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Salvador em 36 poses

- 4 de fevereiro de 2013

Um retrato dos laboratoristas e da fotografia analógica em Salvador

Amana Dultra

 

36 fotos, um filme. Número suficiente para fotografar cada um dos laboratoristas que ainda trabalham com revelação em Salvador. Durante anos, foi com eles que as fotos de viagens de férias saíram dos negativos e se transformaram em imagens, hoje guardadas nos álbuns de família. Mesmo com a chegada da tecnologia digital, muitas de nossas histórias e memórias continuam registradas assim.

As memórias da história ainda viva da fotografia analógica em Salvador se misturam em grande parte com o Centro Histórico, onde a cidade nasceu. As mais tradicionais e resistentes lojas do ramo se concentram nessa região. Caminhar pela Rua Chile e pela Joana Angélica é voltar ao tempo da Polaroid, da Kodak, dos rolos de filme. Da Praça da Piedade se avista um lambe-lambe e, seguindo a rua, a Baiano Fotografia. Vilson Santos de Santana é o laboratorista da loja e, desde 1983, vem aprendendo os mistérios da revelação. “Hoje, com as máquinas automáticas é colocar o carretel do filme na processadora e esperar que ela faça o trabalho com os químicos”, explica.

A história da fotografia na cidade, no entanto, começa muito antes. Seguindo até a Rua Chile vê-se a Fotocolor e, dentro dela, Mário Filho, dono da loja, rodeado de filmes e de câmeras. Ao todo, são 732 metros quadrados de equipamentos fotográficos, muitos deles analógicos e outros tantos, ainda, raridades. Ele nos conta que os primeiros filmes chegavam de navio e que os pioneiros do ramo na cidade foram Francisco Marorta, fundador da Casa Lamar, na Rua Conselheiro Saraiva, no Comércio, e Ernesto Weckerle, que abriu o primeiro laboratório de revelação colorida do Norte e Nordeste. Tudo isso mais ou menos na década de 1940.

A partir daí uma série de nomes aparecem inseridos no contexto fotográfico: Antônio Bonfilho, antigo dono da extinta Maxicolor; Leão Rosemberg, dono de um laboratório na Rua Carlos Gomes; os irmãos Roque e Rafael Pereira da silva, donos das Lojas Fotolândia; Evandro Oliveira, dono da Retratos; Fernando de Oliveira, dono da antiga rede Fotografa, entre outros.

Boa parte desse conhecimento vem da época em que Mário trabalhava como representante de produtos fotográficos até que, em 1972, ele inaugurou sua primeira loja. Atrás do balcão, ainda hoje, encontra-se a placa da primeira loja inaugurada no Corredor da Vitória e nela lê-se, escrito com letras douradas, o nome Fotocolor. No final da década de 1980, a loja muda-se para a Rua Chile. Das vizinhas – Gil Filmes, Jadil Fotos, Foto System, Lojão do Fotógrafo, Photografe e Rafael Cine Fotos – poucas sobrevivem. Sila, dona da Rafael Cine Photo, trabalha hoje principalmente com assistência técnica de equipamentos. Sua loja é um sonho para colecionadores, mas não trabalha mais com revelação, pois, segundo ela, não há mais uma demanda que valha a pena.

Enquanto conversamos, por quase 1h30, aproximadamente 12 pessoas entram na Fotocolor de Mário. Não tendo, atualmente, nenhum funcionário na loja, ele interrompe a fala, pede desculpas e segue para atender os clientes. Boa parte deles pergunta sobre consertos de câmeras – e ele indica a Rafael Cine Fotos, poucas ruas à frente – e outras três vêm deixar ou buscar filmes da revelação. Apesar de ter desativado o laboratório, a loja terceiriza o serviço com a Fotolar.

Fotografia é negócio de família e negócio de jornal – E, assim como quase tudo, a fotografia analógica de Salvador tem sua árvore genealógica. Enquanto fazemos a entrevista, quem vem buscar os filmes na Fotocolor para levar para revelação é Vitor Campos Figueiredo, filho do fundador Lourival Nery de Oliveira, mais conhecido como Val, dono da loja extinta 3×4 e da ativa Fotolar. Val é irmão de Carlos Alberto Oliveira, dono da Objetiva e, eles, são filhos do fundador da Rede Fotografa, Fernando Nery de Oliveira. O comércio de fotografia em Salvador é baseado na tradição.

Carlos Alberto, mais conhecido como Beto, faz parte das lojas de serviços fotográficos que se concentram no novo centro comercial da cidade, nas proximidades do Shopping Iguatemi e do Salvador Shopping. Há 37 anos trabalhando com fotografia, começou no laboratório, onde já virou noites a fio para atender à demanda de revelação. “Hoje vendemos cerca de 100 filmes preto & branco por mês. Antes vendíamos essa quantidade por dia”, lembra. Quando pergunto como foi a primeira vez em que revelou um filme, suspira e responde: “A sensação que eu tenho é que a imagem não sai da minha cabeça até hoje: a mágica da imagem aparecendo”. Ele é, declaradamente, um apaixonado. Já pensou em ter um laboratório em casa e não dispensa a sua câmera Rollei. Analógica, claro. “Nada se compara à textura do filme”, ele defende.

Nelo Ferraz Neto é um dos laboratoristas da Objetiva. A loja, além de ter sido a primeira a implantar um laboratório digital, é a única que ainda oferece o serviço da revelação em preto & branco na cidade, processo que ocorre de forma inteiramente artesanal. O filme vai para o balde com o químico revelador, depois para o fixador, seca e em seguida segue para o ampliador: é o momento em que passa do filme negativo para o papel.

Mas nem só de fotografias de aniversário viviam os laboratoristas. Os jornais da cidade, como A Tarde (veja aqui perfil com laboratorista do A Tarde) e Correio* também tinham sua equipe de revelação, responsável por trazer à tona os cliques dos fotojornalistas. Rick, como é conhecido Jaguaracy Batista da Silva, começou a trabalhar no Correio* (da Bahia e ainda sem asterisco) como boy e, em 1988, passou a ser assistente de laboratório, ainda quando o preto & branco reinava. Nas palavras dele, tomou gosto pela coisa.

O corre-corre do jornal era o mesmo para ele e seus colegas: o fotojornalista entregava o filme e em 15 minutos era preciso revelá-lo, fazer a “tira de seis” (jargão que significa separar quais fotos do filme foram de qual pauta, já que só era possível fazer o contato delas para o copião 6 a 6),  ampliar as fotos em tamanho pequeno no copião, entregar para o editor e aguardar que ele escolhesse e marcasse as melhores fotos para que, essas sim, de fato fossem ampliadas em tamanho grande e levadas para o setor de diagramação do jornal. “Em dias de jogo”, lembra Rick, “era preciso fazer a revelação em 4 minutos. Nós usávamos a fórmula HD: um copinho de café com revelador e quatro copinhos de café com água”.

A partir de novembro de 1996, o Correio* começou a trabalhar com os filmes coloridos. Com o tempo, o laboratório apenas revelava e depois escaneava os negativos. Onze anos depois, em 2007, o laboratório fechou. Rick acompanhou a demissão dos colegas laboratoristas e foi realocado na redação. Hoje, ele é responsável por enviar as fotos que são descarregadas pelos repórteres fotográficos em seus computadores para o computador do editor de fotografia do jornal.

Photoshop e cultura retrô: o futuro da fotografia? – A resistência da fotografia analógica em Salvador segue. Vilson do Baiano não gosta de trabalhar com a manipulação digital. Preferia o silêncio do laboratório a ter que fazer seu trabalho lidando diretamente com o fotógrafo.  O Photoshop, programa mais popular para manipulação de imagens, nunca foi utilizado por nenhum dos entrevistados. Assim como Vilson, Beto da Objetiva prefere apenas auxiliar seus funcionários no tratamento da imagem. “É minha experiência, meu olhar que faz a diferença nesse momento. Eu sei o que é preciso melhorar, eles sabem mais é como usar as ferramentas”. Já Rick do Correio*, tem curiosidade em aprender a usar os programas, mas ainda não teve tempo para participar de um curso. “Na vida, precisamos ter curiosidade”, afirma.

E, quanto ao futuro do analógico, o que parece certo aos olhos de muitos, é incerto para quem trabalha no ramo. Beto da Objetiva tem certeza que nessa evolução da fotografia, a digital já ultrapassou a analógica. “É uma tendência do mercado. O volume de demanda por revelação caiu, os próprios fabricantes abandonaram a fabricação de filmes e químicos de revelação. Eu acreditava que ambas as técnicas iam viver em harmonia, mas isso não aconteceu. Não adianta ser saudosista”, argumenta. Para ele, é hora de dar adeus ao filme. Vitor da Fotolar aponta outra tendência dos consumidores: apesar do uso intenso da tecnologia digital, cada vez mais as pessoas estão comprando porta-retratos. “Não basta colocar no Facebook, as fotos mais importantes estão sendo reveladas e guardadas. Isso por que fotografia é recordação”, diz.

Já a Fotocolor conta com o público que varia entre jovens que buscam uma fotografia retrô, fotógrafos amadores que continuam usando suas câmeras antigas para fazer registros familiares, fotógrafos profissionais que ainda utilizam essa técnica e, principalmente, o público idoso, que não se adaptou à tecnologia digital e continua utilizando filme. Mário acredita na resistência da fotografia analógica. “Há 15 anos disseram que a fotografia analógica ia acabar, mas ela continua aqui”. Para ele, é preciso conviver com a evolução, com o novo. “Não podemos parar no tempo”, completa.

Vilson, Rick e Nelo, no entanto, são unânimes: quando pensam no tempo da analógica, sentem saudade. Vilson acredita que esse tempo, infelizmente, se foi. Rick, apesar do futuro duvidoso da fotografia analógica, tem vontade de montar um laboratório preto & branco. Para ele, quem tirava a foto era o fotógrafo, mas quem descobria era o laboratorista e, por isso, “os fotógrafos não sentem falta do filme. O laboratorista sente, sim”, conclui.

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