Os desafios do ensino remoto na UFBA

Yasmin Santos, Ricardo Araújo e Fabio de Souza - 1 de junho de 2021

Era início de março de 2020 e a Universidade Federal da Bahia retornava suas atividades dando partida ao primeiro semestre letivo do ano. Para ser mais exato, no segundo dia do mês, os campi universitários espalhados pela Bahia foram ocupados pelos mais de 40 mil estudantes de graduação. As salas de aula cheias, o Restaurante Universitário e os Buzufbas (Ônibus de transporte inter campus) lotados são retratos de uma época em que o cenário pandêmico de hoje pertencia apenas a histórias de ficção ou a um passado muito distante.

Após a segunda semana de funcionamento, o fim de semana que se seguiu já foi marcado por e-mails de professores comunicando o cancelamento temporário de suas respectivas aulas, ainda de forma desordenada, por conta do avanço do Coronavírus no país. A princípio, a decisão partiu da autonomia dos docentes. No dia 18 de março, a suspensão se concretizou com decisão unânime do Conselho universitário, cancelando por tempo indeterminado as atividades presenciais.

Com o descontrole da pandemia, a possibilidade de retorno ao modelo presencial foi ficando cada vez mais distante. A administração Central da UFBA com o intuito de manter o espaço de encontro da comunidade acadêmica, realizou o primeiro congresso virtual da história, entre os dias 18 e 29 de maio. Em julho, após consultas com o corpo acadêmico, a instituição aprovou em caráter excepcional, um semestre suplementar com atividades online, que vigorou entre oito de setembro e 18 de dezembro.

Foram grandes os desafios do semestre emergencial, desde o processo conturbado na matrícula, devido a menor oferta de disciplinas, até falta de espaços adequados aos estudantes para realizar atividades. 25% dos estudantes de graduação que responderam à Pesquisa de Avaliação do Semestre Letivo Suplementar, disseram ter espaço compartilhado em casa, inapropriado para cumprir as demandas.

A experiência do período serviu como base para elaboração de mais um semestre remoto, mas dessa vez com caráter regular, que está em vigor desde 22 de fevereiro. Nelson Pretto, professor da Faculdade de Educação da UFBA, líder do Grupo de Pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologias (GEC) e coordenador da disciplina Polêmicas Contemporâneas, que  chegou a ter mais de 1.600 alunos matriculados no SLS,  considera que faltou coletividade no processo de adaptação da universidade ao sistema remoto de ensino.

“A universidade atuou de forma muito eficiente, fizemos um congresso, fizemos diversas ações para fora da universidade. No entanto, o debate interno para que nós tivéssemos uma grande oportunidade revolucionária em função da crise, eu acho que foi pouco feito”, defende.

No mesmo Relatório de Avaliação do SLS, direcionado aos docentes, 60% dos que responderam apontaram para um grau de exaustão/cansaço em níveis alto ou muito alto.  “Estamos sofrendo muito com esse excesso de telas e o que é mais grave, com esse excesso de trabalho. Porque diferente do que alguns irresponsáveis de uns gestores e uns políticos dizem, em todos os níveis de ensino os professores e professoras estão trabalhando e trabalhando muito mais”, declara Pretto.

 

Adversidades do novo modelo de Ensino 

Com a experiência do SLS, realizado em 2020, as aulas continuaram online e a adaptação para o novo semestre foi necessária para docentes e discentes. A estrutura dos recursos disponíveis pela instituição passaram por modificações para atender as demandas que o semestre teria, na modalidade de ensino remoto. Dentre algumas, estão o Moodle, que se tornou uma plataforma mais robusta com algumas adaptações, passando a ter um novo nome, AVA, e endereço, e também o Mconf da Rede Nacional de Pesquisa(RNP), plataforma destinada para realização das aulas online. 

Para Washington José Filho, docente da Oficina Telejornalismo da Faculdade de Comunicação da UFBA – Facom, é preciso entender que o modelo definido pela universidade, para suprir as aulas neste semestre frente ao atual cenário, não é o já conhecido sistema de Ensino a Distância (EAD), e sim o ensino remoto. A diferença entre os dois modelos, segundo o docente, é que o contato com o professor na modalidade EAD é limitado, diferente do ensino remoto adotado pela instituição.

Uma das características das oficinas ofertadas na Facom é a prática do aluno com os recursos que cada disciplina dispõe. Segundo o professor, mesmo com a possibilidade dos alunos poderem concluir gravações com smartphones, a solução ainda não é ideal, visto que não permite realizar procedimentos para caracterizar as práticas como programas de informação. Em relação à disciplina, “a maior dificuldade é a falta de acesso a recursos, como a estrutura de edição ou um espaço mais adequado, mesmo que não seja um estúdio para a gravação”.

O SLS ajudou os universitários a ter uma base de como seria o próximo ano letivo. Porém, mesmo com o suporte e novas reformas para uma melhor experiência, vários impasses continuam na adequação dos alunos às aulas ministradas no atual semestre. Para alguns discentes de cursos de graduação e pós-graduação, as dificuldades de adaptação na nova modalidade são a ausência de um ambiente adequado para os estudos, excesso de atividades em um “ato desproporcional perante ao contexto de pandemia”, dificuldade em manter uma rotina de estudo e, também, uma lacuna na adaptação de disciplinas práticas que em alguns casos, deixam o aprendizado bastante superficial. 

Para os estudantes, além da falta da prática, que causa uma grande perda no aprendizado, a dificuldade na rotina e na comunicação estão nos impasses que dificultam o aprendizado no atual semestre. É o caso da universitária Nayara Reis, 21 anos, do curso de Fonoaudiologia. Para ela, algumas disciplinas com bases mais teóricas conseguem suprir, frente o atual cenário, mas em outras a dificuldade é perceptível: “Não estou conseguindo manter a rotina de estudos, pois é muito difícil a comunicação entre professor e aluno, em questão de dúvidas. Acho muito complicado isso e focar na aula, também é muito difícil”, afirma a estudante.

A estudante do Programa Multidisciplinar de Pós-graduação em Cultura e Sociedade, Joelma Stella, conta que para conseguir manter a rotina de estudos precisou passar a ler mais livros impressos e PDFs no Kindle para diminuir o tempo em frente a tela no computador. “Porque as aulas virtuais somadas ao trabalho remoto fazem com que eu passe horas em vídeo chamadas e acabei reduzindo o tempo que fico online para outras atividades já que ficava exausta de estar diante da tela”. Mesmo com as mudanças, ela afirma que manter o foco continua sendo um grande desafio, uma vez que se considera dispersa e em casa lida também com as questões domésticas e acompanha as aulas do filho.

Saúde mental da comunidade

Essa nova adaptação às atividades remotas seria uma forma de reduzir os atrasos no ensino acadêmico. Nesse retorno das atividades, o maior desafio para muitos estudantes é manter a rotina de estudos diante da ansiedade, estresse, tristeza e até depressão que foram algumas consequências que surgiram durante o isolamento social em virtude da Covid-19.

Diante desse cenário, a UFBA através do seu programa de Bem-estar em Saúde Mental (PsiU), vinculado à Pró-reitoria de Ações Afirmativas e Assistência Estudantil (Proae), criou uma estrutura de atendimento virtual para atender toda a comunidade acadêmica. “Com o advento da pandemia no início de março de 2020, nós passamos a atender online”, conta Luiz Felipe Monteiro, Psicólogo da PROAE/UFBA; e um dos coordenadores do programa PSIU. Segundo o site Edgar digital, o qual pertence a universidade, no primeiro semestre de 2020 o PsiU realizou mais de 500 acolhimentos através de sua equipe de colaboradores, que também contou com a ajuda de uma rede de apoio com mais de 40 terapeutas, os quais realizaram o atendimento via aplicativo de mensagens.

“A gente percebeu um aumento da procura do atendimento ao acolhimento do PsiU particularmente esse ano depois do retorno às aulas no início de março, percebemos um crescimento significativo em relação ao ano passado e em uma conversa com outros programas serviços de acolhimento, houve também esse aumento de procura por atendimento”, diz Monteiro.

CovidPsiq, uma pesquisa sobre saúde mental realizada pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, mostrou o agravamento na saúde mental no período de isolamento de 65% dos entrevistados.  O aumento de indícios de ansiedade, estresse e depressão também foi identificado na população. A aflição psíquica entre universitários apresenta-se na forma de estresse, sentimento de incapacidade frente ao isolamento, preocupação com os cuidados preventivos, medo de perder parentes e amigos.

“Esse afastamento físico dos amigos, dos familiares, das pessoas que a gente costumava conviver, é muito complicado. Principalmente, quando o que está acontecendo se estende durante muito tempo. Ninguém esperava que essa pandemia, no final do ano passado, iria se estender como está se estendendo, isso é pior. Muitas vezes gera uma sensação de uma certa falta de horizonte, uma certa decepção, que alguma coisa iria melhorar um pouco mais rápido do que está melhorando,” destaca Monteiro.

Outro impacto causado por essa nova realidade na vida dos estudantes foi a desmotivação em continuar com as atividades remotas, o auto isolamento, preocupação com a situação econômica do país, angústia e até distúrbios alimentares, foram fatores que contribuíram para a perda da vontade de realizar atividades acadêmicas.

“O efeito emocional disso por vezes é o abatimento, é uma falta de motivação, uma falta de concentração. Eu vejo relatos, no sentido de que a pessoa está afastada, sem contato com os amigos, se sentindo sozinha, mas ao mesmo tempo não tem disposição emocional de conseguir contato, ligar, trocar, falar. Isso reduplica a sensação de isolamento afetivo,” afirma Monteiro.

Existem muitas iniciativas focadas para o acolhimento de pessoas com transtornos mentais, algumas foram feitas especialmente para ajudar as pessoas durante a pandemia da Covid-19. O Mapa Saúde Mental disponibiliza informações sobre iniciativas de atendimento gratuito ou voluntário online, a plataforma também serve como um guia para encontrar diferentes locais que oferecem atendimento gratuito ou voluntário presencial em saúde mental.

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