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Nordeste em alta

- 6 de julho de 2014

Regionalismo e ar cosmopolita definem a produção de moda da região, que conquista cada vez mais o mercado fashion nacional e internacional

Isabela Garrido e Fernando Barros

Pode até não parecer, mas engana-se quem acha que a moda produzida no Brasil se resume ao eixo Sul-Sudeste, com o Fashion Rio e a São Paulo Fashion Week (SPFW) dominando a cena. Nos últimos anos, o Nordeste ganhou destaque e movimenta milhões na indústria da moda. A região deixou para trás as vestimentas de cangaceiro que durante muito tempo povoaram o imaginário popular.  Hoje, o Nordeste cria e vende peças cada vez mais valorizadas em outras partes do país e do mundo.

Para divulgar as criações e lançar novos nomes de estilistas no mercado, a região conta com o Dragão Fashion Brasil. O evento é considerado o maior de moda do Nordeste e acontece anualmente no Ceará. Idealizado por Cláudio Silveira, ele ocorre desde 1999 e oferece workshops, palestras, debates e desfiles, promovendo um intercâmbio entre produtores, estilistas, especialistas e interessados em moda.

A edição de 2014 aconteceu em abril e recebeu uma média de cinco mil visitantes por dia, atraindo olhares da imprensa de todo o Brasil. Para Cláudio, o segredo do sucesso é simples: “Temos um olhar fresh, um jeito diferente de criar, de produzir e de apresentar. Temos sotaque. E é exatamente isso o que o mundo procura quando pensa em Brasil: personalidade. Afinal, para nós que fazemos o DFB, moda com sotaque significa compreender o global através do nosso filtro regional”, explica.

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Em menor proporção, mas não menos importante, a Bahia também conta com um evento anual para fomentar a produção de moda no estado: o Bahia Moda Design, produzido pelo Sindvest e pelos parceiros Fieb, Sebrae, Senai e Senac. O evento está em sua quarta edição e segue a mesma linha do DFB, com palestras, workshops e desfiles de marcas locais, promovendo o encontro de profissionais e empresas do ramo da moda que atuam em solo baiano.

Eventos como estes são fundamentais para aquecer a indústria da moda no Nordeste, pois além de fomentar a produção e servir como vitrine para novos talentos, também revelam para o público as tendências da região e impulsionam o consumo, movimentando a economia. Segundo dados do Pyxis Consumo, ferramenta de dimensionamento de mercado do Ibope Inteligência, o Nordeste tem um potencial anual de consumo de vestuário avaliado em aproximadamente R$ 25 milhões e 939 mil reais, o que significa quase 19% do consumo do país, atrás apenas do Sudeste, com 49,26%. Os dados mostram o que para os nordestinos não é nenhuma novidade: não é apenas a sua produção que tem crescido, pois são também um poderoso mercado de compra no segmento da moda.

Apesar das boas perspectivas, a estudante de Produção em Comunicação e Cultura da UFBA e blogueira Natália Luna tem suas críticas: “A falta de incentivo, até mesmo dos governantes, dificulta a chegada de fábricas nos estados. O custo de produção ainda é alto e por isso poucos profissionais conseguem manter seu trabalho autoral”, argumenta. Para Natália, quem deseja se especializar na área também encontra dificuldades: “Os cursos são deficitários em demanda e conteúdo e na maioria das vezes é necessário ir para São Paulo buscar formação, além da dificuldade de mão de obra técnica especializada”, explica.

Nas ruas e nas passarelas – Quando se fala em moda no Nordeste, uma pergunta controversa vem à mente: existe uma essência na moda nordestina? Pode-se falar em uma identidade? Quem já andou por algumas cidades da região provavelmente percebeu que alguns elementos se repetem com frequência.

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Apesar de marcantes nas ruas, esses elementos não são exclusivos nas passarelas e pranchetas dos grandes estilistas nordestinos. Para Cláudio Silveira, não se pode falar em um estilo único na moda nordestina: “O Nordeste, assim como o resto do Brasil, não é um só e não pode ser categorizado como uma espécie com unidade. Não existe um estilo predominante ou um jeito de interpretar as apostas de moda. De um modo geral, nordestinos comportam-se como o resto do Brasil: com pouca roupa e muita pele à mostra. Gostamos do calor, das cores, das estampas, da luminosidade. Isso é comum a todos os brasileiros, não só ao nordestino”, afirma.

A jornalista Grabriela Cruz, que escreve sobre moda no jornal Correio*, em Salvador, concorda com Cláudio: “Atualmente, com tanta informação chegando fácil por vários meios de comunicação, principalmente pela internet, as pessoas se vestem como querem, seja de uma moda criada no quarto de casa, diante do espelho, ou copiada dos últimos desfiles de Nova Iorque ou Milão”.

Ousada e bela, a moda produzida no Nordeste se mostra cada vez mais heterogênea e abrangente. Para provar o quanto ela tem se expandido, estilistas de renome não faltam. Walério Araújo, Melk Z-da, Márcia Ganem, Aládio Marques, Gefferson Villanova e muitos outros levam um estilo próprio para os desfiles e mostram que o Nordeste também é um celeiro de criação. Muitas vezes a inspiração vem dos costumes regionais. As coleções de Martha Medeiros exploram bastante as rendas e os bordados feitos à mão. Contudo, inova-se também ao misturar tendências ou seguir outras vertentes. Vitorino Campos explora uma moda mais urbana e sóbria, diferente do que se encontra no imaginário coletivo quando se fala em roupas do Nordeste.

Há muito espaço para ser trabalhado: do regional ao cosmopolita, do artesanal ao industrial, todos os elementos se combinam na produção de moda nordestina.

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