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Sem prescrição médica, estudantes usam medicamentos para dormir

Beatriz Bulhões e Marcela Carvalho - 22 de novembro de 2017

Mesmo sem prescrição médica, diversos jovens utilizam de remédios para dormir

“Dormir é desligar, é desacelerar”, explica a psicóloga Neri Mariussi, especialista em psicologia do sono. Mas apesar da teoria parecer simples, 76% da população brasileira tem problemas de sono, de acordo com uma pesquisa feita pela Associação Brasileira de Sono em parceria com a EMS. A especialista salienta que esse problema costuma surgir na juventude, “O jovem tem uma necessidade maior de sono, precisa de mais horas dormindo que os adultos, mas muitas vezes não respeita isso”.

A estudante de psicologia Damaris de Jesus, de 20 anos, está dentro dessa estatística: ela conta que costumava tomar os tranqüilizantes Diazepam e Clonazepam, ambos tarja preta, por conta própria quando precisava “apagar”. No entanto, além do sono, a medicação trazia efeitos colaterais. “Quando eu acordava sentia a cabeça pesada e geralmente estava mais deprimida do que quando eu dormi”, relata.

Mais de 11 milhões de brasileiros, o equivalente a 7,6% da população, usam medicamentos para dormir, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), divulgada no ano passado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os medicamentos tarja preta, como os que Damaris usava, são aqueles que devem ser vendidos apenas com prescrição médica, pois podem causar dependência. Porém, a jovem se medicava por conta própria. Quando perguntada o porquê de não ter procurado um médico, ela é taxativa “não sei, acho que não me ocorreu”.

Ansiedade

Não é meme, é um alerta para quem sofre de Ansiedade.Eu sofro e já sofri muito com isso… A Crise de ansiedade faz com que você fique muito inquieto, te forçando a querer resolver a vida logo e isso acaba sendo desgastante.Se você ou algum amigo sofre com isso, busque um tratamento. Não deixe a ansiedade te dominar.Você não precisa resolver a sua vida aos 20 e poucos anos, vá com calma!Uniao Humor

Publicado por Uniao Humor em Quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A psicóloga acredita que tem ocorrido cada vez mais uso de medicação sem indicação profissional. “Como o acesso a mediação é fácil, vários jovens acabam usando esses remédios, muitas vezes sem analisar a dosagem, por exemplo. Vão usando de forma aleatória e inadequada”.

A farmacêutica Jucélia Almeida explica os passos que devem ser obedecidos, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para os remédios da classe dos benzodiazepínicos: “A prescrição de medicamento tarja preta possuem receita específica, de cor azul com uma sequência de números disponibilizadas pela Anvisa ao médico prescritor.” Além disso, ela explica que as prescrições só podem ser usadas no mesmo Estado, com validade de até 30 dias (considerando a data da prescrição), ter todos os dados do estabelecimento de saúde e só pode ser dispensado o tratamento para até 60 dias.

 

Conheça mais sobre os medicamentos benzodiazepínicos e seus nomes comerciais mais comuns. Fontes: http://www2.unifesp.br/dpsicobio/drogas/hip.htm e https://amenteemaravilhosa.com.br/benzodiazepinicos/  Design: Marcela Carvalho

 

 

 

A profissional ainda frisa que existem outros fatores que devem ser verificados para saber se a receita não é falsificada. “Ainda aparecem pessoas querendo comprar sem prescrição ou com receita irregular. Nem tanto sem receita, porque a maioria já sabe da proibição. É mais comum querer comprar com a receita vencida”. Porém, Damaris conta que apenas ia a uma farmácia e pedia o remédio, sem ser questionada pela prescrição.

 

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No Mercado Livre, uma busca por “Rivotril”, indicado por Jucélia como o medicamento tarja preta para dormir mais procurado na farmácia em que trabalha, gera alguns resultados curiosos: “Case Silicone Iphone 8 Mod Clonazepam – Rivotril” mostra a foto de uma caixa do remédio e “3 capinhas Diazepam” tem como descrição “caixa com 30 comprimidos”.

Anúncios tentam enganar a fiscalização, vendendo remédios em anúncios de outros produtos

 

 

 

 

Os nomes foram trocados nos sites de compras para tentar burlar a Vigilância Sanitária. Segundo o órgão, apenas no primeiro semestre de 2017 já foram removidos 1.503 anúncios irregulares, que variam de propagandas de emagrecimento sem sacrifícios até o comércio irregular de medicamentos. O crescimento dos anúncios é significativo: em todo o ano de 2016 foram 1.293 anúncios irregulares e em 2015 foram proibidos 657 anúncios. A equipe do ID 126 perguntou a Anvisa sobre a fiscalização da venda irregular em farmácias, mas não obteve resposta.

Ainda assim, pessoas como Amanda*, de 24 anos, continuam tomando remédios sem receita. A estudante de medicina disse que estudou as contraindicações da automedicação na faculdade, mas ainda assim fez uso de medicamentos sem receita. “Escolhi Rivotril pelo acesso mais fácil. A primeira vez que tomei, outra pessoa tinha comprado. Depois comprei no bairro onde eu moro. Disse que não tinha renovado minha receita e, depois da primeira vez, nem precisei de desculpa para comprar”, explica.

A jovem diz que chegou a ir a um médico, mas o profissional não indicou o uso continuado de remédios. “Minha insônia era por questão emocional, associada ao uso de cafeína”, reconhece. Ela ainda conta que tentou relaxar tomando sucos e chás com base de substâncias naturais, como maracujá e passiflora, mas não adiantou.

Terapia

Para o médico psiquiatra Hermenegildo dos Anjos, o excesso de tecnologia é um dos fatores responsáveis pelo crescente número de insônia nos jovens. Segundo uma reportagem da Revista Superinteressante, um estudo do Journal of Clinical Sleep Medicine constatou que 98% dos jovens que maratonam séries, ou seja, veem vários episódios seguidos, tendem a dormir mal ou ter insônia.

O médico explica, contudo, que o tratamento dos jovens e adolescentes é igual ao de adultos: “Ideal é que sejam concomitantemente acompanhados em regime de psicoterapia regular, além do acompanhamento médico farmacológico”. Yana Lourenço, estudante de engenharia de produção, começou com o acompanhamento psicológico. “De início procurei um psicólogo e ele me encaminhou para um psiquiatra”, conta ela, que toma Donarem há dois anos para dormir melhor.

Mas apesar da indicação de psicoterapia, Rafael Hidalgo, 22 anos, preferiu ficar apenas com a medicação. O também estudante de engenharia de produção foi diagnosticado com insônia por um psiquiatra e toma remédio controlado há um ano. Segundo ele, “Não vi necessidade de dar continuidade do processo (de terapia), não trazia resultados”.

Néri conta que as sessões de terapia são fundamentais para que a pessoa possa lidar com o problema da insônia de outras formas, evitando o uso de medicações. “Às vezes a pessoa está sendo medicada e a gente trabalha em conjunto, mas a tentativa é de que, devagar, tiremos a medicação”.

Acompanhamento

Hidalgo diz que vai ao médico a cada três meses para reforçar o diagnóstico, quando o médico entrega a receita para os medicamentos seguintes. Hermenegildo, no entanto, explica que o paciente deve voltar a cada 20 ou 30 dias para receber uma nova prescrição. Esses atendimentos seguintes devem verificar se houve melhora no quadro do paciente e, consequentemente, revisar se há a necessidade do remédio. Por outro lado, Yana relata que voltava ao médico de dois em dois meses para uma reavaliação, mas diz que hoje refaz a consulta apenas duas vezes ao ano.

O neurologista que atendeu Alex*, de 24 anos, não seguiu esta regra. “Este médico me deu receita pra quase um ano inteiro. Como eu tomava irregular, durou uns três anos assim, porque me recomendava tomar um dia sim, dois não…”, relata o estudante de Ciência da Computação.

O jovem conta ainda que não sentiu necessidade de voltar ao profissional para conseguir as prescrições necessárias. Para continuar a tomar o Lexotan, pedia a um amigo da área de saúde que facilitasse a compra.

Alternativas

Apesar do remédio, Alex* diz que faz meditação todos os dias. Para ele, apesar de relaxar com a prática, apenas a meditação não é suficiente para engatar o sono. A psicóloga discorda, e ressalta os benefícios da prática: “Yoga e meditação ajudam as pessoas a irem desligando os pensamentos, pois a pessoa com insônia têm um grau de aceleração mental muito grande”.

Néri também recomenda outras práticas. “Massagens relaxantes, exercícios, dança… atividades que diminuem a agitação e o grau de estresse vão favorecer o tratamento e a melhora da insônia”, aconselha ela.

A estudante de Letras Vernáculas, Mariane Lima, de 19 anos, conta que tem problemas de ansiedade, o que faz com que não consiga dormir. Ela assume que tem vontade de tomar remédios tarja preta para a insônia, mas não tem coragem de usar por conta própria e não pode arcar com as despesas médicas particulares, além de morar distante do serviço gratuito oferecido pela UFBA.

Uma solução para Mariane se acalmar e controlar a ansiedade poderia ser a meditação. Organizações como a Arte de Viver, que tem três sedes em Salvador, promovem cursos e encontros com meditação gratuita em Salvador. A meditação da Lua Cheia, por exemplo, acontece uma vez no mês no Porto da Barra, na Praça Ana Lúcia Magalhães e em Vilas do Atlântico. Esses eventos são aberto ao público, que pode ser avançado ou iniciante. Outras instituições, como o Brahma Kumaris, tem iniciativas parecidas.

Outra opção para acalmar a mente é o método DeROSE. O grupo afirma que “não é yoga, nem pilates, nem ginástica, nem terapia, nem dança, nem luta”, mas sim uma proposta diferenciada de reeducação comportamental. A técnica começou na França, há quase 60 anos, e funciona no bairro do Rio Vermelho e na Pituba, na capital baiana.

Existem ainda outros métodos mais simples que costumam ajudar os insones. A psicóloga explica que técnicas mais práticas, como ter um horário habitual para dormir e acordar, evitar o uso de celulares e outros objetos luminosos à noite, não abusar de bebidas alcóolicas e diminuir o volume de atividades antes de ir pra cama costumam ter resultado satisfatório.

 

Alguns sites gratuitos podem ajudar a se acalmar antes de dormir

 

 

 

 

 

 

 

* – Os nomes foram alterados para preservar a identidade da fonte

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