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Hacktivismo como forma de resistência

- 28 de julho de 2014

Em entrevista ao ID126, Murilo Machado fala sobre o hacktivismo e as resistências ao sistema de controle

Thalita Lima

Autor do livro Anonymous Brasil: poder e resistência na sociedade de controle, Murilo Machado começou a estudar a ideia de “anonymous” quando esta era uma questão incipiente no Brasil. Nesta entrevista, ele fala sobre o caráter hacktivista dos Anonymous e como eles se tornaram indivíduos que atuam sem alguma filiação ou em grupos com o propósito de disseminar informações em forma de protesto. O livro tem prefácio de Sérgio Amadeu da Silveira, também ativista da liberdade na rede e do software livre. O conteúdo básico do livro está disponível na tese de dissertação de Mestrado do autor.

Anonymous Brasil: Poder e resistência na sociedade de controle

Impressão Digital 126: Quais são os principais fundamentos da cultura hacker e como esta modelou a cultura da internet?

Murilo Machado: Ao longo da literatura acadêmica, você vai encontrar várias referências à cultura hacker. Costumo trabalhar com a matriz que norteou a primeira geração dos hackers, nos anos de 1960, que eram aquelas pessoas sedentas por conhecimento e por desconstruir o que havia por trás do funcionamento das máquinas. A ideia era pegar a tecnologia que até então só alguns técnicos de empresa tinha acesso e transformá-la em algo que as pessoas podem usar como ferramenta. Ou seja, hackear e popularizar. O acesso ao conhecimento, a liberdade total de informação e o empoderamento por meio da tecnologia são alguns dos principais norteadores que culminaram no que a gente conhece hoje como cultura hacker. Na segunda geração vieram hackers de todo tipo. Mas os princípios norteadores vieram do primeiro pessoal.

ID126: A postura política dessas primeiras gerações em relação às máquinas era por querer torná-las mais próximas do usuário e mais distante do controle especializado. Existe uma nova geração a partir dos Anonymous? Se sim, o que caracteriza a postura política deles?

M.M.: Eu não digo que exista uma geração a partir dos Anonymous especificamente. Mas eu vejo uma geração de ativistas hackers diferente das primeiras gerações. Quando você abre um código e o conhecimento para a humanidade usar como bem entender é uma postura política. Mas o ativismo hacker é uma forma mais transgressiva de ação política. A partir principalmente do que aconteceu em torno do movimento zapatista, em meados dos anos 1990, a gente tem uma nova geração. Ela também atua na zona nebulosa entre a legalidade e a ilegalidade, o lícito e o não lícito, mas é ainda mais transgressiva do que todas as outras.

ID126: No seu livro, você fala de hacktivismo como uma resistência a um sistema de controle. Que sistema de controle é esse e como o hacktivismo assume essa postura de resistência?

M.M.: São várias formas de controle, principalmente o controle cibernético. Esse controle que existe principalmente por meio da internet, por várias corporações. Mesmo as pessoas avessas às tecnologias digitais, fatalmente estão controladas por vários mecanismos. Você vai caindo numa forma de capitalismo que opera por meio de subjetividades, gostos e vontades pessoais. Esse controle, a partir do momento em que surge, também inspira formas de resistência. O ativismo hacker é uma dessas formas. Por meio de vários mecanismos técnicos e políticos, tenta fazer frente a diversas formas de controle. Os anonymous gostam muito de hipertrofiar esse controle criando vácuos de comunicação. Várias vezes já interceptaram informações importantes, segredos de Estado, nessa forma de iludir o controle com a própria ferramenta de controle.

Você tem o DDOS (Ataque de Mediação de Serviço Distribuído, tradução para Distributed Denial of Service), que é uma forma clara de derrubar o controle de um site sem qualquer dano. É como ocupar a fachada de uma empresa, não deixar ninguém entrar e sair, nem ver a fachada. Não é uma invasão, uma invasão implicaria entrar no servidor dessa empresa. É simplesmente lotar de acesso.

ID126: Mas em muitos outros casos existe uma invasão de fato, que modifica os sites. Essa ambiguidade não torna questionável a postura política do hacktivismo?

M.M.: Sem dúvida. Mas várias formas de ação política atuam nesse limiar entre a legalidade e a ilegalidade. Depois da aprovação do projeto de lei conhecido como Carolina Dieckmann no Brasil, essa forma de ação e negação de serviço, mesmo que não invada sites ou crie danos imediatos a não ser de imagem, se tornou crime. O que eu considero como uma forma legítima de protesto é um crime. A empresa pode dizer que está danificando a imagem. Mas quando você faz um protesto que fecha a avenida de uma cidade, você tá criando vários tipos de prejuízos. Várias formas de ação política são bastante questionáveis do ponto de vista legal. O argumento legalista, muitas vezes, torna a discussão empobrecida.

ID126: Como os hacktivistas se posicionaram em relação ao Marco Civil quando estava sendo discutido sua aprovação?

M.M.: Primeiro é importante dizer que os anonymous e o hacktivismo em si não são um movimento homogêneo. Os anonymous podem ser grupos ou indivíduos independentes entre si e que usam essa marca para fazer algumas ações na rede e para se proteger. Quando dizem que os anonymous “são” ou “fazem”, isso não existe. Algum grupo ou indivíduo adepto a essa ideia que foi lá e fez alguma coisa. A gente não está falando de um movimento unificado.

No Marco Civil, a gente viu isso em várias questões de alto impacto político no país. Houve opiniões diferentes e conflitantes. Houve nichos “anons” [alguns grupos de anonymous] que disseram que o Marco Civil era uma forma de o Estado controlar o cidadão. Mas, de uma maneira geral, percebi que boa parte das pessoas o considerou como um avanço importante, uma lei que precisava ter sido aprovada há muito tempo e que foi aprovada não em seu estado ideal. O sentimento geral me parece ser esse.

ID126: Você acredita que o Marco Civil, depois desses ajustes na regulamentação de determinados artigos, como o artigo 15, consolida-se como um passo importante no controle da internet?

M.M.: Com certeza, porque o controle existe e isso não há como negar. Tem um pesquisador americano chamado Alexander Galloway que é muito didático ao dizer: “O controle é como a gravidade, você pode até tentar ir contra, mas você vai fracassar miseravelmente”. O controle está dado, é indiscutível, e a gente precisa com urgência criar mecanismos de regular esse controle. O Marco Civil é uma das leis mais avançadas do mundo. Começou como um movimento com muita participação social e é isso que ele é. Se a gente comparar com outros países, estamos muito a frente, mas precisamos ter cuidado e ir apontando essas arestas que ficaram para trás.

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