Tags:, , , ,

Literatura de cordel influencia aspectos constitutivos do Nordeste

- 6 de julho de 2014

Thalita Lima e Jéssica Nascimento

O Nordeste é o melhor lugar para se contar as histórias. Na região, encontramos as lavadeiras do rio que levam as bacias de roupa na cabeça, a rezadeira da novena de Santo Antônio, as famílias clamando ao céu uma nuvem carregada de chuva, o repentista com viola na mão, o sertanejo e as rodas para dançar baião. O cordel reúne esses causos rimados em versos e impressos num folheto preto e branco.

A literatura de cordel chegou no Brasil na época dos portugueses. Por muito tempo, no século XIX, foi considerada como “literatura menor”. Mas essa linguagem se espalhou e encontrou seus maiores poetas no Nordeste, como Patativa do Assaré (CE), Manoel Monteiro (PB), Bule Bule (BA), Mestre Azulão (PB), Cego Aderaldo (CE), entre outros.

Leia mais
Peleja do cordel continua pelas capitais nordestinas
Cordel influencia artistas de outras linguagens

O pesquisador brasileiro de cordel, Marco Haurélio, explica que a inclusão de histórias do universo nordestino foi o que caracterizou a literatura como dessa região. “O fato mais importante para a definição de uma poética popular nordestina (e, consequentemente, brasileira) é a inclusão da gesta do gado e da gesta cangaceira entre os temas principais”, ressalta.

Na Bahia, um dos nomes mais expressivos do cordel é Antônio Ribeiro da Conceição, ou simplesmente Bule Bule. Poeta há 46 anos, ele diz que os folhetos de cordel mais duradouros são aqueles que falam de assuntos e figuras que o nordestino se identifica. “Para o homem do sertão, interessa Lampião, o vaqueiro, padre Cícero, frei Damião, Irmã Dulce, coisas que ele sabe da existência e do valor”, diz.

Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestrê, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola
Cantando, pachola, à percura de amô

Não tenho sabença, pois nunca estudei
Apenas eu seio o meu nome assiná
Meu pai, coitadinho! Vivia sem cobre
E o fio de pobre não pode estudá

Meu verso rastero, singelo e sem graça
Não entra na praça, no rico salão
Meu verso só entra no campo e na roça
Nas pobre paioça, da serra ao sertão

Poeta da roça, de Patativa do Assaré, maior poeta popular do Ceará

Além dos enredos sobre o contexto do campo, como contado no trecho dessa obra de Patativa do Assaré, alguns cordelistas apostam em assuntos mais complexos e atuais. Marxismo e capitalismo, a filosofia do Mito da Caverna, Nelson Mandela e a luta pelo apartheid, biografias de figuras ilustres da história e até as manifestações de junho no Brasil foram tema para os versos de Medeiros Braga, cordelista da Paraíba.

Porém, a grande surpresa
Surgia mais varonil
Jovens foram para as ruas
Em um ambiente hostil
Levantando, alvissareiro,
O seu grito de guerreiro
Para mudar o Brasil
[…]
Havia na multidão,
Que ao poder assombrou,
Um cartaz que afirmava
Que “O Gigante Acordou!”
Dizia um outro, sem truque:
“Saímos do Facebook!”…
E a marcha confirmou.

 As manifestações de junho – vinte centavos que mudaram o Brasil, de Medeiros Braga (PB)

Com um stand durante um evento na Universidade Federal da Paraíba, o poeta mostrou que o cordel pode tratar de temas contemporâneos e ficar atento aos fatos históricos e às mudanças sociais. “O mundo está destroçado e não há outra força de consertá-lo, senão através da educação política do povo”, diz o poeta paraibano, para justificar a escolha de temas atuais nos cordéis.

O cordel foi  fundamental para a formação de um público leitor numa época em que a educação formal não chegava aos grotões”, afirma o pesquisador de cordel Marco Haurélio

Para Medeiros, a diversidade temática acompanha as mudanças sociais. “A onça no pé da serra deu lugar à universidade que bem pertinho chegou; o matuto lá em cima foi substituído, por um homem novo, mais desengonçado, mais falante, mais conhecedor das coisas. Em cima da serra hoje se encontra o jovem que à tardinha pega o transporte escolar e vai assistir aula nos mais diversos graus de ensino. Por conta disso mudou também o cordelista”.

Além dos cordelistas e poetas populares da terra, outros nomes conhecidos da literatura no Brasil foram influenciados por esse estilo: José Lins do Rego, Dias Gomes, Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Rachel de Queirós, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles e Ariano Suassuna.

Para o pesquisador Marco Haurélio, o cordel contribui não só para marcar uma literatura regional, mas provocou efeitos culturais, sociais e políticos. “O cordel, principalmente em seus primeiros anos, foi de fundamental importância para a formação de um público leitor numa época em que a educação formal não chegava aos grotões”, diz.

Matemática do cordel – Aquela ideia de poesia como pura construção de versos rimados não cabe ao cordel. Há muita matemática: tem a quadra (estrofe de quatro versos), sextilha (seis versos), septilha (sete versos), martelo (estrofes formadas por decassílabos), quadrão (os três primeiros versos rimam entre si, o quarto com o oitavo e o quinto, o sexto e o sétimo também entre si), entre outros.

“A estrofe básica do cordel é a sextilha setissilábica. Depois vem a septilha e, em escala bem menor, as décimas de sete e dez sílabas”, explica Haurélio. Ele acredita que os bons poetas conseguem se expressar em todos os estilos, mas alguns acabam não dando fluência e terminam a linha com uma preposição ou artigo.

Para Bule Bule, a estética do cordel é baseada muito em quem faz. “A tradição é o tamanho de 12×16 (formato do folheto). Outra coisa básica é que o cordel de 8 páginas, sendo de sextilha, pode chegar até 40 estrofes; sendo de septilhas, normalmente 32 estrofes; sendo de dez versos, você faz 24 estrofes por 8 páginas. E você vai multiplicando o múltiplo de 4. A partir de 32 é romance”, finaliza.

Música, Salvador

Segue o Som: Quais são os desafios de fazer música em Salvador?

Em dezembro de 2015, Salvador foi eleita pela UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) como Cidade da Música. Esse reconhecimento potencializa a diversidade da cena musical soteropolitana e indica possibilidades de crescimento. Para Ricardo Rosa, produtor cultural e diretor da Ruffo Marketing, Cultura e Arte, “a gente talvez […]

Luana Lima, Marina Matos - 13 de junho de 2018

Mobilidade Urbana

BRT, uma via de mão dupla

A obra do BRT (Bus Rapid Transit) em Salvador, comandada pela Prefeitura em parceria com a empresa licenciada Camargo Correa, tem gerado uma série de polêmicas e sido alvo de críticas por uma parcela da população. Estão em pauta questões ambientais, técnicas e urbanísticas e o movimento oposicionista é heterogêneo, dele fazem parte entidades como […]

Greice Mara, Rafaela Rey e Vitória Croda - 13 de junho de 2018

Salvador

O direito de ser enterrado

Quando o auxiliar de serviços gerais Anderson Souza, 36 anos, recebeu uma previsão de até seis dias para enterrar o pai, que morreu após um ataque cardíaco, se questionou como faria para que não deixasse o corpo de Nilton Souza, 71 anos, apodrecer. Resposta essa que não lhe foi dada pela Central de Marcação para […]

Fernando Valverde - 11 de junho de 2018

Empreendedorismo na Bahia

Empreendedorismo baiano: Yes, nós temos tecnologia

Em sua segunda edição na Bahia, que aconteceu entre os dias 17 e 20 de maio, a Campus Party (CPBA) reuniu, além de palestrantes, cientistas e apaixonados por jogos e inovações, uma série de pessoas que resolveram empreender e mostrar seus projetos no espaço Startups & Creators. O espaço possibilitou que vários empreendedores apresentassem ao […]

Rafaela Souza, Victor Fonseca - 11 de junho de 2018