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“Não se combate um fenômeno natural, apenas se criam mecanismos para se sobreviver a ele”

- 11 de março de 2013

Preocupado em especificar todos os colaboradores do projeto, Luís revela cada um dos passos para conseguir levar água às famílias sertanejas

Gilberto Rios 

Luís Alberto Ferreira foi um dos idealizadores do Operação Gota D’água e também é o nome que divulga o projeto. Ele próprio criou e movimenta uma página no Facebook para contar todos os passos da ação e sempre faz questão de especificar o nome de cada um dos colaboradores. Demarcando o percurso da operação, Luis conta como foi possível arrecadar dez mil litros de água em dois meses e leva-los para famílias do interior baiano. 

ID 126 – Em que momento você foi sensibilizado com a causa e decidiu fazer algo?

Luís Alberto Ferreira – Em se tratando da ajuda aos habitantes do semiárido, há mais de dez anos que almejava contribuir de alguma forma para minimizar a situação desses que sofrem com a seca. Sonhava em combater a seca, mas pensava ingenuamente. Com estudos mais aprofundados sobre a questão, entendi que não se combate um fenômeno natural, apenas se criam mecanismos para se sobreviver a ele. No Brasil, parece cômodo tratar períodos de seca como uma surpresa, quando a ciência já prevê tais situações de estiagem. Em 2012, efetivamente surge o GOTA DÁGUA – Ação Social e assim começa o intenso trabalho de arrecadação de água. Vale salientar que nossa logomarca foi criada por Hector Salas, publicitário e cartunista responsável pelo desenho que é símbolo oficial do Carnaval da Bahia.

Luís alberto Ferreira, idealizador do projeto, repassa garrafas d'água para distribuição / Crédito: Edvan Lessa

ID 126 – Houve, desde o início, algum incentivo? Tentaram parceria com algum órgão público ou empresas privadas?

Luís Alberto Ferreira – Na verdade, a ideia foi desenvolvida com RODRIGO MARQUES, professor de História e Sargento do Exército. Simplesmente, pedimos. Escolas, cursos, pessoas conhecidas, a quem nos descobriu. Pedimos. E na primeira ação conseguimos uma boa quantidade. O suficiente para encher um caminhão baú. Não há parcerias, há ajudas. Não somos ONG, não temos afiliação política, nem crença ou religião. Isso não nos faz ateus (nada contra estes), porque oramos a cada missão, tanto na ida, quanto na volta.

ID 126 – Quem foram os colaboradores?

Luís Alberto Ferreira – Colégios, como Análise, Lince, Antônio Vieira, Colégio da Polícia Militar, SENAI-Cimatec; cursos pré-vestibulares, como Central do Vestibular, DNA Pré-vestibular de São Francisco do Conde; Royal Bank of Canada; SEMEIA (Estudantes de Biologia/UCSal); cidadãos em geral.

ID 126 – Quantos litros de água foram recolhidos e como foi o processo até conseguir levar a primeira remessa?

Luís Alberto Ferreira – Difícil precisar. Mais de 10.000 litros de água mineral, acondicionadas em garrafas de plástico, devidamente lacradas. Entrávamos em contato ou entravam em contato, nós íamos até o local e buscávamos o material. Guardávamos no depósito da Faculdade Metodista, situada na Mouraria, Centro. Praticamente, eu e o RODRIGO, fazíamos essa coleta a todo momento, escapando do trabalho quando podíamos. Foi um exercício árduo, mas sempre gratificante.

ID 126 – Você pode descrever (brevemente, se preferir) a PRIMEIRA viagem? A cidade e o momento da entrega das garrafas de água nela… Como estavam as pessoas? Houve alguém que tivesse lhe emocionado mais?

Luís Alberto Ferreira – Em junho de 2012, ocorreu a primeira Operação Gota Dágua. Os municípios de Nova Fátima e Capim Grosso foram nosso objetivo de doação. Nesses locais, as pessoas pareciam desconfiadas, mas, depois de uma conversa, quando percebem a nossa intenção, por mais modesta que ela seja, acolhem-nos bem. A alegria toma conta dos voluntários (“camaráguas”) que exercem a atividade fraterna com muita disposição e ímpeto solidário. No povoado de Caiçara, um voluntário, no final da tarde, informou-nos que era seu aniversário e que seu maior presente era estar ali, fazendo parte da operação. Cantamos “Parabéns pra vc” no meio da rua. Outro momento crucial foi quando uma senhora a quem beijei a mão disse-me que aquele ato de matar a sede ia além da água e então beijou a minha mão. Senti-me impotente ali, brinquei com aquela anciã tão doce e me afastei conseguindo disfarçar muito bem a minha emoção.

ID 126 – Você sente que aconteceu alguma diferença entre a mobilização da primeira entrega e a da segunda? Teve mais gente participando? A equipe inteira se manteve?

Luís Alberto Ferreira – A segunda operação foi definitivamente a mais marcante. Mais água e merendas. O mestre do quadrinho nacional, LUIZ ANTONIO CEDRAZ, doou-nos 1.250 (mil, duzentos e cinquenta) exemplares da revista da Turma do Xaxado. O caminhão truck da empresa RAFER Transportes foi conduzido por ALEX, um motorista que se tornou ativista convicto da segunda operação. Como havia poucos veículos de suporte, revezamos a equipe, mas quase todos estavam no dia da arrumação do caminhão para a viagem, o que ocorreu por volta da meia-noite, do dia 22 de fevereiro. Entendemos que, embora o caminhão tenha sido muito difícil de conseguir na segunda operação, esta última foi mais organizada.

ID 126 – Agora peço que me responda as mesmas questões da sexta pergunta, mas falando sobre a SEGUNDA viagem. O que há de diferente desta vez?

Luís Alberto Ferreira – A Operação Gota D’água II deslocou-se para Mirante-BA (pior PIB do Brasil, fonte do IBGE 2005). Esse município faz parte do “Triângulo da Miséria” juntamente com os municípios de Bom Jesus da Serra e Caetanos. A seca nesse local ainda castiga a população. O caminhão truck da Rafer Transportes levou bem mais de10.000 litros de água. Foram treze voluntários. O secretário da Administração da prefeitura recebeu-nos no local, pois eu, por telefone, já havia entrado em contato com a prefeitura pedindo informações sobre a seca na região e também solicitei a possibilidade de uma sala de colégio para dormirmos à base de colchonetes, o que não ocorreu, pois nos foram providenciadas refeições e estada numa pousada. A missão avançou pela noite, no meio da zona rural em plena escuridão. O motorista Alex merece destaque por trabalhar como se voluntário fosse. Tornou-se ali um camarágua. Comoveu-me quando a água acabou e ele se queixava de não termos mais água para abastecer mais casas. Mexeu comigo quando um senhor trouxe água barrenta num copo de vidro para mostrar que isso lá no povoado de Melancieira (Mirante-BA) era “a água de beber” e “nós só faz frevê ela!”

Seria injusto não citar o FESTIVAL DA CRIANÇA, em São Francisco do Conde-BA, e o PRIMEIRO AULÃO DE RITMOS DO GOTA DÁGUA (Salvador-BA), realizados respectivamente pelas camaráguas TÂNIA CÁSSIA e THAIANA RAMOS, para arrecadar água. Sucesso total. Ainda houve um aulão especial na UNEB, promovido pelo professor de História, WILSON, que juntou quantidade significativa de água.

 ID 126 – Já existe mobilização para a terceira viagem?

Luís Alberto Ferreira – A Operação Gota Dágua parou para descansar, visto que a consecução da segunda operação nos desgastou deveras. Em abril, nova mobilização, após pesquisas e buscas de informações, terá início. Em nossa mente, almejamos realizar eventos que dão muito certo e envolvem participação direta da comunidade, a fim de arrecadar mais água. Pensamos ainda em outros serviços de utilidade pública. O GOTA DÁGUA adora voluntários e quem quiser fazer parte disso basta enviar um e-mail para mim, demonstrando intenção. Meu e-mail é mecaorga@hotmail.com.

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