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O apito também está com elas

- 11 de setembro de 2013

Conheça o cenário baiano para as mulheres árbitras das diversas modalidades esportivas e saiba como lidam com o preconceito e com os desafios da profissão

Luana Velloso e Miriane Oliveira

Não é de hoje que as mulheres lutam e conquistam espaço nos diversos seguimentos da sociedade e com as diferentes modalidades esportivas não poderia ser diferente, tanto na atuação como atletas quanto como árbitras de partidas de futebol, voleibol, handebol e muitos outros. Apesar de estarem em menor quantidade se comparada aos homens, é cada vez maior a abertura para que estas profissionais possam atuar, por parte das federações locais e nacionais. Mesmo assim, ainda enfrentam preconceito e têm um longo caminho a percorrer.

De acordo com a Federação Bahiana de Futebol (FBF), existem no estado 682 árbitros filiados e apenas 13 são do sexo feminino. O futebol sempre foi uma modalidade esportiva eminentemente masculina e, se nas arquibancadas as torcedoras demonstram seu amor e entendimento pelo esporte, no gramado também existem mulheres que comandam jogos. Ainda assim, a grande parte das árbitras apita jogos das séries B e C ou trabalha como assistentes bandeirinhas.

Da direita para a esquerda: Calheiro, Ivania Lopes, Daniela Coutinho e Rosidalva Cerqueira em partida pela 6ª Copa 2 de Julho Sub-17 Foto: Blog do Chiquitita Maravilha

Daniela Coutinho, árbitra baiana que integra o quadro da Fédération Internationale de Football Association (Fifa) desde 2012, afirma que 15 mulheres atuam nacionalmente, inclusive em jogos da série A do Campeonato Brasileiro. “As meninas [árbitras] estão ganhando espaço”, constata. Mas ela conta que nem tudo são flores e que no Campeonato Baiano de 2012, na partida entre Bahia de Feira e Vitória da Conquista pela quarta rodada da competição, foi vítima de descriminação por parte de um dirigente da equipe conquistense que a insultou e precisou ser contido pelo policiamento, após ela ter marcado um pênalti a favor do time adversário. “O comportamento dos dirigentes de um dos clubes foi de descriminação e eu considero que só ocorreu porque eu sou mulher”, lembra.

Em jogos de futebol, por exemplo, um árbitro corre em média 12 km por partida, por isso precisa estar bem preparado. “Hoje a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) passa diretrizes muito positivas. Se a mulher passar no teste físico masculino está apta para apitar”, informa Daniela. Ainda segundo ela, existem testes diferentes para as funções árbitro central e assistente.

No futsal, segundo Cristiano Cardoso, diretor de árbitros da Federação Bahiana de Futebol de Salão (FBFS), existem cerca de 35 árbitros na capital e, deste total, apenas seis são mulheres. Ainda segundo ele, a maioria das árbitras não apita jogos femininos, porque o jogo masculino é mais “truncado” e por isso exige muito preparo físico que elas, muitas vezes, não conseguem acompanhar.

Na Federação Baiana de Voleibol, segundo a coordenadora do departamento de arbitragem, Edilene Andrade Batista, no quandro da entidade existem 20 homens e 14 mulheres . Ela considera que o mais importante para a função é a competência. “O que a gente observa não é o sexo e sim a habilidade para desempenhar a função”, argumenta. 

Foto: Miriane Silva

Já a Federação Bahiana de Handebol conta com 33 árbitros escalados para atuar este ano, dos quais 11 são mulheres. Patricia Viana, 30 anos, é uma dessas mulheres. Ela conta que é preciso ter muita coragem e determinação para atuar como árbitra. “É o mundo inteiro contra você. Primeiro porque é difícil estar interpretando regras, uma das equipes sempre vai achar que você está errada. E, segundo, por sermos mulheres somos muito cobradas por parte dos técnicos e da torcida. Nos jogos de handebol existem sempre dois árbitros em  quadra. Se for um homem e uma mulher, por mais que o lance seja do homem,  a mulher é que vai ser cobrada”, explica Patricia que diz ainda que o segredo é isolar todas as atitudes negativas.

O Sindicato Baiano dos Árbitros de Futebol (sinbaf), que desde 1992 passou a ter mulheres associadas, hoje conta com nove em um total de 161, um número ainda pequeno. De acordo com a entidade,  dos 30 novos árbitros que se formam a cada ano, quatro são mulheres e afirma que não houve um aumento significativo no número de árbitras associadas.

Remuneração –“Não dá pra viver de arbitragem! Nós exercemos uma atividade, somos submetidos a escalas, sorteios. Não podemos trabalhar só em função disso”, afirma a árbitra de futebol Daniela Coutinho, que trabalha em uma empresa terceirizada de uma companhia de eletricidade do estado e divide seu tempo entre o trabalho e os treinamentos.

Mesmo com uma agenda complexa, a dedicação à arbitragem é grande. A rotina de treinos e competições exige flexibilidade no outro emprego. “Quando eu iniciei na empresa, essa foi uma condição, explanei os meus objetivos na arbitragem e que teria que me ausentar em alguns momentos. Acabo suprindo de outra forma, trabalhando em horários que normalmente não trabalharia”, explica Daniela.

Quem compartilha da mesma opinião é Patrícia Viana, que acredita que em Salvador não dá para viver com a função. Além da arbitragem, ela trabalha como professora de educação física e é atleta máster – atletas veteranos e experientes de maratonas aquáticas. “É preciso ter uma profissão e a arbitragem como prazer. Eu encontro sempre um tempo para me dedicar a arbitragem porque tem os estudos, reuniões e avaliações teóricas. Tem que ler a  regra diariamente até para não perder o hábito”, conta.

* Imagem destacada: site da Federação Bahiana de Futebol

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