância. “O forte do Armindo Bião é a antropologia. Mas ele lia de tudo”, afirma com propriedade.

O professor Armindo Bião, ou melhor, a biblioteca dele, aliás, foi o que trouxe Tereza de volta ao prédio da Central, há cerca de dois anos. Ela estava na biblioteca do Instituto de Física, onde se acostumou a lidar com fórmulas, incógnitas, números. “Não era raro eu pedir ajuda a algum aluno que passava pela biblioteca para saber onde determinada obra ficaria melhor classificada”.

Apesar de todo encantamento pelos livros, o que está para além das janelas da seção Memória é igualmente catalogado no acervo do coração de Tereza como obras raras. “A natureza faz essa benevolência pra gente e não cobra nada”, narra enquanto mira o olhar distante e ao mesmo tempo concentrado sobre o verde da Mata Atlântica que recobre o campus de Ondina.

Os mais de 35 anos dedicados aos livros desenvolveram nela um tino para sacar se uma obra é boa ou não. Essa perspicácia não tem nada a ver com forma, estilo e nem sempre está relacionada ao conteúdo. Aliás, não é nem sequer material. O que faz da leitura inesquecível é o tanto de sentimento que o escritor derramou sobre as páginas. “Quando o autor escreve com a alma, você percebe a alma falando. É diferente”.

Pedro Novaes, estudante de Engenharia Civil (Foto: Tiago Almeida)

Obras da área de Saúde são as mais procuradas da Central
O estudante do 3º semestre de Engenharia Civil Pedro Novaes, 20 anos, é um dos milhares de alunos que usufruem da estrutura da Biblioteca Universitária Reitor Macedo Costa e quase que diariamente respira o ar puro de conhecimento que circula das prateleiras para as mesas da Central. “Aqui é mais perto do PAF, do RU [Restaurante Universitário] e geralmente é muito tranquilo”, conta o jovem que aproveita o intervalo entre as aulas da manhã para estudar.

Enquanto Novaes se debruça sobre incógnitas e equações, a graduanda em Ciências Naturais Amanda Santos, 21, que está no seu primeiro semestre de faculdade, corre para devolver um exemplar do livro A Célula. “Geralmente pego livros a cada 15 dias aqui na Central e também uso as salas reservadas para fazer trabalhos em grupos e estudar”, disse Amanda.

Amanda Santos, estudante de Ciências Naturais (Foto: Tiago Almeida)

A obra cedida à futura cientista, inclusive, está entre as mais requeridas do gigantesco acervo com mais de acervo de 52 mil livros. Na lista dos cinco títulos mais procurados, nada de clássicos da literatura inglesa ou romances de Jorge Amado. Segundo a coordenadora geral do espaço, Nelijane Campos, as obras da área de saúde são as que menos tempo passam repousando sobre as estantes.

De acordo com um levantamento passado pela direção da biblioteca para a realização desta reportagem, os cinco títulos mais emprestados são: Histologia básica; Fundamentos da biologia celular; Biologia molecular da célula; A célula: uma abordagem molecular; Anatomia dos animais. Os alunos que mais realizam empréstimos também vêm dos institutos de saúde, sobretudo os graduandos em Biologia e Farmácia.

Público dos finais semana é de cerca de 1% dos dias normais
Desde o mês de maio do ano passado, a Biblioteca Central Reitor Macedo Costa passou a funcionar durante os finais de semana. A ampliação do funcionamento aos sábados e domingos, segundo a UFBA, visa oferecer maior acolhimento da comunidade acadêmica aos serviços da biblioteca, ampliando o acesso às atividades de estudo e pesquisa no acervo disponível na unidade.

A circulação de público fora do chamado horário comercial, por sua vez, está muito abaixo dos dias normais. Enquanto de segunda à sexta-feira cerca de três mil pessoas passam pelo espaço, aos sábados e domingos esse número cai para 30, que representa algo em torno de 1%.

Nelijane Campos, coordenadora do espaço, conta que apesar do número ainda baixo de visitantes é importante manter o funcionamento no horário estendido como forma de atrair o leitor. “Assim a gente estimula a visitação e aos poucos forma um público”, disse.

Ela, no entanto, reforça o convite para que as pessoas, não só alunos e professores, mas a comunidade de modo geral, para frequentarem a Central. “Esse espaço é nosso e a gente precisa ocupar ele”, frisou. Durante a semana, a biblioteca funciona das 7h30 às 21h e aos sábados e domingos das 8h às 16h.

Hoje, quadro de funcionários da Biblioteca Central conta com 18 técnicos administrativos, 15 bibliotecários e 22 terceirizados que dão conta de preservar tanto conhecimento concentrado em um ambiente tão lúdico. Os espaços para leitura são amplos e arejados e possuem cabines individuais para aqueles que desejam uma leitura mais reclusa.  A biblioteca abre durante a semana das 7h30 às 21h e aos sábados e domingos das 8h às 16h.

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