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Os Desafios dos Novos Produtores de Arte Contemporânea

- 28 de novembro de 2015

Entre incertezas e decisões a serem tomadas, a produção artística contemporânea estabelece questionamentos em relação a noções de sucesso, visibilidade e motivações de produção.

Gustavo Mões

Com uma produção de atividades artísticas cada vez mais democratizada, tanto no sentido de mais vagas em espaços de formação em cursos de universidades federais, quanto através de políticas públicas de incentivo à produção e difusão, a arte caminha para se afastar da ideia de algo restrito a pequenos públicos para encontrar novas formas de circulação, exibição e, principalmente, novos produtores. Ainda assim, a opção de seguir uma carreira artística implica questões pessoais não tão facilmente definidas como a ideia de conforto financeiro de outras carreiras profissionais. O que está por trás dessa decisão rumo a tantas incertezas pode ajudar a definir os motivos desses novos artistas escolherem seguir por esse caminho, como também elucidar os rumos da própria produção artística contemporânea.

Desde 2011, com a aprovação da Lei Orgânica da Cultura, o modelo de editais abertos a todos os públicos passou a ser adotado em seleções de projetos artísticos nas esferas públicas e particulares.  A cultura passou a ser programa de governo, e a “valorização e promoção da diversidade artística”, objetivo das políticas de Estado por meio de fundos financeiros e editais específicos.

Obra exposta no Salão de Artes da Escola de Belas Artes da Ufba

Do fazer ao ganhar

Resolver as inquietações do espírito ou notoriedade. Ganho financeiro e talento. Desde que o mundo é mundo se produz arte pelos motivos mais variados. Tentar resolver o quebra-cabeça que é a carreira artística é uma tarefa tão difícil quanto entender uma obra de arte. Diferentes fatores podem influenciar o processo e com tantos produtores, ser notado e bem sucedido é relativo. Entre a produção e o reconhecimento existe um caminho tortuoso e nebuloso.

Entre carreiras profissionais com um caminho mais claro e as incertezas do mundo da arte, a jornalista de formação e fotógrafa por vocação, Thamires Tavares, 23 anos, escolheu o segundo de forma a explorar no campo as possibilidades de criação, atividade mais prazerosa que o trabalho burocrático da comunicação: “Estou caminhando para me tornar artista a partir do momento que decidi produzir e achar que a fotografia é uma linguagem a ser explorada, para discutir temas que acho interessante”, explica.

A obra de Thamires discute as relações entre intimidade e natureza em seu trabalho Refúgio, que estreou no Festival de Fotografia do Sertão, um encontro que está na sua segunda edição buscando divulgar o trabalho de novos artistas. Escrever uma lista de motivos para se produzir mostra-se tão simples quanto escrever outra com as dificuldades do processo.  “Ser artista é difícil pelas questões, mas sempre foi. Tem muitos exemplos de artistas descobertos depois de morrer pobres. Não acho que devemos pensar no dinheiro no momento que estamos produzindo, no primeiro momento. Produzo porque tenho a necessidade de me expressar, não pelos rios de dinheiro”, relata Thamires.

O campo da fotografia, escolhido pela artista, é um dos que mais cresce em relevância. O professor da Universidade Federal do Ceará Silas de Paula vê na fotografia contemporânea um potencial de produção ainda não observado nas artes clássicas. “A fotografia está, aos poucos, atraindo mais atenção e público. As exposições mais vistas nas grandes bienais do mundo utilizam a fotografia como linguagem”, explica.

Obra Refúgio exposta no Festival de Fotografia do Sertão

 

(in)Visibilidade

Nesse meio tempo, entre o dilema de ser artista por vocação e seguir uma carreira profissional remunerada, os novos artistas têm que lidar com a falta de visibilidade das produções. Sem ela, não há reconhecimento, sendo esse financeiro ou a própria notoriedade artística. Com isso, as exposições coletivas se apresentam como uma alternativa de espaço para novos produtores que ainda não possuem a validação necessária para exporem sozinhos.

Abrindo espaço para novos artistas, a quarta edição do Salão da Escola de Belas Artes selecionou 26 novos artistas para uma exposição coletiva na Galeria Cañizares entre os dias 5 e 18 de novembro. As obras, selecionadas por professores da Escola de Belas Artes, tinham como único direcionamento a temática “Tensões e atravessamentos. Pensar a arte como agente de não convenção”.

Uma das selecionas, Mirella Ferreira, expôs a obra “Tamarindo”, uma instalação que mistura fotografia, um livreto e a principal referência da artista, a música. A artista encara a visibilidade de maneira particular: “Eu não posso ter o controle sobre visibilidade. Têm pessoas que correm atrás de um edital, de uma exposição coletiva, mas nem isso está cem por cento sob o seu controle, o seu trabalho será avaliado. Acho que quando você para de pensar e foca em produzir, sem pensar se 15 pessoas ou 100 vão ver, o que tinha para acontecer acontece”.

Abertura do Salão de Arte da Escola de Belas Artes

 

Convergências

Das incertezas comuns aos novos artistas, a convicção na consistência do que é produzido surge como um ideal.  “O artista é o arauto da sua produção”, relembra o professor Silas. “Ele deve ouvir críticas, mas deve sempre defender a sua obra”.  Com isso, o reconhecimento vem durante o processo, ao passo que contatos são feitos e o produtor passa a circular tanto o seu nome quanto a sua obra.

“Estou no caminho para ser artista, mas não vou pautar a minha obra com esse objetivo. Só me realizo como produtora a partir do momento que eu produzo e realizo os meus projetos das minhas ideias, o reconhecimento vem com consequência”, explica Thamires. Durante a sua primeira exposição, a ainda-não-artista conheceu curadores de outros festivais do país e espera, assim, dar continuidade à sua produção.

A posição de Mirella, parecida com a de Thamires, parece apontar para a casualidade dos encontros: “Não sou obcecada com visibilidade porque não busco isso, as coisas acontecem naturalmente. Ou você esquece da visibilidade e produz sem pensar ou você usa as inquietações para produzir”, relata Mirella. Se fazer presente, estar nos lugares em que os produtores e artistas frequentam, parece ser o melhor caminho a ser tomado pelos que ainda não possuem tanto nome ou experiência.

Quintino vê na internet uma boa aliada para os produtores: “Acho que cada vez mais, com as facilidades da internet, esse (in)consciente coletivo tem aumentado e as obras têm se assimilado bastante, seja em questão de técnica, de conceito, de tudo.” A similaridade da produção não seria algo negativo, mas “a arte e outras produções subjetivas estão cada vez mais ligadas por um fio invisível que as conecta, que se relaciona, que se questiona. Ao mesmo tempo que rola uma similaridade, rola um distanciamento”, pondera.

Com isso, os novos artistas convergem como atores de uma nova arte. Criando de forma desbravadora, pisando em falso e aprendendo durante o processo. Em um campo de incertezas em que a arte contemporânea se estabelece, a reflexão dos processos de quem produz acaba se tornando parte da obra em si.  “Você está na faculdade. Invariavelmente as pessoas sabem o que você faz. Por que esse grupo não se junta num coletivo, num projeto, para por a produção para fora de alguma maneira? Eu não procuro editais, eu gosto da troca com os amigos”, conclui Mirella.

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