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Resistência fantástica: sobre ser negro e cosplayer em Salvador

Lily Menezes - 31 de janeiro de 2018

Adeptos da arte japonesa da caracterização partilham vivências e batem de frente com o preconceito

 

É quase um consenso a existência de um calendário perpétuo para os soteropolitanos, com as datas mais aguardadas do ano marcadas com círculos bem nítidos ou adesivos de cores gritantes. Festival da Virada, ensaios de verão, Lavagem do Bonfim, Furdunço, Carnaval, São João, Salvador Fest… Falta até adesivo e caneta, com tantos lugares para ir. Os adeptos das festividades fazem toda a questão de se preparar para cada ocasião: correm às lojas, barbeiros e salões de beleza para garantir aquele visual que vai deixar todo mundo de queixo caído, guardam o dinheiro para as cervejas que embalarão o agito, fazem os “esquemas” com os amigos que também irão à festa. Aos feriados, haja malas e sacolas espremidas dentro dos carros para encarar o congestionamento na estrada ou o trajeto de pouco mais de uma hora a bordo do “férri”, chupando picolé de graviola e rezando pra chegar logo.

No último final de semana do mês de agosto, mais conhecido como “mês do desgosto” para muitos, seja por sua fama de tudo dar errado ou pela total ausência de feriados, andar de carro pela Avenida Luiz Viana, mais conhecida como Avenida Paralela, no sentido Aeroporto, é uma verdadeira aventura. Além do já esperado engarrafamento, é possível ver pessoas com malas dignas de uma semana de viagem e mochilas enormes que parecem ter sido arrumadas para uma excursão. A situação se repete no mínimo três vezes por ano para os amantes da arte de se caracterizar como seus personagens favoritos: são os cosplayers, que passam meses trabalhando em seus figurinos e ensaiando para os concursos que elegerão o trabalho mais bem-produzido e fiel – ou simplesmente pelo prazer de encarnar alguém que admiram.

Festival de Cultura Japonesa de Salvador é o evento mais esperado pelos amantes da cultura oriental 

Mas, se achar a cor de peruca certa para o personagem escolhido, forjar a armadura que arrancará gritos entusiasmados da plateia durante o desfile ou decorar todas as falas para uma apresentação a ser assistida por mais de dez mil pessoas já não é tarefa das mais fáceis, os cosplayers negros de Salvador têm mais um vilão a vencer na luta pelo direito de se divertir e fazer a sua arte: o preconceito. Por mais que a capital baiana seja considerada a mais negra do país, com 744 mil habitantes declarando-se negros, segundo o último estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o cenário que recebe o cosplayer negro ainda é extremamente tenso. Os atos racistas são uma constante em todos os eventos do calendário otaku da cidade. Para aumentar o desconforto, o cosplayer não tem a quem recorrer quando ouve qualquer espécie de comentário agressivo ou ofensa. Em muitos casos, a culpa é jogada sobre seus ombros; o argumento mais utilizado é o de que ele se expôs ao usar o cosplay, então, “tem que aguentar os comentários”.

Fascínio e desconforto

Contudo, para alguns cosplayers, os comentários destrutivos podem se tornar um motivo para não participar de desfiles ou concursos. “Esse mundo de competição é muito complicado, você ganha muitos olhares de reprovação e inimigos”, conta a cosplayer Vanessa Abude, 32, formada em Publicidade e Propaganda, e atualmente trabalhando na área de saúde. Ela começou o hobby há oito anos, inicialmente por causa dos amigos, e ganhou motivação por causa da filha. “O meu primeiro cosplay eu fiz com ela, e teve uma repercussão positiva muito grande”, lembra. Mãe e filha fizeram suas versões dos monstros Snorlax e Jigglypuff, personagens do anime Pokémon. Vanessa chegou a participar de alguns concursos, mas a discriminação racial a incomodou. Hoje, a cosplayer prefere apenas desfilar no palco.

Vanessa com seu cosplay de Riri Williams (Homem de Ferro). Foto: Dihen Fotografia

Já a cosplayer Arleide Muniz diz não ter tido nenhum problema relacionado ao racismo quando está caracterizada, porém acredita que teve sorte, e reconhece que ainda há um caminho muito longo a percorrer na luta contra o preconceito. “Por mais aberta que seja a mentalidade dos cosplayers e frequentadores de eventos aqui em Salvador, uma das cidades com maior concentração de população negra fora da África, senão a maior, ainda há muito racismo velado”, diz. Arleide explica o que a motivou a mergulhar no universo cosplay. “O fascínio por poder se sentir na pele de personagens que gosto, com os quais sinto afinidade, e interagir com pessoas que também curtem eles. O processo de transformação nesses personagens é muito bacana também, mesmo que seja bastante trabalhoso”, conta.

Passou do ponto?

Uma das maiores preocupações para quem é negro e deseja começar no mundo cosplay é a reação das pessoas quando o personagem escolhido é branco ou asiático. Alguns cogitam pintar a pele em um tom mais claro, para tentar se aproximar ao máximo da tonalidade do personagem. Nos grupos de venda de acessórios para cosplay disseminados Facebook afora, não faltam pessoas vendendo sprays e loções que prometem “embranquecer” a pele temporariamente. A maioria desses cosméticos é de procedência coreana – na Coreia, a pele clara é um ponto muito valorizado no padrão de beleza – e atraem muitos interessados. Os que não conseguem adquirir os produtos à pronta-entrega acabam fazendo a compra pela internet, com uma chance considerável de receberem produtos falsificados, especialmente em sites como Ebay e Aliexpress, e correndo o risco de contraírem alguma alergia ou doença de pele.

 

Anúncios no AliExpress, eBay e Mercado Livre oferecendo loções, sabonete e pó que prometem clarear a pele

A demora na chegada dos cosméticos importados (depois da liberação por parte da Receita Federal, em Curitiba, o prazo é de 40 a 50 dias até o endereço do comprador) faz com que se tente reproduzir o efeito em casa. Dezenas de vídeos no Youtube ensinam receitas com essa finalidade, e acumulam milhares de acessos.

Quem decide fazer o cosplay assumindo sua cor tem de ter um considerável jogo de cintura para lidar com comentários indesejados e muitas vezes indelicados, chegando a beirar a ofensa. Algumas pessoas chegam a dizer que o negro não deve fazer cosplay de um personagem branco, porque “não está certo para ele”. Os comentários são mais comuns nas páginas que os cosplayers mantêm nas redes sociais, normalmente feitos por trás de um perfil fake, mas não é raro ouvir comentários discriminatórios durante as convenções de cultura oriental. Foi o caso de Vanessa, que estava num evento usando seu cosplay e foi ofendida pelo fato de representar uma personagem branca. “Eu e uma amiga fizemos duas personagens do jogo League of Legends, a Riven Redimida e a Vayne Cupido Mortal, e disseram que nós tomamos sol demais para as personagens. Isso aconteceu de uma forma bem mais agressiva”, conta.

Vanessa e seu cosplay de Vayne Cupido Mortal (League of Legends). Foto: Antony Evans

Omissão

Além das críticas veladas, também há as críticas feitas sem o conhecimento do cosplayer, durante e depois do evento. Se o próprio cosplayer não é vítima do racismo, fica sabendo de uma história de preconceito que aconteceu com outro colega de hobby. O cosplayer pernambucano Moabi Arthur, que atualmente mora em Salvador e é um dos idealizadores do grupo Cosplayers-BA, conheceu bem de perto uma destas histórias. “Um amigo meu já fez cosplay de personagem branco, no qual ele usou maquiagem forte para ficar branco. Um monte de gente o condenou pelas costas, mas ninguém teve coragem de chegar e falar na frente dele. De qualquer forma, isso chegou até ele, e ele ficou bem chateado”.

Moabi com seu cosplay de Buzz Lightyear (Toy Story)

Para Moabi, existe uma total isenção de responsabilidade por parte dos eventos de anime em relação aos casos de racismo, que ocorrem todos os anos. “O cosplayer fica tímido ou com receio de procurar alguém e denunciar. Até porque não vai adiantar muita coisa, vai ser uma palavra contra outra, e eu duvido muito que o evento queira se responsabilizar por isso”. Ainda que as organizações dos eventos estabeleçam uma punição prevista para quem começar brigas de qualquer espécie durante as atividades, não existe nenhum comentário relacionado a ataques preconceituosos que possam ser feitos a cosplayers, especialmente durante as apresentações e desfiles no palco principal.

Fidelidade não está na cor

Em praticamente todos os eventos de cultura oriental, há ao menos um desfile para os cosplayers exibirem seus projetos e se apresentarem. Atualmente, o concurso mais importante é o realizado durante o Anipólitan, que tem uma seletiva regional para escolher quem terá a chance de representar o Brasil no World Cosplay Summit (WCS), competição anual que reúne cosplayers de várias partes do mundo no Japão. A dupla campeã da etapa baiana vai para São Paulo, no Anime Friends, para competir com os vencedores das seletivas de outros estados por uma vaga para a final mundial. Não foi encontrada nenhuma cláusula relacionada às restrições de personagens para negros nos regulamentos dos concursos de cosplay da Bahia consultados pela reportagem.

Segundo Moabi, que também é jurado em concursos cosplay, não há problemas em um negro fazer cosplay de um personagem branco, e isso não é motivo para um cosplayer perder pontos durante sua apresentação. “O que importa é o figurino, a atuação e a maquiagem”, afirma. No entanto, ele atenta para os cuidados com a caraterização, já que nem sempre os produtos de maquiagem disponíveis no mercado contemplam todas as necessidades da pele negra e podem prejudicar a fidelidade do cosplay. “A make é um negócio que conta muito, principalmente em sobrancelha, pra mostrar a expressão que predomina no personagem”, explica.

Representatividade

Nos últimos anos, a quantidade de cosplayers negros representando personagens de sua raça aumentou consideravelmente, na visão da estudante de Direito e cosplayer Jeane Marques, 33. “Acho que o cenário tem melhorado, à medida que mais personagens têm surgido, e com importância. Os cosplayers negros se identificam com os personagens e fazem mais cosplays destes”, comenta. Ela começou no mundo cosplay há mais de dez anos, representando Naru Narusegawa, do mangá Love Hina, mas passou a se interessar mais por personagens negros e prefere fazer cosplays deles sempre que possível. Jeane participou da última edição da Comic Con Experience, em São Paulo, e considerou a experiência positiva. “Toda hora parava para tirarem fotos, especialmente com os cosplays da Riri (Williams, a sucessora do Homem de Ferro nos quadrinhos da Marvel) e da Kamala (Miss Marvel) ”.

Jeane com seu cosplay de Sakura Kinomoto (Sakura Card Captors). Foto: Bruno Antonucci

 

O fotógrafo Rafael Ribeiro, 29, também foi para a Comic Con, usando o cosplay do personagem Luke Cage (o Poderoso, da Marvel) e ficou satisfeito com sua participação. Ele conta que não ouviu críticas durante o evento, e foi bastante requisitado para tirar fotos. No entanto, um fato o deixou intrigado: a prática de cosplays do universo negro feitos por brancos, que aparecem frequentemente como os maiores críticos dos cosplays feitos por negros. Esse impasse acaba gerando discussões inflamadas, onde os brancos se dizem vítimas do chamado racismo reverso. “Eu critiquei o fato de ver muitos brancos fazendo personagens de temática negra – o que é diferente de um personagem negro – durante a CCXP”, comenta.

Rafael com seu cosplay de Luke Cage. Foto: Bruno Massao

Enfrentamento

Para os cosplayers negros, a coisa mais importante que precisa estar na mente daquele que deseja adentrar nesse universo é blindar a mente contra qualquer espécie de comentário não construtivo. “É negro e quer fazer cosplay? Faça! Não se apegue a comentários. Seja feliz. Mas, esteja preparado pra ouvir todo tipo de piada de mau gosto, e aprenda a não se importar”, ensina Vanessa. “Fazer cosplay é uma arte tão linda, e não deve ser limitada”. “Comentários negativos virão, sempre virão, mas não seria algo novo para nós. Existem mentes que não conseguem aceitar os negros como pessoas, e nós sabemos disso. Sabemos também que nosso caminho é sempre mais difícil, com muito mais pedras e devemos saber sempre que temos o poder de enfrentá-los. Empoderar também é uma palavra que podemos usar no mundo cosplay”, assinala Jeane. Na visão dela, o cosplay também é uma forma de fazer frente ao racismo. “O fato de ter muito mais personagens importantes negros na mídia, significa que somos tão importantes quanto qualquer um e fazer cosplay desses personagens é mostrar para todo mundo o quanto nos sentimos representados”, diz.

Jeane com seu cosplay de Miss Marvel. Foto: Daniel Kato

O aspirante a cosplayer não deve esquecer em momento algum dos princípios básicos que regem a arte de se caracterizar, e colocá-las à frente de qualquer preconceito ou comentário negativo. “O conselho que eu dou para uma pessoa negra que quer fazer cosplay é: faça, independentemente de seu objetivo e expressão – se for pra diversão, se for pra concurso, se for “cospobre”, se for com roupa que você não fez, nada disso importa. O importante é que você se divirta, ignorando qualquer tipo de crítica não-construtiva”, afirma Arleide. Para Jeane, o mais importante na arte do cosplay é ser como seu personagem favorito, e ainda assim manter sua identidade. “Cosplay é sobre se divertir, sobre se sentir bem por vestir mesmo por um dia, a roupa de seu personagem preferido, ainda que você não se encaixe exatamente no corpo dele, até porque eles são idealizações e nós somos reais. Cosplay é uma diversão, é sobre ser feliz”.

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