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Sexualidade na infância: a desconstrução do bicho de sete cabeças

- 9 de março de 2016

Histórias de pássaros que cruzam os céus entregando bebês foi, por muito tempo, uma estratégia desconfortável e ineficaz para falar sobre sexo com crianças

Jade Giallorenzo e Thiago Andrill | Foto destaque: Jade Giallorenzo

A educação sexual infantil, a partir dos 7 anos, foi obrigatoriamente incluída no ensino, desde 1997, pelo Ministério da Educação. O ambiente escolar possui um fundamental papel na formação. É responsabilidade das instituições, onde ocorrem as primeiras interações afetivas entre as crianças, promover esclarecimento nos primeiros anos de vida.

Experiências de carinho e intimidade na infância, assim como o contato com o corpo, são essenciais para a construção de uma vida sexual adulta saudável. Apesar das escolas entrevistadas acreditarem que essas questões devam ser tratadas com naturalidade, por muito tempo, não foi esta a política adotada pelos educadores. Manifestações infantis de sexualidade eram veementemente ignoradas e reprimidas em sala de aula.

Segundo a diretora da Escola Acalento, Miriam Von Hauenschild, ignorância e uma restrita conduta moral tiveram, e ainda têm, grande influência neste comportamento. ”O tópico do prazer sexual na infância é desconhecido e evitado por muitos adultos, pois as gerações anteriores foram educadas a não valorizar e discutir o gozo. É difícil imaginar que um ser socialmente construído na posição de imaculado, como a criança, possa sentir prazer. Sexo ocasionalmente é conectado à ideia de sujeira”, afirma.

A diretora Miriam Von Hauenschild | Foto: Jade Giallorenzo

A instituição é seguidora da pedagogia Waldorf, que consiste no estímulo à liberdade do indivíduo por meio de autonomia e orientação. As conversas sobre sexo são iniciadas a partir do momento que a criança desperta curiosidade sobre o próprio corpo e o dos amigos. A escola acredita que não existe uma idade preestabelecida para tratar o assunto, sendo papel do educador observar e ser sensível ao desenvolvimento e tempo do indivíduo. ”Cada criança possui um processo de amadurecimento só seu. Não há pressa de conversar sobre o tema ao menos que ela demonstre interesse e questione. Quando manifesta, temos que esclarecer seus questionamentos e mostrar para ela que é normal”, pondera a diretora.

Construção da individualidade no âmbito social

Considerando que os pequenos não têm capacidade de compreender o que nunca lhes foi explicado, é responsabilidade da coordenação pedagógica mediar as primeiras manifestações a respeito da sexualidade. ”Uma aluna sempre tocava as zonas erógenas na frente da turma. Nunca recriminamos e envergonhamos o ato. Tirar dúvidas e direcionar a atenção para outra atividade em situações sociais é a atitude correta”, afirma Miriam Von Hauenschild.

De acordo com a psicóloga infantil Lorena Pimenta, noções de sexualidade interligando o âmbito individual ao social são essenciais à formação sexual. ”O corpo produz prazer e a curiosidade sobre ele é saudável. Entretanto, em relação às atitudes autoeróticas, a criança precisa ser informada que elas não podem ser realizadas em qualquer contexto e por adultos”, diz.

'A psicóloga infantil Lorena Pimenta acredita que a curiosidade infantil sobre o corpo é saudável / Foto: Jade Giallorenzo

Além do estímulo à individualidade, dinâmicas e atividades em grupo são fundamentais ao processo infantil de exploração da sexualidade. Por meio da troca de informações, as crianças constroem percepções coletivas.

Na Escola Experimental, a diretora Thaís Almeida produz com o corpo técnico pedagógico, atividades sobre a temática. ”Realizamos projetos didáticos que trabalham com a questão do corpo. Com os alunos do 2º ano, temos o ”Cuide-se bem”, que ensina às crianças noções fundamentais de higiene. O ”Corpo Humano”, para os alunos do 3º ano, explora os sistemas, inclusive o reprodutor. Por fim, o ”Meu Corpo Está Mudando. Por Quê?”, onde os alunos compreendem as mudanças físicas pelas quais estão passando, como o nascimento de pelos e desenvolvimento das mamas”, diz.

A diretora Thaís Almeida explica as dinâmicas realizadas na Escola Experimental / Foto: Jade Giallorenzo'

Para a diretora, as dinâmicas também possuem a finalidade de estreitar os laços entre criança e família. ”Os alunos passam a olhar para o corpo com curiosidade científica, ampliando a naturalidade com a qual elas lidam com sexo. Essa tranquilidade é benéfica na relação com os pais, que, por sua vez, também precisam inspirar confiança e abertura”, afirma.

Articulação casa-escola

O comportamento dos pais reflete profundamente nos valores apreendidos pela criança em relação ao sexo. A educação sexual sempre se faz presente na família, mesmo nos núcleos que nunca falam abertamente sobre o assunto. ”Eles geralmente não sabem lidar com os questionamentos e ficam constrangidos. A escola tem papel vital na orientação”, diz. O fortalecimento da relação professor/pais apenas traz benefícios à formação infantil, cabendo à instituição de ensino a formulação de estratégias de aproximação.

O empresário Roberto Melo, pai de Luana, oito anos, revela que graças a encontros com os professores, passou a conversar sobre sexo com a sua filha. ”Ela havia começado a me perguntar de onde os bebês vinham e eu não tinha ideia do que responder. Conversei com minha esposa e entramos em contato com a escola, que nos orientou. Compramos um livro, seguindo a recomendação, e lemos para ela. Tudo foi bastante tranquilo”, relata.

Hora do recreio. / Foto: Jade Giallorenzo

Na Escola Acalento, é por meio da inserção na dinâmica familiar que os educadores pautam o tratamento ideal para o aluno. ”O lar tem ligação direta com o comportamento da criança, inclusive o sexual. Para saber como lidar com cada uma, nós marcamos visitas às casas para observar o movimento deste núcleo”, conclui a diretora Von Hauenschild.

Na Experimental, dinâmicas instrutivas são realizadas de acordo com as demandas. ”Nós produzimos palestras com temáticas sexuais sobre assuntos específicos que as famílias escolhem para debater”, afirma a diretora Almeida. A escola é um importante espaço de aprendizado e interação, devendo, para sua efetividade, ser articulada ao principal agente na formação da sexualidade da criança: a família. Tal influência pode ser facilmente não percebida, ignorada ou até mesmo desconhecida.

Para Lorena Pimenta, a memória de cada adulto, a sua ‘criança interna’ reverbera na criança que está sendo educada. ”Quando vêm ao consultório, sinto a necessidade de desconstruir estigmas sexuais sob os quais os pais foram educados. Família e escola precisam estar atentos aos seus próprios comportamentos e agir de maneira articulada”, conclui a psicóloga.

As quatro fases da sexualidade infantil, segundo Freud. / Infográfico: Lorena Morgana/ID126

 

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