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Greenwashing: Quando a propaganda é maior que as ações sustentáveis

Laura Lorenzo e Luiza Leão - 31 de janeiro de 2018

Condenada por ambientalistas, a prática do Greenwashing — conceito que traduzido do inglês significa “lavagem verde” —, é caracterizada por discursos ecológicos e sustentáveis para promover a boa imagem de empresas, órgãos públicos, ONG’s e instituições. Na Bahia, e mais especificamente em Salvador, exemplos não faltam para comprovar que o verde, por vezes, é mero discurso.

“O Greenwashing é marketing perverso, enganoso, em discurso desconectado com a prática, com o fazer real. Deveria ser crime porque é divulgado através de peças sedutoras, bem elaboradas, com imagens encantadoras, mas a realidade observada por olhar atento e crítico, na ótica de responsabilidade socioambiental, anda bem distante do que é falado, divulgado, e não feito, de fato”, definiu, em entrevista ao ID 126, Liliana Peixinho, jornalista, ativista socioambiental e fundadora do Movimento Amigos do Meio Ambiente (AMA).

Muito criticada pela retirada de árvores das ruas de Salvador, além do uso excessivo de concreto em suas obras, a prefeitura da capital baiana foi uma das entidades citadas pela jornalista. “Como empresas e instituições sabem que sua atuação tem impactos socioambientais negativos aqui e ali, elas se armam de uma mega estrutura, uma bem montada equipe de marketing, de comunicação, para ser encarregada de produzir mensagem, digamos, mitigadoras, em seu  ambiente de atuação”, explicou ela.  

Iniciativas que poderiam ser consideradas ‘verdes’ foram recentemente adotadas pela atual gestão do prefeito ACM Neto (DEM), mas em determinados aspectos é possível ver que alguns não seguiram em frente. Um exemplo disso são os Pontos Ecológicos, que seriam pontos de ônibus verdes distribuídos pela cidade, com intuito de reduzir em até 5% a temperatura ambiente no local, tornando menos penosa a espera dos usuários. Salvador, contudo, conta apenas com um desses equipamentos, no bairro do Costa Azul. Abandonado até novembro do ano passado, apenas após denúncia o local voltou a receber cuidados da Secretaria Cidade Sustentável e Inovação (Secis). Questionada sobre a previsão de novos equipamentos na cidade, o titular da pasta, André Fraga, limitou-se a dizer que novas possibilidades estão sendo estudadas. “Tudo que visa preservar e ampliar as áreas verdes da cidade está em nosso radar”, falou ao ID.

Outra ideia da prefeitura de Salvador, os Parklets também foram uma tentativa da gestão municipal de dar uma aparência mais ‘verde’ para a cidade. Em maio de 2016 foi publicado no Diário Oficial do Município o Decreto nº 27.255, que regulamenta a instalação e uso do equipamento. Apesar da proposta de socialização entre os soteropolitanos, contudo, o parklet nem sempre é bem recebido e rendeu até polêmica em sua última instalação em frente à Hamburgueria Bravo, na Praça Ana Lúcia Magalhães, na Pituba. O aparelho gerou tanta confusão entre os moradores da localidade que precisou ser retirado três dias depois de sua instalação, em dezembro do ano passado. O novo destino do equipamento ainda está em fase de estudo. Atualmente, há dois parklets na cidade, na Avenida Tancredo Neves e outro na Rua da Graça.

A bandeira verde da gestão municipal foi levantada em mais um impasse entre a Prefeitura de Salvador e o Governo do Estado, dessa vez, sobre o bambuzal do aeroporto. No dia 20 deste mês, a Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur) determinou a paralisação do desmatamento “irregular e ilegal” da vegetação, com multa prevista de R$ 5 milhões. Questionada sobre o episódio, a CCR Metrô Bahia, concessionária que administra as obras do modal, negou que a retirada de 0,19% da área total do bambuzal tenha sequer iniciado. “Todas as obras do viário na região do Aeroporto estão devidamente licenciadas por órgãos competentes. As intervenções relacionadas à poda de touceiras na Avenida Tenente Frederico Gustavo dos Santos (a via do “Bambuzal” do aeroporto) – sentido Salvador – acontecerão apenas em pontos de sua margem esquerda, na altura do acesso à Travessa Santos Dumont, mais conhecida como Rua das Locadoras, e estão de acordo com licença expedida pelo Inema”, informou ao ID através de nota.

Mas não é apenas na Prefeitura de Salvador ou em órgãos públicos que é possível perceber esse comportamento. Ainda de acordo com Liliana, não é difícil encontrar empresas que se utilizem desse método para melhorar sua imagem pública, conduta adotada também pela Braskem, por exemplo, como confirmou a jornalista. “A Braskem tem diversos projetos socioambientais comunitários para envolver a população em ações que parecem lhes favorecer. Porque a comunidade, os representantes, pensam a curto prazo, e não tem informações que os faça desconfiar dos efeitos de um projeto que, além de impactar o cotidiano, transforma a vida de gente acostumada a ser livre, independente, proativa. Projetos que fazem essas pessoas ficarem atreladas a contrapartidas que só os mais atentos percebem. A distância entre o que está no papel, no discurso, bem formatado, e a realidade de vida cidadã”, explicou ela.  

Por se tratar de uma prática cada vez mais adotada tanto por órgãos públicos quanto por empresas da iniciativa privada, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) passou a fiscalizar especificamente esse tipo de método utilizado por entidades para melhorar sua popularidade. “A instituição sabe dos horrores praticados através de uma Política Econômica de Mercado sedento de consumo raso, vender de qualquer jeito, fazer de conta que limpa, esconder a sujeira em projetos ditos sustentáveis. Mas o que a realidade mostra é uma pintura verde que esconde, ou tenta esconder, os efeitos nocivos dessa política que atua contra o bem estar, a harmonia entre produção e consumo”, completou Peixinho, explicando mais uma vez os danos causados à sociedade pela prática do Greenwashing.

O Greenwashing é um dos temas que fará parte das discussões do Fórum Social Mundial 2018, que acontecerá em Salvador, entre os dias 13 e 16 de março de 2018.