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“Quem procura pornografia ou sexo sabe muito bem o que esperar”

- 28 de julho de 2014

Pesquisador em pornografia esclarece pontos e mostra sua opinião sobre o tema

Renata Farias

Jornalista, mestrando em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do Laboratório de Investigações em Corpo, Comunicação e Artes (Licca/UFC), Emerson da Cunha realiza pesquisa com ênfase na pornografia, escrita performativa e performance.

Impressão Digital 126 – De que maneira você articula a pornografia em sua pesquisa?

Emerson da Cunha – Meu interesse de pesquisa no mestrado está nas pornografias contemporâneas, ou seja, os produtos pornográficos ou que se dizem pornográficos ou que são ditos pornográficos, realizados de dez a vinte anos para cá, e que novas proposições esses produtos provocam e compõem ao que se toma como pornográfico. Nesse sentido, minha pesquisa busca saber como a pornografia faz e se perfaz na materialidade desses filmes – no caso da dissertação, analisando alguns filmes do realizador português Antonio da Silva –, mas também atentando ao corpo do espectador, de que forma ele é afetado e importunado por essas imagens.

ID 126 – Com essas formas de pornografia contemporânea, como podemos defini-la?

E.C. – Para mim, o que interessa na pornografia é aquilo que ela provoca no corpo do espectador. Que pode ser, atualmente, não apenas espectador, mas podemos denominar como fruidor, usuário, compositor, entre outros exemplos. É toda a força, o sentido sexual, sensual, lascivo e visceral que o pornográfico ativa ou atua no corpo daquele que a consome. Nesse sentido, há um interesse maior, mesmo que não tratado diretamente na pesquisa ou na dissertação de fato, que é: que epistemologias são possíveis quando nós tratamos do corpo, da sua lascívia e dos seus desejos como ponto de partida para o conhecimento do mundo?

ID 126 – De que modo a internet alterou a forma de consumir pornografia?

E.C. – A utilização do vídeo e, principalmente, das imagens digitais e de sua circulação na Internet fez com que a produção se descentralizasse das próprias produtoras de filmes pornôs para cinema ou em videocassete. A intenção é que qualquer um, com uma câmera na mão, com amigos e parceiros interessados e mesmo sozinho, com um login em um site específico de pornografia, pudesse produzir sua própria pornografia, perscrutasse seus próprios desejos, descobrisse o desejo de se gravar, de se ver e de que outros o vissem sexualmente, e de circular e distribuir esse material em comunidades.

ID 126 – Existe uma diferença de público e da forma de consumir material pornográfico amador e profissional?

E.C. – Eu não consigo ver muitas diferenças, atualmente. Ainda há produtoras de filmes pornôs e também produtoras que tem reciclado filmes realizados em películas nos anos de 1970 e 1980 para ser comercializado em DVD ou em Blu-Ray ou mesmo on-line, para cujo acesso é necessário pagar um determinado valor. Ao mesmo tempo, é possível encontrar filmes de produtoras comerciais muito facilmente em diversos sites pela internet, por meio de torrents, por exemplo. E, nessa busca, misturam-se as produções amadoras e profissionais, e, várias vezes, nem é possível distinguir, a uma primeira olhada – ou gozada! – o que aquele vídeo, aquele fragmento, aquele filme é ou diz. Além disso, há justo esses fragmentos, ou a fragmentação de assistir a um pornô: você abre um vídeo, não gosta, baixa outro, ou adianta aquele vídeo para uma cena mais quente, ou repete o que foi visto e que excitou mais, baixa demais torrents, passa pelos diversos sites, e assim por diante. É sempre um jogo de idas e vindas, de vai e volta, de ansiedade e satisfação, sendo que esse nunca é um ponto em que se chega de fato, como diz Zabett Patterson, nos Porn Studies. O prazer parece estar mesmo nesse jogo.

ID 126 – Você acredita que o público adéqua seus gostos às produções?

E.C. – Trata-se de um caminho de mão dupla. As pessoas acessam aquilo que geralmente gostam e as empresas podem recorrer a mecanismos de pesquisa de busca dos consumidores para especializar ainda mais suas produções, afetando também o gosto do consumidor.

O que está em jogo, aqui, talvez, seja a performance das genitálias: o que elas fazem, como se fazem, com quem ou com o que se fazem

ID 126 – Há um crescimento de sites e até redes sociais pornográficas. Como você pensa que isso influencia nas relações sociais?

E.C. – Eu acho uma delícia, sinceramente. O quanto de sensual, de erótico ou de sexual não está presente nas nossas relações cotidianas, profissionais, pessoais e mesmo familiares? E se esse tipo de relação pode ser melhor encontrado ou viabilizado por meio dessas redes e de aplicativos específicos, e se podemos vivenciar ainda mais essas experiências e promover outras formas de encontros, por que não? Muitos falam de objetificação das relações, ou do crescimento e afloramento de relações menos duradouras, mas quem procura pornografia ou sexo sabe muito bem o que esperar, o que pode acontecer; ou mesmo o contrário, se deixa levar por essas relações mais banais, mais fugidias, porque é aí que se encontra o tesão.

ID 126 – Qual a relação que é possível perceber entre as pessoas que publicam imagens na internet com o anonimato?

E.C. – É uma questão muito pertinente. O rosto nunca é o centro de atenções no pornô, como acontece geralmente na nossa sociedade, nas condições psicológicas e cognitivas mais habituais de reconhecimento do outro. O que está em jogo, aqui, talvez, seja a performance das genitálias: o que elas fazem, como se fazem, com quem ou com o que se fazem. Por vezes, esse anonimato aparece na não presença do rosto nas imagens, mas também quando se identifica nas redes sociais pornográficas com outros nomes, com apelidos e nicknames muito mais ligados a dotes ou a contextos específicos sexualmente do que a uma identificação comum formal. Ou ainda: ninguém vai ver um vídeo no Xtube, por exemplo, e vai estar preocupado em quem postou aquilo, se há um estilo próprio daquela pessoa, ou esses dados mais relacionados a uma espécie de “autoralidade”. Entretanto, há alguns produtores recentes que têm tentado produzir uma espécie de assinatura e de estilo nesse meio, recentemente, como é o caso mesmo do Antonio da Silva, de quem falei anteriormente. Ele usa uma assinatura, cria um estilo, um autor, que se constitui nessa assinatura, no modo de conduzir e de montar seus filmes, mas cuja genitalidade ainda está em jogo. Acho que é uma questão ainda em aberto, que envolve problemáticas éticas, mas que, academicamente, podem ser bastante pertinentes e frutíferas.

ID 126 – Como a produção de imagens amadoras afeta a indústria pornográfica?

E.C. – As vendas caem e é necessário investir em outros mecanismos. Liberar uma parte de imagens ou vídeos, produzir trailers e teasers que animem os usuários, modificar e investir em outras formas de fazer ver o sexo, muitas vezes mais próximas da “pornografia amadora”. Por outro lado, lembro-me de uma entrevista recente na revista Vice, na qual o ator pornô Colby Keller, falou sobre a necessidade de os próprios atores pornôs cuidarem de suas imagens por meio das redes sociais ou blogs, investindo na própria imagem, já que as próprias produtoras não tinham mais como investir financeiramente na propaganda e publicidade de suas estrelas. Esses atores acabam entrando nessa rede de produção que é comercial, ou seja, tem fins profissionais e comerciais, e, ao mesmo tempo, é pessoal e, por que não, amador, daquele que ama fazer o que faz.

ID 126 – Há alguma relação direta entre a orientação sexual e o pornô consumido?

E.C. – Eu diria que há não apenas relação direta com o pornô consumido, mas também com o pornô produzido de acordo com a orientação sexual. As possibilidades dos vídeos e da circulação do material por meio da Internet provoca muitas ativistas lésbicas, trans e queers a produzir suas próprias pornografias, pois, não encontrando na maior parte do pornô mainstream – em geral, hétero ou homossexual masculina -, mapeiam seus próprios desejos e põem essas pornografias para circular entre essas próprias comunidades e festivais específicos.

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