Tags:, ,

O antigo não sai de moda

Ariadiny Araújo e Raquel Saraiva - 8 de outubro de 2018

Produtos que remetem a décadas passadas caem no gosto dos brasileiros e ganham cada vez mais a preferência dos consumidores
por Raquel Saraiva e Ariadiny Araújo

Objetos do passado muitas vezes são associados a desgaste, poeira e mofo. Entretanto, o antigo tem sido cada vez mais valorizado, virando conceito na ambientação de estabelecimentos e sendo ainda utilizados no dia-a-dia. O empresário e colecionador de objetos antigos Antônio Portela, 62, possui objetos dos tipos mais variados, desde uma bomba de combustível, som e televisão dos anos 1960 a uma máquina de escrever antiga decorando sua casa.

Ele ainda dirige um táxi londrino com design da década de 1950 e uma Kombi de 1970, que fazem sucesso por onde passam, além de coleções de vinis, peças de porcelana, fotos, quadros, soldados de chumbo e outras.
“Não gosto muito do moderno, sempre gostei do retrô. E acho que ele não deveria morrer”, defende Portela.

  • Portela é grande apreciador e colecionador de objetos antigos - alguns até inusitados, como a bomba de combustível (Foto: Divulgação/Acervo Pessoal).
  • A Kombi é um de seus itens mais queridos - o para-brisa que abre, do tipo 'safari', e as janelinhas laterais superiores são característicos do modelo 'Samba Bus' da década de 1960, inspirado nos hippies californianos (Foto: Divulgação/Acervo Pessoal).
  • A coleção de vinis é a grande paixão de Portela - ele calcula ter cerca de 2.000 discos, além das vitrolas. A maioria é de prensagem alemã e inglesa, suas preferidas, e de bandas de rock nacionais e internacionais. Ele tem as coleções completas de álbuns de seus ídolos, como os Rolling Stones e os Beatles (Foto: Divulgação/Acervo Pessoal).
  • O empresário também coleciona quadros, pôsteres e fotos - na imagem, ele mostra uma foto original e autografada de Brian Epstein, empresário dos Beatles morto em 1967 (Foto: Divulgação/Acervo Pessoal).

Mas, não é qualquer antiguidade que agrada o apaixonado. Ele tem preferência por antiguidades pós-industriais, pós-Primeira Guerra e do estilo art-decó. “A forma é exótica, e eu gosto disso”. Difícil mesmo é convencer a esposa, a professora de dança Gal Sarkis, da importância de manter tanta exoticidade dentro de casa. “Ela não se importa, mas não dá o mínimo de valor (risos). Se eu falar pra ela que já paguei R$ 500, R$ 1.000 num disco, ela tem um troço. Isso é uma coisa que só quem gosta que dá valor”.

Ouça um trecho da entrevista com Antônio Portela:

Lembranças 

Apelando para a nostalgia, diversas marcas têm apostado em conquistar clientes resgatando a identidade visual e as características de produtos que fizeram sucesso no passado. Algumas apostam até no relançamento de antigos sucessos que caíram de moda.

É o caso da Tectoy. Em 2017, a empresa relançou o Mega Drive, videogame de cartucho que foi sucesso brasileiro nos anos 1980 com a pergunta “Todos que tem ou tiveram um Mega Drive tem ao menos uma história pra contar. Qual é a sua?”. 

Na contramão de jogos com gráficos cada vez mais realistas e de histórias imersivas e com maior possibilidade de desenvolvimento, o apelo às boas lembranças fez muito marmanjo pagar cerca de R$ 400 para rever as imagens pixeladas no videogame que traz ainda 22 jogos antigos, como Sonic.

“Esses jogos trazem boas lembranças de outra época. Além disso, são clássicos que sobreviveram ao tempo, e, até hoje são referência. As músicas são excelentes, os desafios são muito bons, às vezes melhores que os dos jogos novos”, diz o programador Victor Correia, de 36 anos, grande fã de jogos de Megadrive, como Streets of Rage, lançado em 1991.

Ele destaca até a limitação gráfica dos jogos da época como positiva. “Você tinha que imaginar mais coisas. Hoje os jogos te guiam bastante, não tem tanto espaço pra imaginação”. 

Também em 2017, Victor adquiriu um Nintendo Classic Mini logo após seu lançamento nos EUA. O remake dos anos 1990 esgotou poucas semanas após chegar às lojas. O gamer assumido não se arrependeu de adquirir a relíquia repaginada por U$ 100, cerca de R$ 385 em valores atuais – após sumir das prateleiras, o Nintendo pode ser encontrado na mão de revendedores por pelo menos o dobro do valor.

Estratégia

Muitas marcas exploram o estilo antigo para se reposicionar no mercado, adicionando significados e identidade aos produtos oferecidos.  Essa estratégia foi utilizada pela carioca Granado, fundada em 1870, no Rio de Janeiro, quando buscou se expandir no país.

Até 2005, quando foi inaugurada a primeira loja-conceito da Granado do Brasil, no Rio de Janeiro, os produtos eram encontrados principalmente em supermercados e farmácias, ou em uma outra loja existente na cidade. “Quando começou se a pensar na modernização da marca, ficou claro que o que a empresa tinha de mais rico era o seu acervo, que foi muito bem conservado pela família Granado”, afirma a empresa em seu website.

 

A decoração vintage, com vitrines originais, propagandas de época, quadros, embalagens ‘centenárias’ e até o piso de ladrilho hidráulico contribuem para remeter ao ambiente das “pharmácias” do Século XIX. Ainda que o consumidor esteja passeando por um shopping moderno, entrar em uma loja da Granado o leva a uma viagem no tempo.

A estratégia parece que deu certo: a Granado se popularizou, conta atualmente com mais de 50 lojas no Brasil e no exterior, e os produtos continuam com cara de saídos da penteadeira da vovó.

Saudosismo

Segundo especialistas, a principal explicação para a atração pelos produtos retrô está ligada à romantização do passado. O produto acaba representando um apelo à nostalgia, parte de uma história mais doce e feliz – ainda que não tenha sido experimentada.

“Tinha muitas referências com meus vinis, por isso guardei. Minha mãe que me deu meu Abbey Road, dos Beatles. Era uma coisa muito esperada, muito cuidada. O vinil estava muito mais próximo de você do que uma música no Spotify está hoje”

explica Portela, que não se desfez dos vinis nem depois que eles foram praticamente tirados do mercado pelos CDs, nos anos 1990.

A pesquisadora de marketing Alinne Morais explica que a nostalgia torna os produtos retrô mais atraentes por causa do apelo de levar o consumidor ao passado. Em um trabalho intitulado “Design retrô e marketing do saudosismo: influência da tendência nostálgica no comportamento de consumo”, a pesquisadora e seus colegas explicam que o objeto pode se tornar um suporte para uma memória romântica do passado – como reflexo desses bons tempos, o próprio objeto traz uma sensação reconfortante.

Depois de quase caírem no esquecimento, os vinis têm voltado a conquistar fãs. Além das fábricas que voltaram a prensar os bolachões, como a Sony Japonesa, que retornou à atividade em 2017 pela primeira vez desde 1989, as vendas de discos no mundo aumentaram consideravelmente nos últimos anos. Nos EUA, a venda de vinis movimentou cerca de U$ 13 milhões em 2017, contra cerca de U$ 2,8 milhões em 2010.

“Eu guardei numas caixas embaixo da cama. Deu vontade de ouvir de novo, colecionar de novo, e depois de alguns anos o vinil voltou a se popularizar”, conta. Hoje, Portela conta com mais de 2.000 vinis, e garante que ouve todos. Um dos mais valiosos da sua coleção, uma prensagem rara dos Beatles feita para o mercado norte-americano, vale cerca de R$ 3.000.

No Brasil, o crescimento é percebido pelo aumento na oferta de vinis e vitrolas em grandes lojas. Um grupo de amantes de vinis organizado por Portela no Facebook, o Vinil Radical, conta com mais de 25 mil membros. Nele são postados resenhas sobre vinis que podem ser comentadas. Eventualmente, Portela organiza ainda a Feira do Vinil no bairro do Rio Vermelho, onde vinis usados podem ser comprados ou trocados. A Feira chega a contar com mais de 150 visitantes por final de semana.

O vinil, assim como o gosto pelo antigo, parece que voltou para ficar. “É difícil carregar um vinil, você leva um pen drive. O vinil não vai mais embora. Mas hoje temos várias mídias que convivem perfeitamente em harmonia” destaca Portela. Parece que o novo e o antigo fizeram as pazes.

 

Especial

Guerra da Água

No cerrado baiano, o agronegócio impacta a sobrevivência das comunidades tradicionais. A reportagem em áudio conta como a população de Correntina, no oeste da Bahia, tem sofrido ameaças e resistido à disputa por água em seu te Dê play e saiba mais sobre essa história. Material produzido a partir da proposta de pauta vencedora da […]

Leonardo Lima e Luísa Carvalho - 13 de dezembro de 2021

Editorial

Investigação participativa: reportagens que colocam o leitor no centro da história

Profa. Lívia Vieira As 13 reportagens multimídia feitas pela turma de Oficina de Jornalismo Digital em 2021.2 tiveram como base o conceito de investigação participativa. O termo, que em inglês é conhecido como engagement reporting, foi discutido em uma aula especial que tivemos com Giulia Afiune, editora de Audiências da Agência Pública. Na ocasião, Giulia […]

Profa. Lívia Vieira - 2 de dezembro de 2021


Racismo religioso

Salvador ainda é um ambiente inseguro para os praticantes de religiões afro

Dentro de casa ou no trabalho, praticantes de religiões de matrizes africanas relatam dificuldades na tentativa de exercer seu direito ao culto religioso. Expressões depreciativas, ataques a terreiros, xingamentos e até agressões. É assim que o racismo religioso se traveste de “opinião” em diversas partes do Brasil – incluindo Salvador, – uma das cidades mais […]

Josivan Vieira e Gabriele Santana - 1 de dezembro de 2021

Meio Ambiente

Salvador, primeira cidade planejada do Brasil, sofre com falta de infraestrutura

Habitantes de Salvador relatam problemas dos bairros onde vivem e denunciam falta de assistência do poder público. Os moradores de Salvador têm orgulho de dizer que vivem na primeira capital do Brasil. De propagandas até conversas em mesa de bar, soteropolitanos e pessoas que adotaram a cidade do axé e do dendê se gabam de […]

Brenda Roberta, Inara Almeida e Maysa Polcri - 1 de dezembro de 2021

Direito ao transporte

Assaltos a ônibus assustam população de Salvador

Cidadãos que dependem do transporte público relatam a experiência de insegurança cotidiana, embora Secretaria de Segurança Pública afirme que houve redução no número de assaltos a ônibus. Por Gilberto Barbosa, Leonardo Oliveira e Cesar Oliveira Os assaltos a ônibus são uma constante e assustam a população de Salvador que depende do transporte público para seguir […]

Gilberto Barbosa, Leonardo Oliveira e Cesar O. - 1 de dezembro de 2021

Direito à Cultura

Consumo de livros digitais aumenta e obras físicas têm baixa durante pandemia de Covid-19

Especialistas explicam que pandemia impulsionou mudança em formato de leitura. Por Adele Robichez, Felipe Aguiar, Nathália Amorim, Vinícius Harfush Um levantamento realizado pela reportagem em Salvador indicou que as pessoas passaram a consumir mais livros no formato digital durante a pandemia de covid-19. Segundo a pesquisa, que selecionou 68 moradores da capital para responder perguntas […]

Adele R, Felipe A, Nathália A, Vinícius H - 1 de dezembro de 2021

Economia criativa

Os desafios de viver de arte durante a pandemia

Assim como nós humanos, a economia foi imensamente impactada pelo distanciamento social, mas, felizmente, uma possível vacina para curar o problema já existe, e se chama criatividade. Não é exagero afirmar que nenhum brasileiro e nenhuma brasileira escapou ileso dos diversos e inesperados desafios vividos nos anos de 2020 e 2021. E eles têm um […]

Paulo Marques - 1 de dezembro de 2021

Direito à religião

Comunidades de matriz africana lutam por prática religiosa em espaços públicos de Salvador

Intervenções em locais comunitários preocupam terreiros que dependem da vegetação natural para exercer cultos Por Geovana Oliveira, Luana Lisboa, Victor Hugo Meneses e João Marcelo Bispo Até hoje, a vodunsi Mãe Cacau se emociona ao falar sobre o início das obras para a Estação Elevatória de Esgoto na Lagoa do Abaeté. Quando as máquinas chegaram […]

Geovana, Luana, Victor Hugo e João Marcelo - 1 de dezembro de 2021

Ordem de despejo

O caso da comunidade do Tororó, em Salvador, e a violação do direito à moradia

Moradores recebem ordem de despejo da localidade que está sendo especulada para construção de um estacionamento de um novo Shopping Center “Como os moradores são quase todos do mercado informal, a prefeitura ligava para eles e oferecia dinheiro. Como estavam todos sem dinheiro, começaram a negociar com a prefeitura. Nisso, com quem já tinha negociado, […]

Álene Rios, Júlia Lobo e Thainara Oliveira - 1 de dezembro de 2021

Cinema de rua

Histórias de quem viveu o cinema de rua de Salvador

Entenda o que aconteceu entre a época de ouro do cinema de rua e a expansão das grandes redes Tomar um café enquanto espera o horário do filme, entrar numa sala de cinema pequena, com menos de 100 lugares, para assistir a uma produção nacional. Esse ritual, muito comum até a década de 1990, é […]

Carol Cerqueira, Catarina Carvalho e Maria Andrade - 1 de dezembro de 2021

Direito à mobilidade

Pessoas com deficiência denunciam falta de acesso ao transporte de Salvador

Falta de fiscalização afeta funcionamento de elevadores em coletivos. Gabrielle Medrado, Gustavo Arcoverde, Marcela Villar e Rafaela Dultra Cadeirante desde 2014 após uma tentativa de assalto, o baiano Luan Veloso, 32, é paracanoísta profissional e terceiro colocado no ranking dos melhores do Brasil na maratona de sua categoria, a KL1, na qual atletas utilizam como […]

Gabrielle Medrado,Gustavo Arcoverde,Marcela Villar - 1 de dezembro de 2021

RAP em Salvador

O ritmo não para: batalhas de rima movimentam a cultura nas comunidades

Batalhas de rap voltam a acontecer em Salvador após suspensão causada pela pandemia de Covid-19 Após quase um ano e meio da pandemia de Covid-19, o setor artístico e cultural soteropolitano começou a tomar fôlego com a última fase de retomada das atividades econômicas, decretada pela prefeitura da capital baiana no dia 9 de julho […]

Danielle Campos, Kamille Martinho, Renata Falcone - 1 de dezembro de 2021

Direito à Segurânça

Não vá que é barril: A violência contra motoristas de aplicativo em Salvador

“Foi quando ele pegou a arma e apontou na minha cara, aí foi complicado”. Estamos na rua Candinho Fernandes, Fazenda Grande do Retiro, Salvador. São 8h30 da noite do dia 23 de dezembro de 2019, perto da véspera de Natal. Anselmo Cerqueira, que é motorista por aplicativo, está com o carro estacionado. Dois homens se […]

Adriano Motta, Lula Bonfim e Victor Lucca Ferreira - 1 de dezembro de 2021

Gerar problemas não é saudável

Consumidores relatam transtornos e dificuldades com planos de saúde

Mensalidades  subiram  quase 50% este ano, conforme aponta um levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) Por Andressa Franco, Everton Ruan e Laisa Gama No dia 25 de Março, Maria*, grávida de cinco meses, precisou ser encaminhada às pressas para o Hospital Santo Amaro. Ao chegar lá, precisou realizar uma cesária de […]

Andressa Franco, Everton Ruan e Laisa Gama - 1 de dezembro de 2021