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Projeto atua para manutenção de patrimônio dos terreiros

- 2 de agosto de 2017

A  Rede de Hortos de Plantas Medicinais e Litúrgicas  cuida do patrimônio imaterial dos terreiros de candomblé através do cultivo de hortos com plantas medicinais e litúrgicas  

ROSANA SILVA

Um provérbio nagô diz: Kosiewe, kosi Orisá (Sem folha, não há Orixá). O uso das folhas é fundamental para a existência dos ritos nas religiões de matriz africana, por isso a salvaguarda desse patrimônio imaterial é uma dos objetivos da Rede de Hortos de Plantas Medicinais e Litúrgicas (RHOL). Criado em 2014, o projeto, realizado pela incubadora Awá Ações Afirmativas, em parceria com Organizações Filho do Mundo , é composto por 16 terreiros de candomblé localizados em Salvador, Camaçari, Lauro de Freitas, Dias D’ávila e na Ilha de Itaparica.

Horto no terreiro Ilê Orixá Nla Axé Obalodó – Sitio de Paz (Foto: Sepromi)

“O que impulsionou elaboração do projeto RHOL foi a identificação do potencial produtivo a partir da identidade cultural dos terreiros de candomblé. [Por conta da] raridade de se encontrar algumas espécies medicinais litúrgicas surge o RHOL, para salvaguarda do patrimônio imaterial que são as plantas seguida da geração de renda, com base na economia solidária”, conta Sueli Conceição, doutoranda em Desenvolvimento e Meio ambiente pela UESC e coordenadora do projeto.

As folhas são fundamentais nas práticas ritualísticas das religiões de matriz africana. No livro “O mundo das Folhas”, 2002, o professor Ordep Serra explica que uma liturgia das folhas integra o corpus terapêutico do candomblé. Esse corpus é “composto por itens vegetais que funcionam como elementos de um código sacramental e como fármacos”. Ele também chama atenção para o crescimento desordenado do centro da cidade de Salvador, ocupando áreas verdes, o que interfere no desaparecimento das folhas. “Acontece hoje o cultivo, nos terreiros e adjacências, de folhas que outrora eram coletadas “no mato”, mas se tornaram dificilmente acessíveis”.

De acordo com dados, de 2017, do  SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), entre 2015-2016, 241 km² de florestas do bioma Mata atlântica foram destruídas no Brasil. É o maior desmatamento dos últimos 10 anos. O estado da Bahia ocupa o segundo lugar por causa do desflorestamento de floresta nativa.

Design: Rosana Silva

Para Sueli Conceição, o projeto não pode interferir no desenvolvimento desordenado da cidade, mas pode atenuar o processo.  “Propomos produzir mudas em estado de desaparecimento (por diversos fatores), pensando no reflorestamento de terreiros com áreas desnudadas, para ampliação da nossa rede de hortos”.

Atualmente, os 16 terreiros que compõem a rede, com exceção do Mokambo, possuem um horto onde são cultivados melissa, capim santo, patchouli, menta, hortelã grosso, boldo brasileiro, folha da costa, aroeira vermelha e branca, nadador, penicilina, babosa, manjericão branco, entre outras.

Luciana Souza, makota do terreiro Unzo Mean Dandalunda Tombensi Neto, explica que o trabalho realizado é importante porque, além de ser pioneiro, visa um futuro para as comunidades de candomblé.  “Quando fomos participando das aulas, treinamento, vivências, eu vi que era algo grandioso feito por gente do santo, de terreiro. Nós podemos dar vida a sabonetes, cremes, shampoo, óleos, banhos aromáticos, partindo do que cultuamos, que são as folhas”. Luciana também é multiplicadora e faz parte da coordenação do RHOL.

Sabão produzido a partir da coleta de azeite e óleo dos terreiros (Foto: Sepromi)

Atualmente, o projeto está na etapa de implantação do espaço para comercialização.  Houve a realização de uma feira em 2016 e há previsão de mais cinco que acontecerão dentro dos terreiros. “A Kitanda Rhol de Economia Solidária é o nome da nossa feira. Nós convidamos mais dez terreiros que tem produtos para compor a feira. É neste mesmo formato que será o espaço de comercialização”, conta Sueli. Além disso, a criação de uma botica também será uma das formas de saída dos produtos. “Na botica RHOL serão comercializados sabonetes, adubo de plantas in nature e desidratado, além de produtos de outros terreiros, como roupas, doces, geleias, quadros“.

A política pública criada na  Secretaria de Trabalho, Emprego, Renda e Esporte,  do governo da  Bahia, a fim de estimular a economia dos terreiros de candomblé tem contribuído também para fortalecer a cultura e o meio ambiente.  “É importante enfatizar que se não fosse esta iniciativa, a partir da Superintendência de Economia Solidária do estado, nada disto seria possível”, enfatiza Sueli. Luciana ainda comenta a importância das comunidades de terreiros serem reconhecidas como empreendedoras.

A ampliação da rede é uma das metas do RHOL. “A proposta de ser rede é justamente para promover a inserção de terreiros que tenham potencial produtivo, assim como pessoas dispostas a atuarem neste cenário”, conta Sueli Conceição.

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