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“Não devemos nos dirigir para a droga, nós devemos nos dirigir para as pessoas”

- 11 de março de 2013

De acordo com o psiquiatra Antônio Nery Filho, as políticas voltadas para a prevenção do uso de drogas têm que ser melhor formuladas

Ana Paula Lima e Raquel Santana

Para o psiquiatra Antonio Nery, diretor do CETAD, pensar nas pessoas é primordial. Foto Divulgação

 

Antônio Nery Filho é psiquiatra, professor da Universidade Federal da Bahia e responsável pelo Centro de Estudos e Terapia de Abuso de Drogas, o Cetad. O centro foi criado em 1985, a partir da preocupação do professor Nery com a inadequação dos tratamentos propostos naquela época para os usuários de substâncias psicoativas. O Cetad é órgão de extensão permanente do Departamento de Anatomia Patológica e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da UFBA.  O professor Nery é autor de vários trabalhos voltados para o tratamento de dependentes químicos e .

Impressão Digital 126 – Otrabalho desenvolvido pelo Centro de Estudos e Terapia de Abuso de Drogas, o Cetad, é referência para programas voltados ao controle do uso de drogas. Como funciona o tratamento no centro?

Antônio Nery – O Cetad é um serviço voltado para os usuários de substâncias psicoativas e seus familiares. No centro nós gostamos muito de usar a expressão ”atenção aos usuários”, porque a palavra “atenção” denota que nós estamos voltados para esta pessoa. A partir da relação que está pessoa estabelece consigo mesma e com seus familiares é que vamos desenvolver nossas práticas, digamos, de assistência médico e psicossocial.

ID 126 – De acordo com Associação Brasileira de Psiquiatria existem três tipos de internação: a voluntária, com consentimento do paciente, a involuntária, no caso de menores de idade e ou pacientes em crise, e a compulsória, quando a justiça determina a internação. Algumas cidades estão optando pela internação compulsória. O senhor concorda com esta medida?

AN Eu acho que ela é ineficaz, em quase todas as suas dimensões. Eu compreendo o tratamento como um ato de liberdade do indivíduo. Agora, é verdade que em certas circunstâncias – na psicose, por exemplo, que é um transtorno mental mais grave, ou em certas doenças clínicas como o coma diabético, ou infarto agudo do miocárdio, nestas condições não cabe perguntar a pessoa se ela aceita ser internada para tratamento. Eu diria que quando o usuário de drogas se encontra em uma condição de risco de morte, nós – os psiquiatras, os assistentes sociais, os enfermeiros – concordamos com a internação involuntária. Isto desde que a pessoa recupere a capacidade de decidir se continua ou não o tratamento. Nós a ouviremos e isso distingue a internação voluntária da internação compulsória.

ID 126 – Aqui em Salvador temos três Centros de Atendimento Psicossocial, os CAPS, além do Cetad que fazem o tratamento de dependentes químicos, mas essas unidades não têm um trabalho voltado especificamente para usuários de crack. O senhor acha necessário criar um atendimento voltado apenas para estes dependentes?

AN Não tem nenhuma razão de ter um serviço especializado em uma única droga. Os usuários são em geral poliusuários, isso quer dizer que a fidelidade a uma droga só acabou. Os alcoolistas bebem, cheiram cocaína e fumam maconha. Os usuários de crack usam maconha, em algumas vezes até bebem ou cheiram cocaína. Então o que nós temos hoje é uma politoxicomania. Nós Temos é que criar serviços qualificados para atender as pessoas. Então, se eu tenho uma pessoa cujo diagnóstico é consumo de uma ou mais substância psicoativa, eu devo ter dispositivos sócio, médico, psicossociais para tratá-la. Eu acho que o serviço deve cuidar muito mais desse conjunto do que pensar nas drogas. Penso até que essa é uma preposição que foi construída socialmente nos últimos cinco anos, porque os usuários de crack estão pelas ruas e pelas cidades do mundo desde os anos 80. Agora a mídia transforma o crack em uma droga particular e especial, quer dizer, nós construímos um mito social. Construímos uma realidade social absolutamente falsa.

ID 126  Da forma que estão equipados hoje os caps oferecem um serviço de qualidade para população?

AN – Não. Porque os CAPS foram criados na carência e vivem na carência. Salvador, com uma região metropolitana de três milhões e meio de pessoas, tem um CAPS AD, Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas, em Louro de Freitas, um esboço de CAPS AD em Camaçari, e três CAPS AD em Salvador. O CAPS de Pernambués tem dificuldade de transporte, de telefones, e problemas inerentes a todos os serviços. Tanto o de Pernambués como o de Pirajá, ambos administrados pelo município, não têm um atendimento satisfatório. Digo a você para ser justo que o CAPS de Pernambués, por ser mais antigo, tem melhores conhecimentos de técnicas e técnicos do que atualmente o CAPS de Pirajá e o Gey Espinheira, que deveria oferecer o serviço de internamento. Pois bem, o Gey Espinheira nunca internou ninguém, porque nunca teve condições de internar – por falta de roupa, de pessoal, e de acomodações adequadas em termos de hotelaria. Por tanto, lamentavelmente neste momento não temos condições de atender os usuários de drogas satisfatoriamente através dos CAPS da região.

ID 126 – Aqui no Brasil o programa nacional de combate ao crack denominado “Crack é possível vencer” é baseado em três eixos: cuidado, autoridade e prevenção. O terceiro eixo, prevenção, prevê ações que visem levar informações para as escolas, e comunidades com o objetivo de evitar o surgimento de novos dependentes. Além dessa ação de prevenção, quais outras medidas poderiam ser adotadas para evitar o surgimento de novos usuários?

AN – Trabalhar com uma reformulação dos nossos fundamentos éticos e sociais. Eu não acho que nós devamos pensar na droga, eu acho que aí a sua pergunta induz a um erro que é absolutamente comum. Quais são as ações voltadas para a droga? Eu digo, quais são as ações voltadas para os humanos e suas vicissitudes? Nós temos que rever nossos pactos. Não devemos nos dirigir para a droga, mas, sim, para as pessoas. Eu acredito na prevenção da varíola, da dengue, de coisas que nós conhecemos a causa e podemos intervir. O uso de drogas é um sintoma de uma multiplicidade de circunstâncias que envolvem os humanos. Portanto, eu não gostei nada deste plano nacional, e desses eixos, mas de qualquer sorte eu reconheço que ele existe. Lamento muito que ele tenha nascido sobre a égide do crack. Elegeu-se um mito, uma falácia e se propõe um programa nacional que parte de um engano, então eu não posso aderir a esta proposta. Eu estou no eixo que diz respeito aos humanos, as suas crises e as suas vicissitudes, que são essencialmente humanas.

ENTREVISTA ANTÔNIO NERY – clique aqui e confira a entrevista na íntegra

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