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Lutar é preciso, o resto é difícil

- 5 de julho de 2017

Da saúde ao sonho, a prática de artes marciais trás muitos benefícios, mas se profissionalizar é uma tarefa complicada

Heitor Oliveira e José Cairo

Marcio Conde, 27, deseja viajar à Tailândia e trazer um novo estilo de luta para o Brasil. (Foto: Heitor Oliveira)

Há mais no mundo das lutas do que apenas conquistas de medalhas, troféus ou títulos mundiais. Nem todos chegam ao topo. Para a maioria das pessoas, o boxe, por exemplo, pode ser apenas uma prática esportiva. Outra, porém, pode ser uma tábua de salvação. Ou então pode ser a profissão escolhida.  Este foi o caso de Adriana Araújo, 35 anos, que recentemente estreou com vitória no boxe profissional. A medalhista de bronze em Londres, 2012, nem sempre quis lutar. Em entrevista ao ID 126, Adriana conta que foi só aos 17 que descobriu o pugilismo, através de uma amiga. Antes, ela jogava futebol. Mesmo assim, foi reticente no início, por achar o esporte agressivo.

“Primeiro comecei por estética, perder peso. Logo em seguida, cinco anos depois, eu levei o boxe como minha profissão”. Em 2002, quando fez sua primeira luta, o boxe feminino não era considerado esporte olímpico e, portanto, carecia investimentos. Mesmo com a chegada de seu primeiro patrocínio, o Bolsa Atleta, do Governo Federal e a possibilidade de viver do boxe se materializando, ainda sim não era o suficiente. A atleta precisou se virar para custear o transporte para competir e enfrentar a discriminação por ser mulher em um esporte predominantemente masculino.

Mesmo com perrengues, o boxe lhe proporcionou experiências únicas que, de outra forma talvez não tivesse. Ela pode conhecer novas culturas e contracenar com personagens importantes do mundo do esporte e da luta. Adriana diz ainda que, se não tivesse mudado a trajetória, seria uma pessoa normal. “Eu queria me formar em gastronomia, com certeza teria me formado e estaria trabalhando”.

Criando laços

“Para mim não é perda de energia, é ganho, eu preciso disso para dar o gás no resto do dia”. Em seis meses de arte marcial, Táina dos Santos perdeu 20kg. (Foto: Acervo pessoal).

Táina dos Santos, 25, também buscou auxilio na luta para mudar sua relação com o corpo e acabou se apaixonando pela luta. Praticante de muay thai a 18 meses e se aventurando pelo jiu-jitsu a três. A psicóloga afirma que não conseguia perder peso. Fosse através da dieta ou da academia, os resultados não eram satisfatórios. O que mudou com a arte marcial foi a vontade de melhorar. O desejo de dominar a modalidade lhe deu forças para mudar a alimentação, o que auxiliou em ganho em saúde e condicionamento.

A jovem perdeu 20kg em seis meses e os ganhos foram além do tatame, como o entendimento de que a melhora é um processo gradual. Vinda do interior, Táina encontrou no CT Fight Brotas, onde treina, laços que permaneceram em sua vida e lhe trouxeram o senso de pertencimento que faltava. “Na competição passada, tínhamos os nossos que não podiam ir, juntamos todos, cada um deu dez reais e todo mundo pôde”, lembra. Para ela, os colegas de luta são uma segunda família.

“Bonitinho é só na televisão”

Quando perguntado sobre os bastidores do mundo da luta Márcio Conde, 27, responde “bonitinho é só na TV, porquê na realidade é muito diferente, ou você tem sorte. É uma loteria”. Apresentado ao mundo da luta aos 12 anos, com o Kickboxing e posteriormente entrando no muay thai, Conde tinha um sonho, ser lutador profissional. Junto com o objetivo vinha uma cobrança onipresente, a necessidade de prestar contas de tudo e a impossibilidade de viver fora do tatame.”Se eu quisesse ser lutador, tinha que treinar pelo menos oito horas por dia, isso não tinha como acontecer”, explicou.

Pai aos 18, teve que trancar a faculdade de educação física pois não conseguia conciliar com o trabalho. Conde parou diversas vezes de treinar pelo mesmo motivo, enquanto outros persistiam. “Vi amigo meu não ter o dinheiro para almoçar, e a galera que tinha patrocínio do suplemento, que era pouco, dividia com ele, era o almoço dele. Ele ia em busca do sonho dele, mas desmaiava, em tempo de ter outra coisa”.

Hoje professor de muay thai e com 15 anos de prática, ele lembra que além das barreiras, o retorno era pouco, “quando o promotor fecha uma luta pra você e você ganha, é 20% dele, 20% seu e 20% da academia. Acaba sobrando muito pouco”, afirma.

Você tem que sonhar sua realidade

Há quatro anos, Conde tira seu sustento exclusivamente da luta, se dividindo entre ensinar em academias e o serviço de Personal Fight. Em vez do aluno ir até ele, ele vai até o aluno. De moto, ele sai de casa às 4h30 da manhã para percorrer a cidade em direção aos vários destinos onde dá aula, parando apenas para almoçar e levar o filho para a escola.

Entre o extremo da busca e a frustração, ele preferiu manter os pés no chão. Se antes era tímido, entrou em consenso com o mundo digital e agora explora este recurso para divulgar seu trabalho. “Você tem que fazer com que todos vejam o trabalho sendo realizado da melhor maneira, hoje em dia a gente vive num mundo virtual”.

Apesar das dificuldades, ainda sim, traça novos caminhos: quer conhecer a Tailândia e a raiz do muay thai, o muay boran, aprender o estilo e retornar ao Brasil para ensinar. “Você tem que sonhar a sua realidade”, ele garante, “tudo que você faz, vive ou realiza, isso é o seu sonho”. Para ele, os sonhos mudaram, mas a perseverança é a mesma.

Adriana segue a mesma linha de pensamento e avisa “ser profissional em nosso país é difícil”. Não há dúvidas. Mas lutar, no entanto, é preciso, nestes casos, em todos os sentidos.

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