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Popular para quem? Por trás da dinâmica do consumo cultural em Salvador

Lizandra Santana, Luciano Marins e Luana Gama - 13 de novembro de 2019

Apesar de uma vasta programação cultural e artística,  parte da população de Salvador não frequenta esses eventos 

Lizandra Santana, Luciano Marins e Luana Gama

Salvador é uma cidade que respira cultura. Por quase todos os cantos encontramos espaços culturais com uma programação diversificada, além de festivais realizados ao longo do ano. Ao mesmo tempo, parte da população não tem acesso aos eventos – produzidos em maior concentração no eixo central da cidade que contempla os bairros do Rio Vermelho, Campo Grande e Barra. Apesar da cidade oferecer eventos artísticos gratuitos, isso não é suficiente para garantir o acesso de todos os públicos à programação cultural de Salvador.

A questão do acesso passa por muitos outros questionamentos, como a localização do equipamento cultural, a acessibilidade, a precária mobilidade urbana na cidade e o valor cobrado nos eventos, que afastam, principalmente, o público que mora em bairros periféricos. O debate sobre o acesso da população à programação cultural começou a aflorar em 2019, quando o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) abordou a democratização do acesso ao cinema no Brasil, evidenciando a necessidade de discutir o assunto.

Por meio do grupo de pesquisa intitulado “Equipamentos culturais de Salvador: públicos, políticas e mercado”, coordenado pela professora Gisele Nussbaumer (Facom/UFBA), o mestre e doutorando do Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (UFBA), Plínio Rattes, comprova que as áreas centrais e nobres das grandes cidades brasileiras concentram a maior parte dos espaços culturais.

“São aqueles edifícios tradicionais e legitimados socialmente como espaços de cultura: teatro, cinema, biblioteca, museu, etc. É assim em São Paulo, no Rio de Janeiro, e não é diferente em Salvador. Basta observar a quantidade de equipamentos culturais existentes na cidade no corredor que vai do Pelourinho ao Rio Vermelho, passando pelos bairros do Campo Grande, Vitória e Barra.”

Plínio Rattes

Para que todos os públicos possam frequentar a programação cultural de Salvador é necessário que os investimentos no campo da cultura sejam dados através de levantamento de dados que possa gerar informações para entender se são necessários mais eventos culturais, ou se é preciso qualificar os já existentes e, assim, criar ações que conectem a população a tais iniciativas. Outro ponto a se ponderar é sobre a centralidade do preço na decisão sobre consumir ou não determinado produto, como explica Rattes. 

“Sem dúvidas que é um impeditivo, mas muitas pesquisas de públicos realizadas com o intuito de entender o perfil dos consumidores de produtos, serviços e bens culturais, apontam que o preço não é o único impeditivo. Soma-se a essa equação, além de questões financeiras, outros fatores que se impõem tão ou mais fortemente como obstáculos/barreiras, físicos e/ou simbólicos, como por exemplo: concentração geográfica, dificuldade de transporte, ausência de capital cultural, legitimação social dada a determinadas práticas culturais em detrimento de outras, entre outros fatores.”

Plínio Rattes

O professor e artista Ícaro Ramos, foi morador da Ribeira por 25 anos, na Cidade Baixa de Salvador, e atualmente reside no bairro do Rio Vermelho. “Quando eu morava na Cidade Baixa, raramente tinha eventos culturais. O que eu fazia era ir para a praça da Madragoa. A Cidade Baixa é muito precária, ao menos era no tempo da minha adolescência. Quando queria ir a algum evento, a gente vinha pra Barra ou Rio Vermelho”, comenta Ícaro.

Foto: Liz Santana

Um levantamento feito em 2017 e publicado em 2019 pela empresa JLeiva Cultura & Esporte – especializada em realizar pesquisas com foco em cultura, esporte e investimento social -, em parceria com o Instituto Datafolha e apoio da Fundação Roberto Marinho, evidencia que a população de Salvador frequenta os locais culturais localizados em bairros nobres da capital.

Pesquisa da JLeiva Cultura & Esporte sobre as preferências culturais em Salvador

A maior parte dos equipamentos culturais frequentados ou reconhecido pelas pessoas que fizeram parte da pesquisa estão distantes dos bairros localizados no Subúrbio Ferroviário e Cidade Baixa, por exemplo.

Professor do curso de Produção Cultural da Faculdade de Comunicação da UFBA e pesquisador na área cultural, Sérgio Sobreira afirma que não se  pode desconsiderar a questão demográfica e topográfica da capital baiana ao definir o porquê dessa “segregação” cultural. “O fato da oferta cultural estar muito concentrada nesse vértice da península, que começa no Pelourinho e termina no Rio Vermelho, revela, dentro do processo histórico, como essa oferta foi estruturada atendendo a uma cidade de 300/400 anos e que depois se espalhou de forma desorganizada ao longo desse território, subindo na direção de dois eixos: o eixo Paralela e o eixo da BR 324, sem que a oferta de equipamentos culturais acompanhasse essa expansão”.

 

Pesquisa da JLeiva Cultura & Esporte sobre as preferências culturais em Salvador

“O componente da mobilidade é problemático porque Salvador sempre dependeu do transporte coletivo para o deslocamento da população. E o metrô é um modal que entrou muito recentemente; a bicicleta, a ciclofaixa ainda não é estimulada de forma avançada – a própria topografia da cidade não permite que você considere o deslocamento por bicicleta algo a ser experimentado em todo território porque essa quantidade de ladeiras não viabiliza.”

Sérgio Sobreira

O pesquisador chama atenção para uma outra questão quando se trata de acesso à cultura: a falta de diálogo com a população, sobretudo de classes mais baixas. “É algo a se pensar de forma mais ampliada do que simplesmente estabelecer preços populares para que as pessoas se sintam habilitadas a frequentar a programação cultural da cidade”.

 

O que é preço popular?

Foto: Liz Santana

Para garantir que todos possam frequentar os espaços culturais de Salvador, alguns locais oferecem atrações gratuitas ou com preços mais baixos. Mas o que seria um preço popular? Segundo o pesquisador Plínio Rattes, o ingresso de um show ou qualquer outro produto cultural é entendido como popular quando levamos em conta que os preços são reduzidos e acessíveis para pessoas das classes menos privilegiadas. Ademais, “isso pode variar por região do país e/ou cidade, de acordo com a realidade social, econômica, cultural, etc, daquele lugar/população.”

 

O professor de Produção Cultural e pesquisador da Facom/UFBA, Sérgio Sobreira, comenta o que considera ser um preço popular

 

Políticas públicas

Democratizar o acesso à cultura é responsabilidade do Estado, que deve estruturar, fomentar, financiar e garantir o acesso de toda a população à programação cultural e artística. Para Sobreira, essas ações ocorrem, mas “não de uma forma estruturada e organizada. Fica mais por conta da iniciativa de um proponente do que do próprio poder público. Não existem marcadores legais que definam, estabeleçam e estipulem o que é democratizar o acesso à cultura”.

Umas das saídas do governo para fomentar e incentivar a cultura no País – e em Salvador – é a Lei Rouanet (lei 8.313/91). Por meio da Lei, empresas e pessoas físicas podem patrocinar espetáculos diversos, desde exposições, shows, livros, museus, galerias e várias outras formas de expressão cultural, e abater o valor total ou parcial do apoio do Imposto de Renda. Segundo definição do Governo Federal, “a Lei também contribui para ampliar o acesso dos cidadãos à Cultura, já que os projetos patrocinados são obrigados a oferecer uma contrapartida social”. Ao tomar posse do cargo, o presidente Jair Bolsonaro anunciou a extinção do MinC, sendo suas atribuições incorporadas ao recém-criado Ministério da Cidadania, o que causou grande protesto por parte da comunidade artística brasileira.  

A cultura deve ser tratada como prioridade, e não como algo em segundo plano. Para entender qual a importância do Estado para fomentar e democratizar a programação cultural para todos os públicos, ouça parte da entrevista que realizamos com o professor e pesquisador Sérgio Sobreira.

https://soundcloud.com/impressaodigital/professor-sergio-sobreira

 

Um guia acessível ou “0800” 

PROGRAMAÇÃO CULTURAL DO MÊS DE NOVEMBRO

SERVIÇO
Intercenas Musicais | Héloa e Okwei Odili
Quando: 15/11 (sexta-feira)
Horário: 20h
Local: Commons Studio Bar – Rua Odilon Santos, 224, Rio Vermelho, Salvador –BA
Ingressos: R$ 10 (lote promocional) / R$ 15 (lista) / R$ 20 no local
Vendas: Sympla (www.sympla.com.br)

SERVIÇO
I Festival Literário Nacional – FLIN
Quando: 12 a 15/11 (terça a sexta-feira)
Horário: a partir das 8h30min
Local: Ginásio Poliesportivo de Cajazeiras
Endereço: Estr. do Coqueiro Grande, 127 – Fazenda Grande 2, Salvador – BA, 41340-050
Aberto ao público

SERVIÇO
AFROBALADA
Quando: 16/11 (sábado)
Horário: 19h
Local: Arena do Teatro SESC-SENAC Pelourinho
Ingressos: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada) | https://www.sympla.com.br

SERVIÇO
Espetáculo KAIALA 
Quando: 9 a 23/11 (sábado e domingo)
Horário: 20h
Local: Teatro SESI – R. Borges dos Reis, 9 – Rio Vermelho, Salvador – BA, 41950-600
Ingressos: R$ 30 e R$ 15
Vendas: Bilheteria do teatro e www.sympla.com.br
Classificação: LIVRE

SERVIÇO
Mulher com a Palavra – Luedji Luna, Mafoane Odara e Natasha A. Kelly
Quando: 18/11 (domingo)
Horário: 20h
Local: Sala Principal do Teatro Castro Alves
Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia), das filas A a Z11 | ingressorapido.com

SERVIÇO
Projeto Arte, Consciência e Resistência – Dia da Consciência Negra
Quando: 20/11 (quarta-feira)
Horário: das 18h à 0h
Local: Praça Quincas Berro D’ Água, no Pelourinho, Salvador/BA.
Entrada: 1 pacote de 400g de leite em pó.
Informações: 71 9 92939497 (Tim – número e whatsapp) ou 9 88399700 (Oi).

SERVIÇO
Solar Music Festival – Luíza Britto e Cinho DaMatta
Quando: 21/11 (quinta-feira)
Horário: 18h
Local: Solar da Graça – Rua da Graça, 284 – Salvador
Ingressos: R$ 15 (couvert por pessoa)
Reservas: (71) 3328 3444 contato@restaurantesolar.com

SERVIÇO
Lançamento |Um Chevette girando no meio da tarde – Dênisson Padilha Filho
Quando: 21/11 (quinta-feira)
Horário: 19h
Local: Lebowski Pub |Rua da Paciência, 127, Rio Vermelho, Salvador, BA
Ingressos: ENTRADA FRANCA

SERVIÇO
Solar Music Festival – Mariella Santiago e Trio
Quando: 28/11 (quinta-feira)
Horário: 18h
Local: Solar da Graça – Rua da Graça, 284 – Salvador
Ingressos: R$ 15 (couvert por pessoa)
Reservas: (71) 3328 3444 contato@restaurantesolar.com


Programação do Teatro Gamboa

Cinema
Samba Junino – de Porta em Porta – Oba Cacauê Produções
Antes das apresentações
Exibição do trailer do doc assinado pela cineasta Fabíola Aquino, que divide direção e roteiro com Dayane Sena, exaltando o ritmo essencialmente soteropolitano. A iniciativa integra as comemorações pelo mês da Igualdade Racial.

Exposição
Pretas estão se Amando – Annie Ganzala
Quando: Até 30/11 – das 16h às 19h (qua a sab) e 15h às 17h (dom)
Gratuito
Mais um mês das aquarelas da artista em torno da comunidade negra, sua espiritualidade e as conexões de vida das mulheres da diáspora.

Teatro
Soma-Afrontamento – Coletivo João Ninguém
Quando: 01/11 (sexta) – 19h
R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia)
Espetáculo multissensorial e poético, que aborda o extermínio do jovem negro, a liberdade de expressão e a democracia.
CLASSIFICAÇÃO: 15 anos

Música
Ofá
Quando: 03, 10 e 17/11 (domingos) – 17h
R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia)
Com músicas repletas de referências de matriz africana, a banda busca refletir sobre as tentativas de apagamento da cultura indígena e africana no Brasil, tendo a ancestralidade como base, seus aspectos rítmicos e poéticos.
CLASSIFICAÇÃO: Livre

Música
Encontro de Orís – Emillie Lapa e Elinaldo Nascimento (Elinas)
Quando: 13, 20/11 (quartas) – 19h
R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia)
Os músicos e compositores unem suas trajetórias, que perpassam desde o canto, a relação com os instrumentos percussivos e melódico-harmônicos, num encontro ancestral.
CLASSIFICAÇÃO: Livre

Teatro
Me Calarei Para Você em Todas as Línguas da Terra – Isa Trigo
Quando: 14, 15, 21, 22, 28 e 29/11 (quintas e sextas)- 19h
R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia)
Trata do mito das sereias, em especial das lendas e histórias trazidas da ilha de Itaparica, que atravessa o imaginário baiano e feminino, a mulher que intui o seu poder, a partir do atravessamento de imagens.
CLASSIFICAÇÃO: Livre

Dança e Peformance
2ª Mostra Etnografias Urbanas Subversivas – Núcleo EUs
Quando: 09 e 16/11 (sábados)- 17h e 19h
R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia)
Trabalhos autorais de dança em interface com outras linguagens que abordam a temática negra e LGBTQ+.
CLASSIFICAÇÃO: 16 anos

Se Mostra Interior
Encarceradas – Grupo Recorte de Teatro
Quando: 23/11 (sábado) – 16h e 19h + 24/11 (domingo) 17h
R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia)
A peça retrata o esquecido ambiente carcerário feminino. De forma realista e espontânea o espetáculo quebra a quarta parede, convida o público a estar junto com o elenco no momento da atuação, entre risos, dramas e muita emoção.
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos

Música
Cia Plural cultural canta Lauro de Freitas Bahia
30/11 (sábado) – 19h
R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia)
Um resgate das manifestações culturais da antiga Freguesia de Santo Amaro do Ipitanga, hoje município de Lauro de Freitas, mantendo as tradições e usando também uma roupagem moderna.
CLASSIFICAÇÃO: Livre

PROGRAMAÇÃO CULTURAL DO MÊS DE DEZEMBRO

SERVIÇO
Exposição: “Baianas: iê acarajé, iê abará”
Quando: 08/11 a 01/12 (de terça-feira a domingo)
Horário: das 14h às 18h.
Local: Fundação Gregório de Mattos | Endereço: R. Chile, 31 – Centro, Salvador – BA
Telefone: (71) 3202-7800
Classificação indicativa: livre
Entrada franca

SERVIÇO
14º Festival de Cultura e Gastronomia Tempero no Forte
Quando: 28/11 a 08/12
Onde: Praia do Forte e Litoral Norte-BA.

 

 

 

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