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O mercado de trabalho informal nas ruas da cidade

- 14 de maio de 2015

A vida dos vendedores ambulantes nas ruas da capital baiana

Pedro Singer

Há mais de 20 anos trabalhando nas ruas de Salvador, Oswaldo Freitas Ferreira,60 anos, é exemplo de uma figura que nos relacionamos diariamente nas cidades. São os vendedores ambulantes. Carrinhos de lanches ou doces, vendedores de eletrônicos, panfleteiros engrossam o já expressivo número de pessoas que hoje escolheram as ruas como local de trabalho e também como maneira de sustento.

“O dinheiro como lhe falei não é grande, mas ajuda, ainda mais na minha casa que meu pai deu derrame e não pode trabalhar. Hoje que está chovendo era melhor eu vender guarda-chuva, porque o resto ninguém quer.”

Disse Oswaldo em uma tarde chuvosa e de pouco movimento na Avenida Antônio Carlos Magalhães. E riu. Durante toda a entrevista manteve o bom humor, mesmo após contar todas as dificuldades enfrentadas.

Oswaldo e seu carrinho na Av. ACM | Foto: Pedro Singer

A Legislação Brasileira classifica a maioria dessas pessoas como trabalhadores informais, ou seja, trabalham sem carteira assinada e sem o recolhimento de impostos. Mas como todos precisam encontrar uma maneira para se sustentar nesse país que ainda sofre com diversos tipos de exclusão trabalhista, muitos continuam em suas árduas rotinas empurrando seus carrinhos, ou carregando sua mercadoria de um lado pro outro da cidade na tentativa de conseguir sobreviver.

Carrinho de água de Coco na Av. Manoel Dias | Foto: Pedro Singer

O caso dos baleiros

Uma figura que é bastante característica desse universo nas ruas de Salvador é a dos baleiros. Pessoas que passam seus dias de ônibus em ônibus vendendo produtos. Diferente da maioria dos ambulantes que atuam informalmente na cidade, existe uma organização dos baleiros, a União dos Baleiros (Unibal).  A instância reúne um grande número destes trabalhadores que juntos formam uma espécie de sociedade civil.

Infelizmente não conseguimos conversar com nenhum baleiro que aceitasse conceder uma entrevista gravada, mas dois que conversaram um pouco conosco disseram que a associação serve para organizá-los e para adquirir algum controle sobre esse grupo que atua nos ônibus. A União conta também com a confecção de um colete identificador para cada baleiro, que contém informações como o número, nome e também os patrocinadores da associação.

Foto: Facebook/Unibal

O órgão oficial que regulamente o trabalho dos vendedores ambulantes em Salvador é a Semop, (Secretaria Municipal de Ordem Pública), responsável pelas orientações e pelo cadastramento dos ambulantes. O decreto nº. 12.016 de 08 de Junho de 1998 é a Lei municipal que regulamenta tanto o credenciamento, bem como as especificações do ambiente de trabalho (barracas, isopores, tendas) que são de uso permitido por esses trabalhadores.

Estão classificados nessa lei também, os vendedores de carrinho de café, os chaveiros, os sapateiros, engraxates, etc. A lei deixa claros os locais da cidade que são proibidos aos vendedores ambulantes, o que inclui o comércio dentro de equipamentos de transporte coletivo. Conflitando e muito com o trabalho dos baleiros, vendedores de água, e outros trabalhadores que vendem dentro dos ônibus.

Não conseguimos contato com assessoria de imprensa da Semop até o fechamento da edição para que pudéssemos informar os números referentes ao comércio informal regularizado em Salvador. Contudo, o site da Secretaria contém informações, documentos e todo o processo para que um vendedor possa se regularizar para comercializar nas ruas. A taxa para a expedição da licença é simbólica e custa R$ 8,83. As informações oficias, bem como os documentos necessários podem ser encontrados aqui.

Vendedor de Cachorro-quente na Av. Manoel Dias | Foto: Pedro Singer
Vendedores de rua e ambulantes na Av. Manoel Dias | Foto: Pedro Singer

O ponto de vista dos passageiros

A maioria das pessoas com que conversamos não aprova a presença dos baleiros nos ônibus. Elas acreditam que o constante movimento de pessoas dentro dos ônibus atrapalha a viagem que várias vezes é longa. Muitos inclusive se sentem amedrontados com a facilidade que os vendedores entram e saem dos coletivos. E numa cidade com altos índices de roubos em ônibus, o medo é até justificado. Camila Berthlodi, 27 anos, funcionária de uma loja de roupas na Barra disse que não gosta muito da presença deles.

“A maioria não respeita o seu direito ao silêncio e chegam falando alto, incomodando. E sinto até um pouco de medo. Já pensei que quem estava entrando iria nos assaltar, não vender alguma coisa. Mas tenho muita pena de ver que algumas pessoas precisam passar por isso para ganhar dinheiro.”

Várias pessoas em algum momento compraram alguma coisa em um coletivo de transporte ou de algum vendedor na rua. Amanda Salles, 23  anos, disse que em dias muito quentes ela agradece quando um vendedor de água entra no ônibus.

“Tem dias que você já está de saco cheio de ficar presa no trânsito engarrafado, apertada dentro do ‘buzu’, e passando calor. Quando o vendedor de água entra eu até sorrio para ele aliviada. A água está sempre gelada, e o copo sai um real. Gosto também quando alguém entra vendendo chocolate. Sou chocólatra assumida, sempre acabo comprando um docinho!”

A vida é bastante difícil para essas pessoas. Desamparados por um sistema excludente, a maioria se submete a rotinas exaustivas, minadas de preconceito por parte da população, por ser a única alternativa de sobrevivência. Maria, 38 anos, e Amparo ,40 anos, ambas vendedoras autônomas na Avenida Manoel Dias, contaram que desde pequenas começaram a trabalhar para ajudar no sustento da casa.

Amparo deixou a vida de empregada doméstica para ser uma microeempreendedora individual de uma empresa de cosméticos e com orgulho mostra seu catálogo e as amostras de perfume que carrega consigo. Maria começou cedo a vender comida na rua. Há mais de 25 anos leva para seus clientes mingau, mungunzá e outros doces que faz com muito carinho e é que tem colocado comida na mesa dela também.

Os doces de Dona Maria | Foto: Pedro Singer
O carrinho e a Dona Maria de Branco | Foto: Pedro Singer

 

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