Mais um ano sem São João: baianos buscam amenizar prejuízos através do empreendedorismo

Gabriel Nunes e Maria Beatriz Pacheco - 1 de junho de 2021

Junho é popularmente conhecido como o mês das férias, do frio, da canjica, e do forró.  Porém, o “começo de um sonho” deu tudo errado.  2021 não levou embora a pandemia do coronavírus. Pelo segundo ano seguido, os amantes do São João precisarão curtir a festa de dentro de casa. 

Se a notícia abalou aqueles que se divertem na festa, imagina para quem tem o evento como a principal fonte de renda? Os impactos financeiros de mais um ano sem a festa são gritantes.  De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Observatório de Economia Criativa (OBEC-BA) em setembro de 2020, 57,1% dos profissionais da cultura perderam mais de R $10 mil sem a tradicional festa em seus municípios. Já 86,8% dos grupos musicais e bandas tiveram um prejuízo superior a R $15 mil.

A situação fica ainda mais preocupante quando o assunto envolve os pequenos comerciantes que tiravam boa parte do sustento durante as vendas do feriado. Com o salário mínimo que recebia como caixa de mercado na cidade de Amargosa (BA), Edna Menezes, 53 anos, buscava nos festejos juninos a oportunidade de garantir uma renda extra e se livrar do aperto.

Vendedora de canjica em pelo menos 16 “São Joãos”,  ela viu o mundo girar com o cancelamento da celebração,  e vivenciar isso pela segunda vez está sendo um novo pesadelo. “Estou desde o ano passado sustentando minhas quatro crianças com o dinheiro de lá do mercado. Consegui o direito ao auxílio emergencial, mas não se compara ao que eu ganhava em junho aqui na cidade” , conta.

Dados divulgados pela Superintendência dos Estudos Econômicos Sociais da Bahia (SEI) mostram que o não acontecimento da festa em 2020 gerou um impacto superior a R $550 milhões. Para o economista Raimundo Souza, essa crise é mais sentida no interior do estado do que na capital.

“O festejo gerava um fluxo de pessoas, que davam capital para essas cidades. Esses turistas geravam movimentação em bares, restaurantes e hotéis. É uma reação em cadeia. Esse impacto também é sentido em Salvador, apesar de em menor grau, até porque pela característica da festa é mais comum ao interior. Porém, na capital, também existia uma programação junina organizada pela prefeitura direcionada para aquelas pessoas que não tiveram a oportunidade de viajar para o interior”,  explica.

Se por um momento a vacinação fez a população sonhar com os festejos em 2021, as expectativas não são das melhores. “Eu acredito que  o impacto vai ser menor este ano. Fomos pegos de surpresa com a pandemia em março do ano passado e as pessoas não tiveram tempo de se reinventar. Mesmo com a possibilidade de acontecer São João em 2022 eu acredito que o processo de recuperação econômica será bem lento. Não será no mesmo volume que fora nos anos anteriores”,  reforça o também economista Edísio Freire.

Pandemia do novo coronavírus e desafios na reinvenção do comércio

Diante da impossibilidade de comercializar durante os festejos de rua, comerciantes tentaram buscar novas alternativas para conseguir a renda extra durante o mês de junho, como reinventar esse comércio.  Somente em Salvador, o número de microempreendedores individuais cresceu mais 22% entre janeiro de 2020 e maio de 2021.

Nem tudo são flores. Raimundo pondera que o brasileiro possui espírito empreendedor, mas que enfrenta um ambiente de negócios bem hostil. “Os principais desafios estão atrelados a continuar o processo de venda. O que movimenta a empresa não é a alegria do São João, alegria é importante mas o que movimenta é quanto a pessoa compra. Aí cabe às empresas ampliar os meios de distribuição. Um dos principais meios é o delivery. Ano passado aqui na nossa região tivemos o primeiro festival do delivery“, complementa Carlos Henrique Oliveira, gerente Sebrae em Santo Antônio de Jesus.

Também segundo Carlos, muitas prefeituras da região do recôncavo baiano estão dispostas a capacitarem e ajudarem esses microempreendedores. “Eu tenho aqui hoje 252 mil reais de contratos gerados com as prefeituras de Mutuípe, Castro Alves, Jaguaripe, Maragogipe, Muritiba, Santo Antônio de Jesus e Valença. Também tenho contratos com bancos privados, mas são bancos cooperativos. Ascob e Sicoob”, destaca.

Vale lembrar que essa onda de empreendedorismo não deve ser vista como uma solução para o desemprego no estado que, de acordo com dados da SEI, bateu a marca de 19.8% no ano de 2020.  “A gente tem essa abertura em função da necessidade do que por oportunidade. isso não é totalmente bom porque mercado melhor eh mercado que tem pleno emprego. aí você tem empreendedorismo por oportunidade do que por necessidade”, destaca.

Por que se tornar um microempreendedor individual?

Um dos motivos para o grande aumento de microempreendedores individuais são seus benefícios para quem está começando a empreender. De acordo com Carlos, o MEI é todo empresário que fatura de 0 a 81 mil reais no ano e sua abertura é importante porque o empreendedor sai da informalidade. “A pessoa tem seu próprio CNPJ. Isso já é um benefício porque ela começa a ter garantias, como a cobertura do INSS e a possibilidade de faturamento através da nota fiscal”, explica. 

“O MEI paga apenas 5 por cento do seu faturamento anual para o seu INSS. 5 reais caso ele seja prestador de serviço e 1 real caso ele seja comerciante. Se paga menos que uma pessoa física. Essa possibilidade faz com que a pessoa consiga avançar”, pontua Carlos.

Cases de sucesso: baianos dão o próprio relato sobre empreender durante a crise

A união de mãe e filha faz a força: os licores de Edilene

Edilene Lima, 39 anos, é uma dessas pessoas que enxergou nos quitutes de São João uma possibilidade de ganhar dinheiro. Ao ver que mais de 60% dos contratos de sua empresa de controle de pragas foram cancelados, ela e sua filha viram no Licor a saída para uma renda extra. “Tivemos a ideia de comprar uns licores tradicionais e cremosos para revender. Foi muito bom porque foi o que manteve nossa renda. No final do ano passado, minha filha fez um curso online e decidimos produzir os nossos próprios licores”, conta.

Apesar de ter sido um respiro financeiro, o negócio de licores trouxe alguns desafios para Edilene. “Algumas dificuldades que a gente enfrenta é a questão financeira. É preciso ter um capital para investir. A concorrência também é muita. Esse ano aumentou em 100%, são muitas pessoas que estão nesse ramo”, relata. 

Para Edilene, os principais motivos que impulsionam o crescimento das vendas dela são investir na divulgação e fazer um produto de qualidade. “Você tem que meter as caras. Não pode ficar parado esperando as coisas caírem do céu”, conta. É nessa atitude que ela guarda suas energias para pensar no futuro de suas vendas de licor. “A gente pretende expandir futuramente. Sair da produção artesanal e fazer uma coisa mais profissional. Nossa pretensão é ir ao Sebrae para entender essas questões”, explica. 

Famosa em Piatã: Beatriz e os caldos juninos

Para Beatriz Souza, 38 anos, a pandemia trouxe uma breve oportunidade de voltar a comercializar sua especialidade: os caldos. Beatriz é professora da rede Estadual de Piatã, o município mais alto e frio do Nordeste. Ela passou cerca de 7 anos, de 2008 à 2014, vendendo seus caldos nas festas juninas da cidade, mas por conta de alguns problemas teve que parar.

“Tem seis anos que não coloco a barraca. O pessoal sempre pergunta quando chega essa época junina, principalmente quando aqui está muito frio. Nós não colocamos mais a barraca, porque, como Piatã nessa época chove muito, gera um desconforto. Chuva, vento, goteira e tudo mais. O bom mesmo é ter um ponto fixo”, conta Beatriz.

Foi aí que, em 2020, no meio da pandemia, ela enxergou uma nova oportunidade de matar a saudade de vender seus caldos. “Às vezes eu fazia um caldo e postava nas redes sociais. Eu faço a quenga, preparada com frango e milho verde, o caldo verde e sururu. O pessoal perguntava muito se eu ia fazer pra vender. Aí eu resolvi fazer para delivery”, relembra.

Beatriz preparou os caldos em casa e pediu a parceria de dois supermercados locais para o delivery.  Todos os caldos foram vendidos, mas numa quantidade menor em relação à época em que ela vendia em sua barraca. “Quando você tá na barraca, o cliente já chega, come e depois pede mais”, explica.

Para 2021, a professora não tem planos de fazer esse esquema. “O meu plano para esse ano é passar o São João na zona rural. Então não vou fazer esse compromisso, porque se eu for servir só um dia as pessoas podem perguntar sobre os outros dias”, justifica. 

O que uma avó não faz pela neta? A história de Bia e Dona Luiza

E quando a vontade de empreender parte da vontade de tornar o sonho da realidade o sonho da neta? Natural de Feira de Santana, Dona Luiza, 70 anos, já preparava licores para a família, mas decidiu comercializar o produto para financiar a formatura de enfermagem da neta Bianca Lima, de 24 anos.

Bia explica que as duas se dividem nas tarefas. A jovem realiza o gerenciamento das redes sociais e busca novas receitas de licor cremoso para acrescentar no cardápio, enquanto que a avó cuida da produção das bebidas.  Caso as vendas continuem sendo um sucesso, elas não escondem o desejo de continuar a comercialização do produto.

“É o segundo ano de pandemia e o primeiro em que comercializamos, então não tenho como fazer comparações. Mas, como consumidora, comemorei no ano passado com a família. Decoramos a casa e compramos comidas e bebidas. Essas celebrações mais reservadas aconteceram e creio que se repetirão em 2021”, comenta.

Como garantir o sucesso das vendas?

À primeira vista, empreender parece um bicho de sete cabeças. Mas, segundo Carlos, o primeiro passo é entender que as pessoas precisam se capacitar e não podem parar. “É um processo de desenvolvimento. É muito mais do que se faria como um colaborador normal de empresa. Você tem que se dedicar, dormir cedo, trabalhar muito, se abrir para relacionamentos”, explica. 

Um ponto crucial que Carlos destaca é a presença nas redes digitais. Para ele, toda pessoa que está começando a empreender precisa aumentar sua rede de contatos. “Todo empreendedor precisa ter presença digital, fazer suas lives, suas redes de contato via WhatsApp e Instagram. Hoje a comunicação está muito democratizada”, analisa. 

Por fim, o especialista reforça que é preciso manter a cultura junina viva. “O São João é um dos momentos mais comemorados por nossa população. A nossa sociedade planeja o ano inteiro. Ela termina o feriado já querendo começar o outro. A gente às vezes não tem nem a sede do carnaval. Com a pandemia, precisamos nos reinventar e o apoio é fundamental. Vão acontecer lives. Comemorem em casa, se resguardem, resguardem os mais velhos. Mas não deixem essa cultura morrer”, conclui.

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