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Malayka vai além das drags da TV: “O que eu faço em primeiro lugar é um estado de performance”

Paloma Morais e Tayane Rodrigues - 31 de agosto de 2017

Romário de Oliveira , 25 anos. Artista performático (Foto: Rouseanny Luiza)

 

Paloma Morais e Tayane Rodrigues

Entre ruas desertas e casas históricas, no bairro da Mouraria, em Salvador, está um prédio vermelho de dois andares, com braços de manequins espalhados pela fachada que entregam toda a peculiaridade de seus residentes, todos artistas. Entre os moradores da casa Monxtra – assim batizada pelo coletivo artístico – está Romário de Oliveira, a Malayka.

Romário tem 25 anos, há cinco saiu de sua casa no bairro de Pirajá, Salvador, em busca de um espaço de liberdade. Ser aceito pela família na condição de drag nunca foi uma questão para ele, assim como aceitarem sua sexualidade. “Se eu fosse hétero não chegaria para minha mãe e diria sou hétero. Se estamos falando de uma naturalidade dos discursos, eu tenho essa postura”, diz, enquanto se transforma, ou melhor, entra em “estado performático” de Malayka, como ele próprio diz.

Há dois anos, Romário começou a usar a arte para se transformar em outra pessoa. Não em uma mulher, mas em um corpo modificado pela arte. “Eu não tô querendo saber se eu sou mulher ou se eu sou um homem, o que eu tenho que ser, mas eu sei que o meu corpo pode comunicar alguma coisa na rua com as pessoas e com esse trabalho que eu desenvolvo”, afirma.

Viciado em jogos e no mundo da fantasia, não foi tão difícil ele se encantar com o universo drag. Desde quando ganhou o seu primeiro estojo de maquiagem, que tem guardado até hoje como um amuleto, ele não parou mais de experimentar cores, traços, roupas. “Eu fiz a primeira maquiagem toda no dedo e quando eu vi tava lá uma cagação, não tava bom, mas para mim, naquele contexto tava suficiente, foi a minha primeira experimentação. Gostei, aí falei: vou fazer mais vezes.”

Muita maquiagem é necessária para dar vida à Malayka (Foto: Tayane Rodrigues).

Amanda Caria, a amiga que lhe deu de presente sua primeira paleta de sombras, conta que Malayka surgiu de uma brincadeira. “Naquele dia, abastecidos de cozido, a gente botou música no computador e começou a se montar”, e desde então, Amanda diz que tem sido “maravilhoso acompanhar as performances e o sucesso de Malayka”. Romário lembra ainda com muito carinho da primeira roupa que vestiu Malayka. Foi costurada pela mãe, costureira, uma das maiores inspirações de sua vida.  Sempre muito ligado às artes visuais, o criador de Malayka disse à sua mãe apenas que o vestido seria para performances.

Quando perguntado sobre um momento marcante como Malayka, Romário responde com uma cena que ele gostaria que acontecesse. “Queria que minha mãe me assistisse um dia”, disse emocionado. Mas o desejo dele não parece estar tão longe. “Com certeza, em um momento oportuno irei prestigiar uma das suas apresentações”, revela sua mãe, contando com muita admiração que já assistiu à alguns vídeos das performances de Romário. “Acho interessante como ele monta seus figurinos, eles são bem criativos e às vezes críticos”, falou de forma orgulhosa do filho. “Quando o ser humano decide fazer o que realmente gosta, são poucos que têm essa coragem  o apoio de pessoas, principalmente das mais próximas serve de incentivo.  Desde o que meu filho faça,  não venha prejudicar a sua  imagem, eu o apoiarei sempre”, finaliza.

Malayka abre suas asas

A escolha do nome performático reflete seu desejo por liberdade. Malayka significa “anjos”, é um nome em suaíle, idioma da etnia banto, grupo étnico que habita a região da África ao sul do Deserto do Saara. A escolha do nome é uma alusão à assexualidade dos seres celestiais e carrega também toda a força da ancestralidade, por se tratar de um nome africano. O “SN” (sem número) como sobrenome veio da sensação de não pertencimento à lugar algum, mas sim de ser um ser livre, sem endereço.

Para aqueles que estão acostumados com as drags da televisão, que buscam alcançar o auge da feminilidade com looks pomposos, maquiagem realista impecável e cabelos de salão, Malayka causa estranheza. Quem se depara com ela, repara logo no seu estilo peculiar. Barba, nariz de fera, maquiagem artística, óculos de grau, uma quebra de padrão. “As pessoas que se montam femininamente no drag têm que parar com essa ilusão que elas estão simulando uma mulher. Uma drag queen não é uma simulação de mulher.”

“Quando eu vi a possibilidade de ter o corpo modificado quanto quisesse, brincar o quanto quisesse com isso, eu me encantei muito” (Foto: Tayane Rodrigues)

Romário encontrou no movimento tranimal inspiração para seu eu-performático. O movimento apareceu pela primeira vez em São Francisco, no final dos anos 90, com um grupo de jovens e drag queens que estavam interessados em criar um tipo de drag mais teatral, mais complexa do que bonita ou elegante, reinterpretando as drags tradicionais com um toque de surrealismo. Para ele, existe uma padronização das drag queens, inspiradas em grandes divas, que é negativa para o meio.  “Acho que isso é distopia para o que eu vivo. Acho que é forçar uma realidade de você não está ali inserido, e isso é muito doloroso pra mim, por exemplo. As drags que conseguem fazer, ótimo, mas acho que isso também faz parte de um plano de alienação social muito escroto”.

Questionado sobre a predominância de drag brancas na mídia, Romário aponta como positiva qualquer visibilidade e reconhecimento. “Todas saem ganhando quando uma drag como Pabllo Vittar, por exemplo, cai no gosto das pessoas, quebrando tabus e trazendo o tema para debate na mídia.” Apesar disso, ele também sente falta de um protagonismo de drags negras no cenário midiático. “Acaba sendo escroto essa estética, a coisa branca ainda vai ser higienizada, mais bem vista, mais bem quista, mais bem paga, enquanto a gente não.”

Vida de drag

Malayka finaliza sua montação para mais uma vez subir ao palco. (Foto: Paloma Moraes)

Se engana quem acha que a vida de Malayka é glamour. As apresentações que ela faz lhe rendem mais ou menos o valor de R$ 70 cada.  “A gente recebe muito pouco e trabalha demais. Por exemplo, toda terça eu recebo um cachê de R$ 70, mais a combuca, pra fazer praticamente 5h de show.  O que salva muito o trabalho da gente como drag é esse lugar do incentivo coletivo, que se soma ao cachê e você sai com um dinheiro.”, conta.

A maquiagem, roupas, sapatos, acessórios, transportes são os custos para ser uma drag. Malayka lembra que  inúmeras vezes teve que voltar de suas apresentações de ônibus para que o dinheiro lucrado desse para pagar as contas. “As pessoas exigem uma criatividade ou que você faça um look incrível e use uma roupa maravilhosa, mas não é bem assim, a gente não vai conseguir porque não tem dinheiro. A gente tá tendo que comprar coisa pra comer, por exemplo, no lugar de comprar uma maquiagem melhor, um glitter melhor”, relata.

Mesmo com todas as dificuldades enfrentadas, Malayka conseguiu ganhar seu espaço no cenário de Salvador e fala com muita gratidão de uma colega que contribuiu para o sucesso da drag. Euvira, com quem dividia apartamento, lhe deu muitas dicas  para um caminho de sucesso na profissão. “Ela me ensinou muita coisa, coisa de flyer, agenda, de ficar promovendo sua própria imagem, que eu não sabia lidar muito bem com isso, por exemplo. Achava forçação de barra, mas depois eu fui entender que era necessário.” Romário explica que tudo que aprendeu sobre ser uma drag foi com amigos, com o cotidiano, com tutoriais e tirando dúvidas com algumas pessoas que trabalham na cena. Na conversa, enquanto cita também os seus colegas de moradia como fontes de inspirações diárias, os residentes da casa Monxtra entram e saem do quarto do artista, onde não só compartilham companheirismo e experiências, mas roupas, maquiagens e um espelho. “Você tem um glitter aí?”, pede Teodoro, um dos moradores mais citados com carinho por Romário.

“Na avenida deixei lá”

Malayka sobe ao palco e abre suas asas

Pronta para subir ao palco mais uma vez , Malayka ganha as ruas de tijolinhos da Mouraria. Toda vez que tropeça por conta do salto alto, acelera o passo e ensaia uma corrida, como se não se permitisse diminuir o ritmo por percalços no caminho. Nos primeiros passos desperta a atenção de pessoas que estão bebendo num bar. Mais à frente recebe uma buzinada e no próximo bar escuta um “Credo!” de um rapaz sentado. Sem perder o ritmo, nem sequer olhar para quem lhe dirige o comentário ou para quem fica pra trás, Malayka responde “Que foi? Tá com medo?”, num tom e segurança de quem já está acostumada a ouvir coisas do tipo. Ao chegar ao local de apresentação, mais olhares, desta vez, acolhedores e respeitosos.

Sentada entre as drags enquanto aguarda sua vez de se apresentar, Malayka contrasta das drags da noite. Na cadeira, Romário, contemplativo e sereno. No palco, Malayka, de olhar marcante, mãos e braços que se estendem e se movem  como se convidassem a plateia ao palco, para o mundo de Malayka. “Na avenida deixei lá. A pele preta e a minha voz, na avenida deixei lá”. Interpretando Elza Soares, Malayka emociona, atrai a atenção de todos em volta, encanta. É o momento ápice, o momento em que Romário pode ser “o que quiser”. “Quando eu me monto drag, [quero] transmitir a sensação de que mesmo tudo estando bugado, a gente ainda tem essa  possibilidade de festejar, de estarmos juntos, ignorando se somos pobres, pretos, se sou viado, sapatão, a gente só precisa se respeitar, independente do que cada um seja. A mensagem que eu gosto de passar enquanto drag é essa.”

 

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