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Kate White: a escola para princesas à beira do fim

Fernanda Lima e João Gabriel Veiga - 27 de novembro de 2018

Numa das vias mais movimentadas de Salvador, a Rua Carlos Gomes, o letreiro colorido de branco e vermelho acima de um muro bege anuncia a lembrança de um passado. Entre as décadas de 40 e 70, era sob aquela placa que passavam as jovens abastadas da cidade. Uma vez atravessada a pequena porta azul, seguia-se para a salas onde, a depender do dia, eram dadas aulas de costura, etiqueta, culinária. Deveriam sair dali prontas para o casamento, o momento mais esperado para a mulher. Sob aquele letreiro, passaram também, com os anos, os ares dos novos tempos. Agora, Escola Kate White tenta sobreviver ao vendaval da modernidade que a arrebata.

Foto: Arquivo Escola Kate White

A Escola, ao lado do Quartel Militar do Largo dos Aflitos, viu suas cinco salas serem, pouco a pouco, esvaziadas, até que a possibilidade de fechamento começasse a ventilar pelos corredores. Vento indesejado, mas violento. Em 2014, o cenário de funcionamento ficou realmente crítico. É a diretora do espaço há 10 anos, Janete Costa Fernandes, quem conta:

“Não sei se as pessoas ficaram sem dinheiro também. Não sabemos o que aconteceu, mas foi aí que as dificuldades começaram a ser sentidas mais fortemente mesmo”.

Não que os problemas já não estivessem visíveis. Nos anos áureos, chegaram a ter 500 alunos por ano; hoje, eles não são mais de 100. A escola de boas maneiras, também chamada de escola para princesas, começava a perder para as mudanças sociais. A principal: a liberdade e o empoderamento feminino. Se antes chegavam às dependências da Kate White por iniciativa do pai, nos últimos anos são elas próprias quem buscam a escola conforme seu interesse.

Uma dessas mulheres que entrou nas salas da Kate White por incentivo da família e saiu direto para o escritório foi a professora de enfermagem Kátia Guimarães. Aluna da escola de boas maneiras no final dos anos 70, ela relembra sua rotina: “hoje em dia, não uso qualquer nada que aprendi lá, mas foi uma época importante. Eu tinha 14, 15 anos e me tratavam como adulta, isso me ensinou muita coisa”. Ao ser perguntada sobre a razão de, então, não ter seguido o caminho aconselhado pela escola, ela se resigna a apenas dizer que “não faz muito sentido”.

A experiência de Kátia, no entanto, é apenas uma das narrativas da escola Kate White como um símbolo máximo de elegância para a época. A mais velha de cinco irmãs, a professora da Ufba foi a única a estudar na instituição – os pais não tinham dinheiro para colocar mais de uma, então escolheram a mais “comportada”. Quem diz isso é a caçula, Jaqueline, batizada em homenagem à esposa-mor Jacqueline Kennedy-Onassis e ex-baixista de uma banda de punk rock nos anos 90. “Os amigos da rua só chamavam ela de A Branca [em referência à versão brasileira do nome da escola, que seria Kátia Branca]. Ela foi a única do bairro que estudou com as filhas de madame naquela época”.

Foi nas décadas de Nice Mamede, 81, que a Kate White realmente tinha maior prestígio entre as famílias. “Era um clima de vigilância também. Estudar na Kate White parecia determinar sua posição. Para a gente era muito importante”, lembra Nice.


Mudou

Porém, em uma coisa as irmãs Kátia e Jaqueline concordam: os tempos mudaram. Três meninas vieram desde então, e nenhuma foi matriculada na Kate White. Curso de inglês, espanhol ou esportes não faltaram, mas a escola de princesas nem chegou a ser uma opção de atividade extracurricular. E por que seria interessante recorrer, logo agora, a uma escola criada com propósito de educar mulheres, enquanto não lhes devia mais somente o lar, mas sobretudo o mercado de trabalho?

 

A diretora Janete, 73 acompanhou todo o processo de mudança na escola. E é prova viva de como o perfil das mulheres estudantes mudou e como a Kate White precisou se adaptar à transformação. No ano de 1964, chegou à escola, saída de Jaguaquara, no interior da Bahia, para o primeiro curso. Desde então, continua lá. Viu, por isso, as transformações por meio dos gestos, das roupas, da vida. As mulheres são outras. “A liberdade feminina se tornou muito grande, as mulheres se tornaram independentes. A escola começou a se adequar nos cursos oferecidos”, explica.

Nas dependências, a Escola, administrada pela Convenção Batista Baiana, tem seus problemas discutidos e os planos de ação pensados. Mas, a palavra “queda” costumava ser evitada. A IMPRESSÃO DIGITAL pergunta à diretora: “É superstição? Tem medo de atrair, se for o caso?”. Ela ri:

“Bom, só sei que não gosto muito de falar em queda, mas de arregaçar as mangas e ir à luta, ao trabalho, sem espírito negativo”.

O historiador Antônio Brito acompanhou o processo de auge e posterior queda da Escola Kate White como espectador e como profissional apaixonado por histórias da cidade. A unidade, na verdade, ocupou papel central no processo de formação das jovens abastadas de Salvador. Isso porque, durante anos, reinou absoluta no mercado de escolas de bons modos.

“Existiam ações pontuais em que os pais contratavam pessoas para ensinar, sobretudo, etiqueta. Ou cursos esporádicos, mas não uma escola dedicada exclusivamente a isso”, explica.

Foto: Google Images

Rotina da escola: o que de fato mudou?

A diretora da Escola conta que algumas modificações foram necessárias. Entre elas, uma inversão considerada histórica na unidade: a partir de 2010, alunos homens começaram a ser recebidos. Era o sinal de que a escola havia deixado de se direcionar apenas para as mulheres.

“Bom, foi inevitável não mudar. Começar a aceitar homens foi uma das ações que consideramos ser necessárias para mudar a cara da escola. Se era conhecida como escola para princesas, agora é escola para príncipes, também”, brinca a diretora. 

Os homens ainda são minoria – média de 10% dos matriculados diante da maioria feminina. No ano em que decidiram, o número de matriculados de ambos os sexos não passava dos 180. Foi a Convenção Batista Baiana, a quem cabe a gestão do espaço, quem convocou a diretoria do lugar para pensar novas estratégias. Por meio de nota, a assessoria da Convenção afirmou que, apesar de não ter havido nenhum registro de crescimento da quantidade de matriculados, a longo prazo e com divulgação, será possível atrair, novamente, alunos à Kate White. Desta vez, de maneira mais diversificada.

A Convenção começou a pensar, também, uma mudança na estrutura da Escola. Se querem modernização, os administradores não podem desprezar a infraestrutura. Mas, ainda não sabem quando e quais serão as alterações futuras. Já mudaram, contudo, a oferta de cursos. Hoje, é possível ter acesso também a cursos de Auxiliar Administrativo e Recepção Clínica e Faturamento.

Mas a diretoria faz questão de frisar: “A gente muda para se adequar, mas não podemos perder nossa essência”. O segredo, agora, é descobrir qual é a essência. Da resposta, quem sabe, será possível extrair a solução para se manter firme.

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