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Hip hop, dança, machismo e luta: conheça a b-girl Ceia

Rafaela Fleur e Yumi Kuwano - 31 de janeiro de 2018

Nascida em Porto Alegre, ela já foi quase assassinada por conta do machismo. Hoje, luta contra ele levando arte e feminismo para o mundo em suas competições

Claudisséia Santos, 36, é, antes de tudo, mulher.  Não apenas mulher, mas mulher brasileira. Conhecida como B-Girl Ceia, é dançarina de break há 11 anos e já rodou o Brasil inteiro, bem como boa parte do mundo, espalhando sua arte. Em meio a sua trajetória, esbarrou no machismo. Esbarrou não, foi espancada por ele, esfaqueada e quase assassinada pelo marido, durante os 10 anos de relacionamento. Nascida em Porto Alegre, Ceia não gostava de dança desde pequena e nem começou por influência dos pais. Nada de roteiro pré-definido. Foi, como dizem os céticos, por acaso. Há também quem chame de destino.

Com um nome já consolidado na cena do break, é difícil encontrar dançarinas que não a conheçam. Aos quase 12 anos de carreira, ela já representou o Rio Grande do Sul em diversas competições nacionais. E já ultrapassou as fronteiras brasileiras. “Cheguei no hip hop só em 2006 e mesmo assim fui pioneira em muitas coisas. Consegui sair do país e competir lá fora”, comenta emocionada. A competição a que se refere é o Top B-boy, uma das mais importantes premiações de break do mundo, que aconteceu no ano de 2012, em Santiago, no Chile. Ela era a única brasileira na competição e foi a primeira do país a chegar lá.

Outro marco importante foi sua participação no Batom Battle, em 2015, um evento em que pela primeira vez o break foi protagonizado apenas por mulheres. “Acabei saindo porque, depois de um tempo, homens começaram a participar”, confessa.

A artista conquistou um lugar importante no hip hop e no feminismo (acervo pessoal)

O início

Ao saber de uma oficina de hip hop, Ceia se interessou em levar os seus três filhos para participarem mas quem se apaixonou pela dança foi ela. Com quatro meses frequentando, entrou para a Restinga Crew, grupo de hip hop da periferia de Porto Alegre. Aos 26 anos, a jovem nunca tinha tido experiência com nenhum outro tipo de dança na vida. “Eu só queria aprender alguns passos de dança, mas quando notei que o grupo era composto por 15 homens e só uma mulher, questionei o motivo”. A resposta foi o incentivo que precisava: “era uma dança muito difícil para mulheres”, disse. E foi aí que decidiu começar a carreira. “Eu, que sofri violência doméstica por anos, dei risada da resposta. Isso não é nada para mim”, acrescenta. E basta conhecer um pouco dessa história para concordar com ela.

Violência doméstica

O dia tem 24 horas. Em cada uma delas, 503 mulheres, aproximadamente, são agredidas no Brasil, segundo dados do Instituto Datafolha em 2017. Ao total, são mais de 12 mil por dia. Durante 10 anos, Ceia fez parte dessa estatística. Foram 36 ocorrências e 3 tentativas de homicídio. Além dos murros, tapas e empurrões, facadas também estão na lista. Tudo isso, com três crianças envolvidas. “Quando decidi me separar, ganhei a guarda das crianças e ele foi proibido de vê-las”, relata. A última notícia que teve do ex-marido foi em 2016, através da irmã dele. Depois disso, o criminoso, que também tinha relação com o tráfico de drogas, desapareceu.

Restinga Crew

A relação da b-girl com o grupo durou quatro anos. A saída aconteceu quando ela percebeu que estava sendo boicotada pelos próprios colegas. “Resisti o tempo inteiro, nos dois primeiros anos não ganhei um real dançando, foi muito difícil. A minha família era totalmente contra, e eu entendia que fossem, menos a minha crew”, desabafa a artista que enfrentou julgamentos da família, principalmente de sua mãe, com quem hoje tem uma relação mais tranquila. Ela também diz que sua opinião nunca era levada em conta nas decisões do grupo e que sempre era subestimada. Foi aí que ela decidiu abandoná-los para treinar sozinha e trocou o estúdio pela cozinha de sua casa.

Durante o tempo que passou na crew – nome dado aos grupos de dança – ela se apresentou em uma escola. Dois anos depois, foi convidada pela diretora para dar oficinas de dança para as crianças. Profissionalmente, isso abriu muitas portas. “Logo eu estava em outra escola no bairro, depois me chamaram para dar aulas em outras regiões, na Zona Norte, Zona Leste. Fiz a minha rotina e comecei a me manter financeiramente”, conta.

Ao sair da Restinga Crew, passou a frequentar outros grupos, mas não entrou em nenhum, só participava dos treinos. A dançarina diz que percorrer outros espaços foi muito importante para seu desenvolvimento profissional. “No momento que conheci outras crews, com outros estilos, de fato construí a minha dança. Cada um tem um perfil muito diferente e conhecer outros agregou ao meu trabalho”, explica.

(Acervo pessoal)

 

Feminismo

Rap, break e grafite. Para a artista, esses são os três elementos do hip hop. Além do gênero, outra coisa em comum: machismo. “Lá no final de 2008 percebi que a participação da mulher na cultura hip hop era muito importante, entrei em projetos e me tornei militante”, afirma. Desde então, quando se deu conta que estava inserida em um espaço predominantemente masculino, ela se considera feminista. “Nunca fomos protagonistas, hoje o cenário é um pouco diferente, evoluímos de certa forma, mas na hora que a mulher começa a ter um posicionamento mais forte dentro do hip hop, o machismo aparece”, observa .

Hoje, Ceia faz parte da Frente Nacional Mulheres no Hip Hop e participa ativamente do coletivo, que busca fortalecer políticas públicas de gênero. Além disso, é líder comunitária do seu bairro, que fica na periferia de Porto Alegre. “Ficamos em cima da prefeitura. Nos preocupamos muito com a segurança e com infraestrutura, principalmente por causa das crianças”, ressalta.


Fórum Social Mundial

O Fórum Social Mundial (FSM) é um evento mundial, produzido por movimentos sociais de todos os continentes. Seu principal objetivo é pensar alternativas para uma transformação social global. Esse ano, a 18° edição acontece na capital baiana. “Tenho ido para Salvador uma vez por mês. Já participo há seis edições. Aprendi muito de luta política e social nele”, comenta ela, que faz parte da organização.

O dia 16 está programado para ser o dia da mulher no FSM e a b-girl tem vários planos para a data. Claro que o hip hop não podia ficar de fora. “O hip hop em Salvador é inserido no contexto cultural, porém, ele está fora do contexto social e político,  que é o que o evento trabalha. Eu espero que o Fórum deixe o seu legado na cidade. Vai ser um divisor de águas”, observa.

Com o tema “Resistir é Criar, Resistir é Transformar”, o Fórum Social Mundial acontece entre os dias 13 e 17 de março, na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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