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Ofício de uma vida

- 14 de maio de 2015

Pessoas que dedicaram a vida inteira ao exercício da mesma profissão

Ailma Teixeira e Caíque Bouzas

Certamente se você conhece o bairro da Lapinha já ouviu falar na “Barbearia do Vital”. O estabelecimento é simples, mas praticamente um patrimônio da localidade, onde Vital Alves Pereira Filho, aposentado de 80 anos, trabalha há 43. Seu parceiro inseparável é seu filho Luciano Pereira, 38, o “Lubinha”, que aprendeu a profissão com o pai e trabalha na barbearia há 21 anos.

"Rei do cabelo de criança", Vital é referência na Lapinha | Foto: Caíque Bouzas / Labfoto

Motivado pelos pais, aos 14 anos, Vital resolveu aprender o ofício. A primeira vez que cortou um cabelo veio junto com o primeiro gole de cachaça. “O mestre falou que só ia me ensinar uma vez. Deu um gole de cachaça pra mim e pra o outro discípulo para tomarmos coragem. Chega me arrepiei”, revela. Aos 15, Vital já tinha uma grande barbearia – presente dos pais. Descontraído, se considera “o rei do cabelo de criança”. “Nunca dei ousadia de pai segurar a cabeça de criança pra eu cortar. Enchia a boca delas de ‘queimado’ e pronto”, garante o barbeiro.

As carreiras de Reginaldo da Silva, de 65 anos, e José Nazário, de 49, como motorista e vendedor, respectivamente, não partiram de uma inspiração ou grande incentivo. Tanto para Reginaldo (que passou sua “vida toda como motorista”), quanto para Nazário (que, desde que ingressou no mercado de trabalho, não fez outra coisa além de vender), o início foi mera questão de oportunidade.

Na era da informação, uma das lógicas que vem sendo descaracterizadas é a de começar a trabalhar em uma empresa e fazer carreira apenas nela. Conseguir uma aposentadoria cômoda se tornou um grande desafio para essa geração. Um agravante é a situação do desemprego qualificado, que consiste no fato de indivíduos com nível superior não conseguirem emprego no seu campo de formação ou especialização. Mas, para passar décadas no mesmo ofício, além de ao menos gostar um pouco do trabalho executado, deve-se levar em conta a estabilidade financeira.

Reginaldo, há 24 anos como motorista do Jornal Correio*, não demonstra queixas quando diz que seu trabalho é ótimo. O motivo? “Paga certinho e tem assistência médica”. Essa segurança no emprego também foi a motivação de Nazário para continuar. Há 23 anos como vendedor numa das filiais da loja de departamentos Primordial, nunca quis mudar de área.

Propostas não faltaram. Nazário recusou convites de várias lojas. “Se eu mudar de trabalho, terei que começar do zero, criar um novo catálogo de clientes, o que torna tudo mais difícil”, explica. Reginaldo já foi chamado para trabalhar como motorista no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas a segurança financeira que encontrou no Correio* sempre falou mais alto.

Já a carreira de Vital em Salvador tomou outro rumo. Antes de abrir sua barbearia na Lapinha, em 72, passou 20 anos trabalhando para outras pessoas em salões de beleza. Ele diz que nunca ficou mais de dois dias sem trabalhar. “Eu me dediquei bastante. Não tirava férias. Era praticamente um trabalho escravo”.

São mais de 60 anos de profissão e 43 deles no mesmo lugar. Orgulhoso do trabalho e reconhecimento que adquiriu, Vital lamenta não ter conseguido uma boa aposentadoria. “Eu me arrependo de não ter recorrido ao sindicato. Eu sempre contribuí, mas perdi os documentos. Me aposentei por idade e com um salário ruim”, diz.

Prática
Reclamações, agradecimentos e muitas histórias fazem parte da rotina de um vendedor. Nazário lembra que na semana passada, uma senhora foi até a loja procurá-lo, lamentando que o sofá vendido foi uma das perdas que teve com as fortes chuvas que assolaram a cidade. “Eu não tinha o que fazer por ela, mas a gente se sensibiliza de verdade com o que o outro compartilha”.

Vendedor desde o primeiro emprego, Nazário não cogita outra profissão | Foto: Caíque Bouzas / Labfoto

No serviço, não é cobrada simpatia de Reginaldo, embora ele não dispense. Necessário é um vasto conhecimento sobre as ruas e vielas de Salvador. No transporte de jornalistas de um lado a outro da cidade, às vezes até do interior, ele já foi parar num cemitério em Mucugê.

As rotinas são intensas: oito horas diárias de trabalho, alguns fins de semana e, no caso de Reginaldo, um “trânsito caótico”. Nazário ainda tem muitos anos de vendas pela frente, mas, Reginaldo, aposentado desde setembro do ano passado, escolheu estender o serviço só por mais um ano. “Chegou a hora de descansar. De setembro em diante será só lazer”, afirma.

Herança
Pai de dez filhos, Vital colocava os mais velhos para cortar o cabelo dos mais novos, a fim de que aprendessem a profissão. Hoje, uma filha tem um salão no Pero Vaz e o outro trabalha com ele há 21 anos. Luciano aprendeu a cortar cabelo com 12 anos e aos 16 começou na barbearia do pai. “Eu o via ganhar dinheiro e aquilo me inspirava. Mas tem que ter o dom”, garante Lubinha.

Vital ensinou o ofício ao filho e agora Lubinha segue os passos do pai | Foto: Caíque Bouzas / Labfoto

A relação dos dois é de parceria e, apesar da diferença nos preços, não há concorrência. O pai atende clientes mais velhos, com cortes mais clássicos. Já Luciano modernizou o negócio. “Se chegam nele e pedem um corte moicano, ele manda pra cá. Então, a gente corta umas orelhas e pescoços”, brinca.

Luciano pretende levar a profissão para o resto da vida e diz ser um imenso prazer trabalhar com o pai todos os dias. “Fico muito satisfeito e abençoado. Vou sempre cobrar um valor menor por me sentir inferior à ele, coisa de respeito mesmo”.

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