“Os autores japoneses oferecem mais diversidade aos seus leitores e leitoras”

- 9 de setembro de 2013

Com diversas abordagens sobre (quebra de) padrões de gênero, narrativas ficcionais podem indicar mudanças sociais e, ao mesmo tempo, servir de escape ao mundo da fantasia

 Joana Oliveira e Paula Morais

 

Valéria Fernandes, autora do blog Shoujo Café / Crédito: arquivo pessoal

Doutora em História pela Universidade de Brasília, Valéria Fernandes trabalha com estudos feministas e estudo de gêneros em histórias em quadrinhos. A autora do blog Shoujo Café falou ao Impressão Digital sobre a construção das representações de gênero e sexualidade nas narrativas ficcionais típicas da cultura pop oriental.

 Impressão Digital 126: Como se construíram e como são hoje as representações de gênero na cultura pop oriental, sobretudo em mangás?

Valéria Fernandes: É complicado falar de como as representações de gênero se constituíram, porque existe uma grande variedade de arranjos que podem ser encontrados em revistas para os diferentes públicos.  Há uma estudiosa de 
 [mangá para meninas], Deborah Shamoon, que argumenta que pecamos ao tomarmos um gênero inteiro por obras revolucionárias, como A Rosa de Versalhes ou Utena, isto é, uma parte considerável dos mangás para meninas vai enfatizar as virtudes tradicionais esperadas da boa mulher japonesa, tais como recato, timidez, disposição para o trabalho, abnegação, economia etc. Há exceções, há rupturas, mas o que eu percebo é a convivência de velhos e novos modelos de gênero, às vezes, na mesma personagem.  Afinal, só para citar um exemplo, aumenta a cada nova pesquisa o número de mulheres japonesas que rejeitam o casamento, ou o adiam ao máximo.  Da mesma maneira, não posso tomar como parâmetro para representações de gênero nos mangás para meninos o que ocorre, por exemplo, em Death Note, série na qual todas as mulheres existem em função dos homens, se sacrificam por eles e nunca são mais capazes intelectual ou fisicamente que eles.  Agora, dentro da ficção, há uma maior tolerância que no social em relação às personagens que transitam, que apresentam comportamentos vistos como femininos ou masculinos, a personagem crossdresser, por exemplo, é bem vista, celebrada, mas, normalmente, dentro de uma história que é comédia.  Para se ter uma ideia, a primeira história que mostra personagens – um casal de gêmeos – que não se comporta de acordo com o que se espera do seu gênero é o Torikaebaya, escrito na virada do século XII para o XIII.  Só que, ao final da história, a maldição lançada sobre os gêmeos é quebrada e automaticamente eles passam a se comportar conforme as expectativas sociais.  Isso ocorre em mangás também.  A personagem Noriko, em Fushigi Yuugi, abandona seu comportamento feminino em um determinado momento da obra e passa a se comportar “como o homem que é”.  Curiosamente, é no uso da língua, expressões típicas da fala feminina, que ainda servem de armadilha para a personagem, mas, de novo, é um contexto de comédia.  Já a personagem que pode mudar de sexo biológico, por exemplo,  Ranma ½, também pode aparecer sendo celebrada, assediada, mas geralmente em contexto de comédia, não raro, com a personagem afirmando a todo instante que é heterossexual e coisa do gênero.  O que podemos perceber é que, em comparação com a produção Ocidental, os autores e autoras japoneses oferecem muito mais diversidade aos seus leitores e leitoras.

ID 126: Qual o papel da androginia nessa cultura?

VF: Por séculos, houve a celebração da capacidade, especialmente masculina, de mimetizar o que seria o comportamento feminino.  Quando as mulheres são expulsas do kabuki, por decreto do shogun no século XVII, os homens tomam-lhe o lugar.  Os Onnagata, atores especializados nos papéis femininos, eram celebrados, apreciados e disputados por patronos de ambos os sexos.  Todo e qualquer material sobre o kabuki vai explicitar em um momento ou outro que vários desses atores se prostituíam ou eram prostituídos, porque exerciam grande fascínio. “Gata” ou “Kata” pode ser traduzido como papel, mas pode também ser lido como “perfeito”.  O onnagata seria, portanto, uma mulher perfeita.  Uma reação semelhante pode ser percebida no Takarazuka, teatro feminino criado em 1913, no qual o Otokoyaku (sombra de homem/papel de homem) é admirado pelas fãs não por ser um homem, mas por trazer em si as características masculinas e femininas ideais, ou melhor dizendo, idealizadas, é a androginia que fascina, por assim dizer.  Uma otokoyaku não desperta paixão por ser um homem, mas por transitar entre comportamentos de gênero, algo que, acredito, a separa das expectativas em relação ao onnagata.

ID 126: O olhar ocidental traz uma dicotomia de beleza entre mulher e homem. Mulher bonita é uma coisa e homem bonito é outra coisa. Aparentemente, não existe essa dicotomia na cultura japonesa. Isso também tem a ver com a questão da androginia?

VF: Não.  Embora certamente exista um padrão de beleza masculina percebida como viril, a beleza que parece ser mais exaltada dentro da cultura tradicional e pop japonesa é aquela associada ao que é pequeno, delicado, frágil.  Por isso é raro que um homem, especialmente jovem, seja elogiado com “você é bonito como uma mulher”, ou até mais que uma mulher, e isso não é visto como ofensa.  A questão é que este tipo de beleza não raro atrai as atenções homoeróticas que podem, ou não, ser correspondidas.

ID 126: É comum encontrar em festivais e concursos de cosplay pessoas fantasiadas de personagens de gênero oposto ao seu, e isso é encarado com naturalidade. Até que ponto os estudos de gênero têm relação com a prática do crossplay?

VF: A maioria dos fãs quer se divertir, celebrar suas personagens favoritas, alguns se preocupam com a aproximação física com a personagem que vão encarnar.  Há também a própria androginia de certas personagens, que favorece a caracterização feita por meninas adolescentes e jovens, especialmente, no Ocidente.  Quando a gente vê meninas daqui e do Japão montando grupos, por exemplo, de mangás/animes como Hetalia, é preciso levar isso em consideração.  Acredito que no Japão deva pesar também a tradição do travestir-se e mostrar habilidade em reproduzir comportamentos associados ao sexo oposto, mas, também, o fato das amizades serem muito mais segregadas e certos ambientes muito homossociais, isto é, homens e mulheres têm muito menos convivência e laços de amizade do que no Ocidente.

ID 126: Há diferença entre o papel do homem e da mulher no mangá e no anime? O olhar ocidental traz, normalmente, heróis masculinos líderes, másculos e forte. Enquanto as mulheres geralmente têm um papel secundário. Na cultura japonesa, como são elaborados esses papeis?

VF: Depende do material que se analisa.  E volto ao que a Deborah Shamoon diz: não devemos tomar exceções ou materiais de destaque como se fossem a norma.  Por exemplo, em Naruto, material muito popular no Ocidente, há personagens femininas fortes, competentes como guerreiras e que atraem a atenção das meninas.  Sakura é o melhor exemplo.  Já o protagonista pode ser representado como brincalhão, desastrado sem que isso seja percebido como ruim, mas sabemos que ele vai evoluir, de luta em luta, desafio em desafio, vai amadurecer.  É preciso levar em conta o tipo de história e o público alvo.  O herói ou heroína adolescente é, normalmente, alguém da idade dos leitores e com quem ele ou ela precisa se identificar, não somente admirar.  Usagi/Serena, de Sailor Moon tem defeitos e qualidades e é amada exatamente por isso, ela não é perfeita, ela se supera.  Aquele estereótipo da personagem feminina forte que é comum em produtos ocidentais, a personagem que não raro é a única entre homens, que não pode errar, chorar, mostrar fraquezas, não é comum em materiais japoneses.  O mesmo vale para os meninos.  Obviamente, em material para garotos o comum é que o protagonista seja um garoto e vice-versa.  O que não impede que uma personagem coadjuvante, no caso da citada Sakura, não seja amada e admirada.

ID 126: Apesar dessa aparente licença artística na cultura pop, as sociedades orientais ainda são muito conservadoras em relação à diversidade de expressões sexuais e quebra de padrões de gênero. Qual a relação entre esses dois contextos culturais, que constituem um paradoxo? 

VF: A cultura tradicional japonesa empurra o indivíduo para a conformidade, o sacrifício pelo grupo e, assim como no Ocidente, não é tolerante com o desvio, especialmente se ele começa a se desenhar com algo mais que uma exceção.  A ficção dialoga com o social, ajuda a mudar comportamentos, oferece outras possibilidades, mas deve ser vista também como uma válvula de escape.  Ler um mangá que aparentemente celebre a diversidade de gênero, não quer dizer que a sociedade japonesa como um todo adote esse comportamento.  E há de se ver o contexto em que a coisa é representada: Comédia?  Tragédia?  Drama?  Slice of life?  Uma vez li um texto sobre a questão do incesto mãe-filho e pai/filho/filha em mangás japoneses, e o que o autor destacava é que o primeiro caso sempre aparecia em contexto de comédia, porque, bem, é um relacionamento tido como absurdo, tão fora da realidade que provoca o riso, mesmo em um contexto de pornografia (hentai).  Já o segundo caso é colocado sempre como drama ou tragédia, porque, bem, o abuso sexual de pais contra seus filhos e filhas está no horizonte do possível, daquilo que acontece e que, muitas vezes, é silenciado.  De resto, é preciso conviver com os paradoxos.

ID 126: De que forma essa quebra de padrões na cultura pop poderia ser considerada uma “válvula de escape” das repressões sociais?

VF: Pode ser uma válvula de escape, mas pode ser também indicativo de mudanças sociais ou desejo de mudança.  Autores e autoras japonesas sempre trouxeram para os seus mangás temas controversos, questões sociais importantes, não é somente sonho ou escape, há um diálogo estabelecido, assim como no caso das nossas novelas brasileiras.  De comum, mangás e novelas têm o fato de serem obras abertas e muito sensíveis à audiência.  Mangás que não são populares são cancelados.  Novelas que não dão audiência sofrem intervenções ou são encurtadas.

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