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“Os quadrinhos sempre foram grandes incentivadores de leitura”

- 9 de setembro de 2013

Antônio Cedraz fala sobre a Turma do Xaxado, o início da carreira e as dificuldades enfrentadas na profissão de quadrinista

Thuanne Silva

Antônio Cedraz é o autor da Turma do Xaxado, um quadrinho tipicamente nordestino. Inspirado por sua infância no interior da Bahia, na cidade de Miguel Camon, criou a famosa turminha. O artista já teve seus trabalhos publicados nos principais jornais da capital baiana e revistas lançadas em todo país. Ele também conquistou  diversos prêmios, como no 2º Encontro Nacional de Histórias em Quadrinhos, realizado em Minas Gerais, em 1989; quatro troféus HQ MIX (1999, 2001, 2002 e 2003), além do Prêmio Ângelo Agostini de Mestre do Quadrinho Nacional, dentre outros.

Antônio Cedraz, autor da Turma do Xaxado

Impressão Digital 126 – Como começou sua carreira de quadrinista? Conta um pouco sobre sua trajetória e da sua relação com as histórias em quadrinhos.

Antônio Cedraz – Quando eu descobri o desenho, eu tinha cerca de 16 anos. Eu fui comprar material escolar em uma papelaria e encontrei o rapaz desenhando. Ao chegar em casa, peguei papel e lápis e tentei desenhar. Gostei da experiência e daí em diante não consegui mais parar. Eu já gostava de quadrinhos e daí para a criação de minhas histórias foi só um pulo. Naquele tempo só chegava até a cidade revistas publicadas pela EBAL e depois as revistas de Luluzinha. Mais tarde, eu conheci o trabalho do Maurício de Souza e me identifiquei muito com o traço dele. Minhas maiores influências foram as revistas da Luluzinha (Marge) e os desenhos do Maurício [de Souza] que chegavam através dos cadernos infantis, enrolados a mercadorias e vendidas na feira livre. Depois vim morar em Salvador para estudar e ver meus trabalhos publicados nos jornais.

ID 126 – Em que você se inspirou para criar a Turma do Xaxado?

AC – A Turma do Xaxado nasceu de um pedido do jornalista Sérgio Mattos para criar um personagem para o caderno Municípios do jornal A Tarde. Publiquei uma tira com o Xaxado e, devido o sucesso, fui criando o restante da turma. Depois ele migrou para o Caderno 2 e passou a sair diariamente o que levou a ter uma maior visibilidade. Em seguida vieram os livros, cartões telefônicos etc. O Xaxado se parece um pouco comigo, quando criança no interior.

ID 126 – Quais são os principais desafios em trabalhar com quadrinhos? Qual sua opinião sobre o mercado brasileiro e, especificamente, o mercado baiano?

AC – O grande desafio é sobreviver com isso. Poucos são os que conseguem. Nós temos o hábito de valorizar mais a cultura estrangeira e isso repercute também nos quadrinhos. Então, tudo que é estrangeiro e publicado no Brasil é mais valorizado que o similar nacional. Outro fator é que não temos editoras que queiram investir em quadrinhos brasileiros. Até os jornais, preferem publicar os quadrinhos estrangeiros. Na Bahia, não existe mercado e nem incentivo. Temos grupos surgindo mais de forma independente e passando por dificuldades.

ID 126 – No Brasil, há uma forte ligação dos quadrinistas, cartunistas e chargistas com a imprensa. Qual sua relação com os jornais, no sentido de publicação de tirinhas?

AC – Não conseguimos penetrar em muitos jornais. Já promovi até uma campanha através do meu distribuidor, mas as vendas foram mínimas. É difícil, principalmente, com uma tirinha nordestina. Parece até que há preconceito. No entanto, o meu trabalho tem tido uma boa repercussão por ser um quadrinho bem brasileiro e que procura estar atualizado.

ID 126 – Quais as principais diferenças de se criar uma narrativa em quadrinhos com relação aos outros tipos de narrativa?

AC – Enquanto o escritor narrador tem que fazer a descrição das cenas, os quadrinhos tem que mostrar essa cena desenhada. Geralmente, quando eu escrevo uma história, eu já vou pensando em como serão os quadrinhos. Vou escrevendo e imaginando.

ID 126 – É possível viver de quadrinhos atualmente? Qual dica você daria para quem está começando?

AC – Alguns caras conseguem, principalmente os que desenham para o mercado estrangeiro. O conselho é que façam por amor, mas escolham outro tipo de emprego para lhe sustentar até que apareça uma oportunidade. Outro conselho é nunca desistir do sonho e estudar e ler bastante.

ID 126 – Os quadrinhos deixaram de serem vistos como coisa exclusivamente para criança e estão presentes também em estudos acadêmicos de diversas áreas. Qual sua opinião sobre esse interesse da academia pelas HQs? 

AC – Os quadrinhos sempre foram grandes incentivadores de leitura e houve tempo em que foram censurados e tidos como non grato pelas escolas. Mas, descobriu-se o contrário, pois quem lê quadrinhos logo passa a ler outras publicações. Hoje, ele é estudado por universidades do mundo todo. A Turma do Xaxado mesmo já foi tema de diversas dissertações, inclusive no exterior, na Itália.

ID 126 – Novidades relacionadas a Turma do Xaxado? 

AC – A Turminha está sempre com novidades. Estamos lançando a história do Pelourinho em inglês, pela Editora Martin Claret, que já publicou três livros da turma a nível nacional, está programando novos livros. Tem também uma série 26 episódios de desenhos animados de um minuto cada que a Liberato Produções está produzindo. Recebi recentemente o título de Cidadão Jacobinense e vamos ser homenageados na FLICA deste ano. Vamos também participar novamente da Bienal do Livro da Bahia com novos lançamentos.

 

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