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Saúde mental: o que a universidade está fazendo com a sua?

Laura Lorenzo e Luiza Leão - 23 de dezembro de 2017

Estudantes de medicina denunciam que carga horária estabelecida pela UFBA precisa ser excedida para que os alunos fechem a grade semestral

A carga horária exagerada em cursos universitários, a dedicação nos estudos, a elevada demanda nos estágios, monitoria, teses e outras atividades ligadas ao universo acadêmico têm desencadeado o desenvolvimento de algumas doenças que afetam a saúde mental dos estudantes, como por exemplo ansiedade e depressão. Relatos de universitários comprovam que os excessos de atividades propostas pelo curso de medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), por exemplo, chegam a exceder a carga horária máxima estabelecida pela própria universidade. Esse limite é ultrapassado e uma matrícula presencial precisa ser feita após o prazo de inscrição do Sistema Acadêmico (SIAC) para o fechamento da grade semestral.

A estudante de medicina do 4º semestre Ana Victória Serafim, de 20 anos, sentiu na pele o peso da graduação pela demanda exacerbada e caracterizou esse modelo de matrícula como “absurdo”. “É um desrespeito com os alunos, um absurdo. Se a UFBA estipulou uma carga horária máxima é porque existe um motivo para essa carga horária ser máxima. Eles brincam com isso, o colegiado de medicina brinca com isso, acha que pode passar por cima das regras”, criticou.

O problema é que para dar conta das demandas elevadas, a estudante de medicina já cogitou a automedicação, assunto abordado na última edição do ID 126. “Eu nunca tomei nenhuma medicação, mas já pensei em tomar ritalina. Conheço vários colegas que tomam. Eu já cheguei a comprar uma cartela, mas desisti de usar”, contou. A redação do ID 126 tentou entrar em contato com o colegiado da Faculdade de Medicina da UFBA (Famed), mas não houve resposta.

Ainda de acordo com o relato da estudante, sua maior dificuldade é conciliar o número de aulas com as atividades da própria instituição. Ela contou que muitas vezes hobbies e até mesmo sua vida pessoal e relação com família e amigos precisaram ser até deixados de lado.

“Eu sinto que a demanda da faculdade muitas vezes me impede de me dedicar a coisas extras que eu tenho interesse. Eu não tenho tempo porque tenho que estudar. O estresse interfere na minha rotina, o cansaço. Eu já sofri de ansiedade por causa da faculdade, por ficar muito nervosa com o nível de cobrança que algumas provas exigem. Eu já sofri por achar que não iria conseguir, que eu não teria capacidade, que eu não era digna de merecimento de uma vaga de medicina”, disse.

Também graduando em medicina, João Maurício Barreto, de 25 anos, viu o seu quadro depressivo, que já estava controlado, piorar por causa do excesso de demandas. “Eu já tinha parado de tomar remédio, só que com a faculdade eu tive que voltar a tomar porque a sobrecarga foi muito grande, atrapalhava a minha rotina e eu não conseguia dormir a noite. Durante o dia eu não conseguia render porque não tinha dormido. Virou um ciclo bizarro. Não foi necessariamente o que surgiu, mas foi um gatilho para aquilo que já existia”, disse.

Sobrecarga vai além do curso de medicina

Mas esse mal não se restringe aos estudantes da Fameb. A estudante da Faculdade de Comunicação da UFBA (Facom) Camila Fiuza caracterizou sua atual situação na universidade como ‘sobrecarregada’ e contou que o excesso de demandas também já afetou diretamente sua saúde mental.

“Eu tenho ansiedade generalizada, depressão e transtorno bipolar. Fui diagnosticada no Smurb [Serviço Médico Universitário Rubens Brasil], que é o serviço médico aqui da UFBA. Fiz vários procedimentos, exames. Faço uso de medicamentos, o que é muito chato porque dá muito sono. Às vezes eu tomo um remédio de noite para dormir e de dia eu não tenho nem vontade de levantar da cama. O despertador toca, toca, toca e eu não consigo levantar, por causa dos remédios também e a própria depressão”, contou ela, que confirmou que a pressão na universidade foi um dos fatores que desencadearam os problemas.

“Eu tive muitas dificuldades e muitos prejuízos aqui na Facom, e eu acabei abandonando muitas disciplinas, trancando. Às vezes eu me sinto muito fracassada por isso. Isso é muito chato porque você quer concluir a disciplina porque ninguém quer ficar na faculdade para sempre, todo mundo quer se formar e quando você tem essas dificuldades você se sente ruim, inferior de ver os seus colegas se formando e você não se forma”, acrescentou ela.

Na Faculdade de Farmácia da UFBA, o ‘surto’ de um aluno pressionado pelas exigências diárias da faculdade chamou atenção para a necessidade de cuidar da saúde mental da comunidade universitária. A estudante Jackeline Marley Araújo, que está no sétimo semestre do curso, contou que uma assembleia para discutir o assunto foi promovida após o ocorrido. “A gente tem várias disciplinas que nos aterrorizam desde que entramos. E fizemos essa roda de conversa para tentar gerar um grupo de apoio para que as pessoas se sentissem confortáveis e acolhidas ao ver que não é só ele que sofria com aquela disciplina”, contou.

Ainda de acordo com ela, além da demanda acadêmica, os alunos ainda têm que lidar com professores que tornam a vida na faculdade ainda mais difícil, com assédios e humilhações. “Passamos por diversos assédios morais no decorrer da graduação. Do nível de professor falar para aluna que ela não deveria estar lá se ela não tinha condições financeira”, relatou a estudante.

Programa PsiU

Pensando no bem estar dos estudantes, como também no dos servidores e corpo técnico da UFBA, foi criado no começo de dezembro deste ano o programa PsiU, para oferecer bem estar psíquico na universidade. Desde então, 20 estudantes já foram acolhidos. O serviço surgiu depois que demandas foram identificadas através do serviço médico e ouvidoria, com o objetivo de “apreciar e melhor entender como a convivência ocorre dentro da instituição”, como descreve a própria página oficial do grupo no Facebook.

Em vídeo divulgado na página do programa na rede social, a pró-reitora de desenvolvimento de pessoas da UFBA, Lorene Pinto, definiu o projeto como uma ação para melhorar o convívio na universidade. Recentemente, dois casos de suicídio em uma universidade de medicina em Minas Gerais chamaram atenção para o problema da saúde mental dos estudantes das instituições de ensino superior do país, causando grande repercussão em diversas plataformas digitais.

“Podemos dizer que as ações ainda estão começando, outras atividades como novos grupos, conferências, debates e articulação com a rede de Saúde Mental da própria UFBA e municipal devem ocorrer em 2018”, avalia o psiquiatra Marcelo Veras

De acordo com o psiquiatra Marcelo Veras, um dos integrantes da equipe do PsiU, a ideia é justamente evitar que os casos cheguem a esses extremos, entendendo questões de maneira ainda precoce, e cuidando dos alunos da sua instituição. “O projeto não tem como assegurar uma terapia continuada, mas pode assegurar uma série de até 10 encontros, o que é bastante significativo na tentativa de elaboração de alguma questão psíquica”, explicou.

Na UFBA, além das demandas excessivas, um outro fator que potencializa essas questões, segundo Veras, é o distanciamento de parte dos universitários de suas famílias. “Percebemos que muitas das questões são decorrentes da mudança do ambiente familiar para a vida universitária, que traz por vezes um aumento da pressão e da competitividade, bem como um afastamento, muitas vezes territorial, das famílias”, contou.  

O psiquiatra acrescentou também que, por ser recente, não há um quadro preciso das demandas mais recorrentes dos estudantes. “Contudo, é fácil perceber que muitas vezes as questões passam igualmente por uma precariedade social que demanda ações para que esses alunos permaneçam na universidade”, completou ele.

Atualmente, 13 psicólogos fazem o acolhimento de estudantes e corpo de funcionários no PsiU, sendo outros 5 profissionais da UFBA (professores ou servidores), além de um psiquiatra. O projeto funciona em regime de plantão das 9h as 17h, de segunda a sexta-feira, com exceção das quartas-feiras, que é das 9h até as 13h. Nesses horários, há um psicólogo disponível para conversar com aqueles que necessitarem de algum apoio psicológico.

“Podemos dizer que as ações ainda estão começando, outras atividades como novos grupos, conferências, debates e articulação com a rede de Saúde Mental da própria UFBA e municipal devem ocorrer em 2018”, acrescentou o psiquiatra.

Aliado ao PsiU, o Sankofa: Pedagogias Marginais e Diversidade, projeto de extensão do programa, desenvolve atendimentos em grupo para acolher a universidade como um todo. “As questões do sofrimento na vida universitária estão surgindo em todos as Universidades. Esse é mais um projeto que foi pensado aqui na UFBA para dar conta desse desafio”, disse Veras.

Nos encontros, realizados às terças-feiras, às 10h na Pró-Reitoria de Pessoas, no Campus da UFBA em Ondina, atividades em grupo são propostas para promover saúde e bem estar aos integrantes, bem como discussões e formas de apoiar aqueles que, entre outras questões, sofrem com a necessidade de produtividade em excesso, com o conteudismo exagerado, aspectos que trazem prejuízos na vida universitária.

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