O ritmo não para: batalhas de rima movimentam a cultura nas comunidades

Danielle Campos, Kamille Martinho, Renata Falcone - 1 de dezembro de 2021

Batalhas de rap voltam a acontecer em Salvador após suspensão causada pela pandemia de Covid-19

Após quase um ano e meio da pandemia de Covid-19, o setor artístico e cultural soteropolitano começou a tomar fôlego com a última fase de retomada das atividades econômicas, decretada pela prefeitura da capital baiana no dia 9 de julho 2021. A chamada “Fase Verde” permitiu a reabertura de centros culturais, museus e galerias de arte, espaços de eventos infantis e sociais, cinemas e circos, etc. Além disso, o avanço da vacinação contra a doença, que já ultrapassa 63% do público alvo, de acordo com dados da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), atualizados em 19 de novembro, tem permitido a ocupação popular nessas atividades. No entanto, quando se fala das festas de rua, aquelas com contribuição voluntária e organização comunitária, a respiração ainda é ofegante, dificultosa. As batalhas de rima (também conhecidas

BATALHA DO G (REPRODUÇÃO/INSTAGRAM)

Organizadas dentro de comunidades e, em sua maioria, sem patrocínio e com tímido investimento dos próprios frequentadores, as batalhas de rima consistem em duelos, com eliminatórias, de músicas improvisadas na hora – essas improvisações são chamadas de freestyle (“estilo livre”, em tradução livre). Normalmente realizadas em praça pública, com acesso livre e frequência semanal, o tipo de evento, que é parte crucial da Cultura Hip-Hop em Salvador, conta com recursos como uma caixa de som e um microfone, dividido entre os participantes – e às vezes, nem isso. Com a possibilidade de interação e participação da competição de forma gratuita, as reuniões são opções acessíveis de lazer e cultura para jovens de comunidades periféricas – que foram afetados diretamente com a suspensão dessas atividades, causada pela pandemia de coronavírus.

BATALHA DO DIQUE
(REPRODUÇÃO/INSTAGRAM)

Além da relevância na construção cultural de incontáveis pessoas, as batalhas de rap possuem o papel de movimentar a economia local das comunidades. Não é raro ver os próprios frequentadores fazendo o “corre” e vendendo geladinho, balas, entre outros produtos durante as festas. Em um levantamento realizado por esta reportagem, 71, 4% dos entrevistados afirmaram que costumam comprar itens durante esses eventos. Entre eles, 57, 1% gastam, em média, de R$ 30 a R$ 50.

O portal RAP 071, mídia especializada em rap na Bahia, realizou um mapeamento das batalhas de rima que acontecem em Salvador e Região Metropolitana, com base nas colaborações do público que acompanha as atividades na região. De “forma oficial” (com divulgação, convocação do público e frequência acentuada), são 18 batalhas dentro da localidade. Atualmente, apenas cinco delas voltaram a divulgar novos encontros nas redes sociais. 

Acesse o mapa das batalhas

“Agora já está melhor, tudo certo. A maioria dos MCs estão vacinados ou com a primeira dose. Com isso, os duelos voltam a acontecer, cumprindo todas as medidas preventivas necessárias”,  diz Junior Anjos, 21, em reportagem publicada em setembro de 2021, no jornal A Tarde. Junior, conhecido como MC J.N, é um dos organizadores da Batalha da Revolução, em Periperi, no Subúrbio Ferroviário.

Os duelos voltam, aos poucos, a acontecer na cidade, mesmo sem o aval (e apoio) do executivo municipal. De acordo com a assessoria da Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), os eventos em rua e espaços públicos estão proibidos em Salvador desde o ano de 2020, mesmo com o avanço da vacinação e a permissão de outros formatos de festa. “Esse tipo de evento não permitiria o controle do número de pessoas”, diz a assessoria. Além disso, a pasta não tem, sequer, dados referentes a pedidos de autorização para a realização do modelo cultural. 

Formação cultural

“Me ajudaram na minha formação cultural e influenciaram diretamente na minha formação enquanto pessoa, enquanto homem preto. Me deu autoestima, me afastou do crime, e me possibilitou afastar outros. Me ensinou a importância da organização cultural dentro das comunidades”, é o que conta Rafael Chagas, 24, MC, cantor e organizador da Batalha do Trem Bala, realizada na Avenida Bonocô, em Salvador. O rap, antes de mais nada, é uma manifestação da arte e da luta das classes sociais marginalizadas. Com rimas que enfatizam vivências pessoais, comumente – ou não – discriminadas, as batalhas se tornam mais do que um passatempo ou diversão. Se tornam uma arma de resistência social. “Foi através delas, e do movimento Hip-Hop, que eu tive acesso à história do nosso povo. Descobri quem foram as pessoas que lutaram pra que hoje possamos fazer rap ou acessar uma universidade”, completa Chagas.

As batalhas de rima são um convite explícito para o mundo da literatura, música e da poesia. A velocidade da fala, que por pouco não consegue acompanhar a do pensamento, é um exemplo vivo da democratização da arte, da ocupação do espaço público como espaço de troca e aprendizagem. Para Pedro Enrique Monteiro, de 26 anos, as batalhas foram o pontapé inicial para um mergulho na cultura de rua. “Elas sempre envolvem outros elementos culturais como a dança e o grafite. Isso me fez prestar mais atenção nas diversas expressões artísticas para além do que é convencional e divulgado, publicizado. Hoje sei que valorizo muito mais a arte feita por essas pessoas, que em sua maioria não tem recursos e estruturas. Consumo muito mais as culturas que estão no ‘underground’ – que foge dos padrões estabelecidos e conhecidos pela sociedade – em detrimento às culturas do ‘mainstream‘” – corrente cultural que é mais convencional e, portanto, mais divulgada. 

Palco das batalhas, a rua nem sempre tem uma relação íntima com o público das competições. Pedro Enrique afirma que conheceu as batalhas de rima através dela. Mas, para Beatriz Almeida, de 23 anos, foi preciso perder o medo. Depois que conheceu as disputas pelo portal RAP 071, Beatriz conta que aprendeu a “coexistir com tudo que acontece na rua”. “Perdi o medo. Conheci pessoas, histórias, mensagens e outra forma de auto organização negra”, conta. O site, responsável por cobrir os eventos do tipo na capital baiana, fez com que Hillary Marcele, 24, também se apaixonasse pelas rinhas de MCs. “Comecei a frequentar as batalhas quando entrei para a equipe do site RAP 071. No início, era cobrindo demandas, mas gostei tanto que passei a frequentar algumas por vontade própria”. Além da crítica social e da identidade que o rap tem com as classes mais periféricas, as batalhas criam um espaço de integração entre pessoas de diferentes lugares. “Participando delas eu conheço a perspectiva das jovens de bairros diferentes do meu e que vivem situações e realidades parecidas, ou não, com a minha. Isso me ajuda a olhar pro outro de uma maneira com mais empatia”, completa Hillary. 

As competições nas batalhas de rima proporcionam ainda a busca por conteúdos diversificados, além de aprimoração do raciocínio e linguagem. Os diálogos e vivências existentes nessas experiências fomentam, mesmo sem querer, a troca de culturas e linguagens, sem perder o viés.

As batalhas de rima surgiram dentro da Cultura Hip-hop, nos Estados Unidos. Os bairros do Brooklin e do Bronx viviam um momento caótico com crise financeira, desemprego e o aumento da violência entre gangues locais, formada na maioria por negros e latinos. O hip-hop se torna, então, uma manifestação cultural que promove a diminuição da violência e celebra as diferenças. As batalhas de rima, em especial, serviam para que representantes de gangues diferentes colocassem suas diferenças de forma argumentos intelectualizados dentro das rimas. Sobretudo, nas conhecidas “Batalhas de Sangue”, como também podem ser chamadas, muitos versos podem parecer carregados de violência, porém é justamente o fato de terem essa vazão, em forma de expressão artística, que a batalha cumpre o papel de reduzir a mesma. 

Em sua tese de mestrado, a antropóloga Regiane Smocowisk Miranda conta que o termo Hip-Hop vem de Afrika Bambaataa, um de seus fundadores, que defendia o movimento “em função paz, do amor, da união e diversão, e que as pessoas se afastariam da negatividade que estava contaminando as ruas (violência de gangues, tráfico e consumo de drogas, complexos de inferioridade, conflitos entre afrodescendentes e latinos)”. Essa função persiste no conhecimento dos jovens.

“É importante falar sobre o marco do hip-hop em nossas vidas para que os jovens entendam que vai além da batalha de rima, vai além de uma troca de argumentos” conta Ian Boamorte, o MC Bl4ck, 18, campeão nacional de batalha de rima, em um campeonato promovido pela empresa RedBull. “Muitas das vezes nas batalhas de rima, quando tem espaço aberto para o MC, para o artista falar sem regras, às vezes acaba havendo ali uma disputa ofensiva de FreeStyle. Quem tá de fora, acaba recebendo de uma maneira negativa, né? Absorvendo do FreeStyle, extraindo daquele batalha, um sentimento de raiva entre um MC e outro, um sentimento de briga, quando na verdade, as batalhas foram criadas justamente para poder tirar a  briga de gangue nos Estados Unidos, e trazer uma disputa verbal, trazer uma troca de conhecimentos, uma troca de argumentos e repassar isso cada vez mais entre os jovens”, completa MC Bl4ck.

Cenário atual

Uma das poucas batalhas de rima que conta com maiores proporções em produção e organização em Salvador, o 3º Round, responsável por revelar grandes talentos da rima, usou seu espaço no instagram para promover uma campanha chamada “Coronavírus – Uma Batalha de Todxs”, em parceria com outra conhecida mídia especializada em rap da capital baiana, o Oganpazan. Na campanha, grandes nomes do Freestyle brasileiro produziram rimas para conscientizar os jovens a ficar em suas casas ainda no início da quarentena, em março de 2020.

Agora, em novembro de 2021, a importância desse movimento, ainda marginalizado por parte da população e invisibilizado pela prefeitura, teve seu reconhecimento garantido na Festa Literária Internacional do Pelourinho, Flipelô 2021, que promoveu atividades, como roda de conversa e sarau, com a presença de alguns do maiores nomes da modalidade em Salvador: Mc’s Bl4ck, Mc Yoga, Mc Ruto, Mc Nutt e Mc Noblat. Os artistas tiveram a oportunidade de contar como se envolveram com as batalhas e mostraram um pouco do seu talento, fazendo FreeStyle com palavras e objetos oferecidos pela plateia e duas batalhas de sangue no final. 

Enquanto em Salvador, a maior parte das batalhas ainda segue clandestina e sem apoio, os talentos da cidade conquistam cada vez mais reconhecimento em competições. A edição deste ano da RedBull FrancaMente, competição de batalhas de rima nacional desde 2018 no Brasil, teve três competidores baianos e uma final baiana, entre os MCs Bl4ck e Yoga, mostrando a potência dos talentos revelados nesse movimento.

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