Tags:, , , , , , , , , , ,

Filmes baianos ainda sofrem com pouca distribuição

- 5 de julho de 2017

Festivais e internet são alternativas para realizadores

Saulo Miguez e Tiago Almeida

O baiano Calebe Lopes teve seu filme exibido no Festival de Cannes este ano. (Foto: Divulgação)

Aos 21 anos e em seu sexto curta-metragem, o jovem diretor de cinema Calebe Lopes realizou um feito almejado por muitos cineastas: teve o seu filme exibido no badalado Festival de Cannes. “Um Dia é da Vida, Outro é da Morte” esteve entre os selecionados da mostra short film corner, uma categoria não competitiva que reuniu produções de todo o mundo.

“Mandamos o filme e ele foi aceito. Devem ter sido inscritos uns 4 ou 5 mil filmes no corner, desses eles selecionaram 1800 que ganharam essa janela de exibição nessa mostra de mercado”, afirma.

Os desafios para exibir a película em uma das telas mais disputadas do mundo, no entanto, não foram menores do que os que Lopes e outros realizadores baianos vêm enfrentando para projetarem seus frames do lado de cá do Atlântico.

Lopes reconhece os avanços dos últimos anos, porém, conta que ainda são muitas as barreiras impostas aos filmes baianos nas salas locais sobretudo para os curtas-metragens. “Embora exista a Lei do Curta, que obriga a passar um curta antes de cada longa, ela não é cumprida. Então não existe um sistema de distribuição para esses filmes”.


Lei do Curta
A Lei do Curta regula a exibição de filmes brasileiros de curta-metragem nas salas de cinema do país. Ela possui como base o artigo 13 da Lei Federal 6.281, de 9 de dezembro de 1975, que diz que “nos programas de que constar filme estrangeiro de longa-metragem, será estabelecida a inclusão de filme nacional de curta-metragem, de natureza cultural, técnica, científica ou informativa, além de exibição de jornal cinematográfico, segundo normas a serem expedidas pelo órgão a ser criado na forma do artigo 2º”.  Confira a Lei na íntegra neste link


Segundo Lopes, a distribuição dessas produções está fadada a rotas alternativas às comerciais, como festivais, os canais fechados de TV e a internet. “No festival, é onde irá acontecer a reflexão sobre os filmes e o contato entre cineastas, cinéfilos e público geral. Os canais de TV a cabo dão uma sobrevida ao filme depois que ele passa em tudo o que é festival. E por fim, há a opção de liberar o filme na internet, temos exemplos de bons resultados de obras postadas no Youtube e no Vimeo que conquistaram números excelentes”.

Lopes ainda completa ao dizer que a crítica ao engessamento na distribuição é assunto recorrente nas rodas de conversas entre cineastas. “Você não quer fazer filme para ganhar festival, prêmio ou dinheiro, e sim para que ele seja visto pelo maior número de pessoas. Então, eu ainda acho que faltam maneiras de se exibir os filmes fora de mostras e eventos”.

Sobre exibir “Um Dia é da Vida, Outro é da Morte” na Bahia, até o momento tudo o que há são planos. “Já mandamos para festivais daqui e estamos organizando uma exibição na Walter da Silveira, mas ainda sem data”. Assim que rolar a confirmação, iremos divulgar na página do Facebook”. Assista abaixo ao trailer do filme “Um Dia é da Vida, Outro é da Morte”.

Falta tempo ($)
Egresso do Bacharelado Interdisciplinar com concentração em Cinema e Audiovisual da Ufba, Rogério Villaronga, 28, acabou de lançar o seu primeiro longa-metragem, o documentário “Amor, a razão”, que participou da 12ª Mostra de Cinema documental de Ipatinga-Minas Gerais, o Cinedocumenta. Ele conta que o tempo de duração do filme é grande obstáculo para que ele seja exibido em uma sessão convencional/comercial.

“A maior dificuldade é em relação ao tempo do meu filme que tem 50 minutos. Algumas salas pedem um mínimo de 60 minutos, ou então é disponibilizado um horário que tem pouco público, geralmente às 13h”.

Outra dificuldade apontada são os valores cobrados pelas salas, que chegam a R$ 1.600 por semana, o que acaba inviabilizando a sessão, sobretudo pela inexistência de políticas de incentivo a filmes independentes ou editais específicos para isso.

Para não deixar a película avinagrar, Villaronga planeja buscar os festivais. “É o espaço que os realizadores têm para exibir e interagir com outros filmes. Os festivais são onde os filmes independentes são vistos e onde entram em contato com um primeiro público”.

Disputa de espaço

George Bispo planeja exibir seu documentário no cinema. (Foto: Tiago Conceição)

 O mestre em Cultura e Sociedade, George Bispo,31, acaba de realizar seu primeiro filme, o documentário “Alabês” e, com dinheiro do próprio bolso, pretende exibir sua obra em uma Sala convencional de cinema. Bispo acredita que apesar das dificuldades é importante que as produções locais, sobretudo as independentes, disputem espaço com os filmes dos grandes estúdios.

“Você não vê nos cinemas por aí um filme abordando essa temática, então, a idéia é levar para o terreiro, mas também levar para um espaço consagrado como o cinema. Mais para frente pretendo lançar em festivais, fazer circular”.  O diretor conta que após a exibição nas telonas o filme será transformado em DVD, que será distribuído em escolas e bibliotecas públicas e comunitárias.

“Alabês” é um documentário que trata dos homens que dentro do candomblé têm a função de cantar e tocar instrumentos musicais para chamar os orixás para a terra e para incorporação. O projeto nasceu dentro de um terreiro de candomblé através de conversas com esses homens que narravam as suas histórias e relações com a tradição oral dentro da religião.

Satisfeito com o resultado final da produção, o jovem cineasta quer mais. Em breve, ele pretende rodar mais dois documentários e fechar uma trilogia sobre o candomblé. O capítulo dois deverá retratar as iabacês, mulheres que tem a função de cozinhar para o Deus da religião. “Já estou em fase de pesquisa e em breve vou escrever o roteiro”. O fechamento da trilogia ainda não está definido.

Há evolução
A exibição das produções baianas, por sua vez, vem aos poucos se consolidando, como afirma a responsável pela programação das Sala de Arte de Salvador, Suzana Argolo. Segundo ela, nos últimos anos, a presença desses filmes nas telas baianas aumentou significativamente.

Ela relata que, além das produções que entram na grade de programação, o circuito tem trabalhado em parceria com diversos realizadores para exibir pré-estreias e cabines de curtas, médias e longas-metragens.

“Recentemente tivemos o NordesteLab aqui em Salvador e muitos realizadores da região elogiaram a produção baiana. Hoje, nós já temos um ciclo mais bem definido de produção e exibição por conta desta maior abertura”.

O Nordestlab é um evento que busca fomentar o mercado audiovisual no nordeste baiano, o projeto promove palestras, workshops, oficinas e rodas de conversa com realizadores, produtores e interessados em audiovisual, sua ultima edição foi em maio deste ano.

Facilidades para produzir
É consenso entre os realizadores baianos que se caso as políticas de exibição acompanhassem os avanços relacionados à produção, muito mais cinema local seria mostrado nas projeções. “Para produzir eu acho que está sempre melhorando. Desde o advento das câmeras DSLR, das Canons mais baratinhas e lentes mais acessíveis. Só consigo enxergar coisas boas dessa democratização”, comenta Calebe Lopes.

Além da democratização tecnológica, a graduação em Cinema da Ufba foi uma capacitação a mais na formação teórica dos realizadores. O curso que surgiu em 2009 e até agora completou 7 turmas, já formou novos diretores que vem ganhando espaço no cenário nacional, como Jamilie Coelho e Adriano Big, que dirigiram, respectivamente, a animação “Orun Aiyê” e o documentário “Para Além dos Seios”.

Segundo a Ancine, as salas brasileiras bateram recorde de bilheteria em 2016

Jonas e o Circo sem Lona perde cerca de 90% do público na 3ª semana de exibição

A obra Os Dez Mandamentos – O Filme atraiu 11,3 milhões de espectadores e liderou o ranking de melhor bilheteria nacional do ano. O filme foi a primeira obra nacional a em mais de mil salas em todo o país (Foto: Divulgação)

Enquanto o filme Os Dez Mandamentos alcançou mais de dez milhões de espectadores em 2016, o documentário baiano “Jonas e o Circo sem Lona”, da diretora Paula Gomes, 37, que despontou este ano como uma das grandes produções do cinema local perdeu 90% do seu público em três semanas.

O longa-metragem conquistou o prêmio do público de melhor documentário no festival Cinelatino – Encontros de Toulouse, na França e  foi exibido no Festival Internacional de Documentários de Amsterdã.

O sucesso nos festivais, por sua vez, não se repetiu nas salas brasileiras. De acordo com dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual, o filme chegou na terceira semana sendo exibido em quatro salas em todo o país e somou 115 espectadores.

Especial

Guerra da Água

No cerrado baiano, o agronegócio impacta a sobrevivência das comunidades tradicionais. A reportagem em áudio conta como a população de Correntina, no oeste da Bahia, tem sofrido ameaças e resistido à disputa por água em seu te Dê play e saiba mais sobre essa história. Material produzido a partir da proposta de pauta vencedora da […]

Leonardo Lima e Luísa Carvalho - 13 de dezembro de 2021

Editorial

Investigação participativa: reportagens que colocam o leitor no centro da história

Profa. Lívia Vieira As 13 reportagens multimídia feitas pela turma de Oficina de Jornalismo Digital em 2021.2 tiveram como base o conceito de investigação participativa. O termo, que em inglês é conhecido como engagement reporting, foi discutido em uma aula especial que tivemos com Giulia Afiune, editora de Audiências da Agência Pública. Na ocasião, Giulia […]

Profa. Lívia Vieira - 2 de dezembro de 2021


Racismo religioso

Salvador ainda é um ambiente inseguro para os praticantes de religiões afro

Dentro de casa ou no trabalho, praticantes de religiões de matrizes africanas relatam dificuldades na tentativa de exercer seu direito ao culto religioso. Expressões depreciativas, ataques a terreiros, xingamentos e até agressões. É assim que o racismo religioso se traveste de “opinião” em diversas partes do Brasil – incluindo Salvador, – uma das cidades mais […]

Josivan Vieira e Gabriele Santana - 1 de dezembro de 2021

Meio Ambiente

Salvador, primeira cidade planejada do Brasil, sofre com falta de infraestrutura

Habitantes de Salvador relatam problemas dos bairros onde vivem e denunciam falta de assistência do poder público. Os moradores de Salvador têm orgulho de dizer que vivem na primeira capital do Brasil. De propagandas até conversas em mesa de bar, soteropolitanos e pessoas que adotaram a cidade do axé e do dendê se gabam de […]

Brenda Roberta, Inara Almeida e Maysa Polcri - 1 de dezembro de 2021

Direito ao transporte

Assaltos a ônibus assustam população de Salvador

Cidadãos que dependem do transporte público relatam a experiência de insegurança cotidiana, embora Secretaria de Segurança Pública afirme que houve redução no número de assaltos a ônibus. Por Gilberto Barbosa, Leonardo Oliveira e Cesar Oliveira Os assaltos a ônibus são uma constante e assustam a população de Salvador que depende do transporte público para seguir […]

Gilberto Barbosa, Leonardo Oliveira e Cesar O. - 1 de dezembro de 2021

Direito à Cultura

Consumo de livros digitais aumenta e obras físicas têm baixa durante pandemia de Covid-19

Especialistas explicam que pandemia impulsionou mudança em formato de leitura. Por Adele Robichez, Felipe Aguiar, Nathália Amorim, Vinícius Harfush Um levantamento realizado pela reportagem em Salvador indicou que as pessoas passaram a consumir mais livros no formato digital durante a pandemia de covid-19. Segundo a pesquisa, que selecionou 68 moradores da capital para responder perguntas […]

Adele R, Felipe A, Nathália A, Vinícius H - 1 de dezembro de 2021

Economia criativa

Os desafios de viver de arte durante a pandemia

Assim como nós humanos, a economia foi imensamente impactada pelo distanciamento social, mas, felizmente, uma possível vacina para curar o problema já existe, e se chama criatividade. Não é exagero afirmar que nenhum brasileiro e nenhuma brasileira escapou ileso dos diversos e inesperados desafios vividos nos anos de 2020 e 2021. E eles têm um […]

Paulo Marques - 1 de dezembro de 2021

Direito à religião

Comunidades de matriz africana lutam por prática religiosa em espaços públicos de Salvador

Intervenções em locais comunitários preocupam terreiros que dependem da vegetação natural para exercer cultos Por Geovana Oliveira, Luana Lisboa, Victor Hugo Meneses e João Marcelo Bispo Até hoje, a vodunsi Mãe Cacau se emociona ao falar sobre o início das obras para a Estação Elevatória de Esgoto na Lagoa do Abaeté. Quando as máquinas chegaram […]

Geovana, Luana, Victor Hugo e João Marcelo - 1 de dezembro de 2021

Ordem de despejo

O caso da comunidade do Tororó, em Salvador, e a violação do direito à moradia

Moradores recebem ordem de despejo da localidade que está sendo especulada para construção de um estacionamento de um novo Shopping Center “Como os moradores são quase todos do mercado informal, a prefeitura ligava para eles e oferecia dinheiro. Como estavam todos sem dinheiro, começaram a negociar com a prefeitura. Nisso, com quem já tinha negociado, […]

Álene Rios, Júlia Lobo e Thainara Oliveira - 1 de dezembro de 2021

Cinema de rua

Histórias de quem viveu o cinema de rua de Salvador

Entenda o que aconteceu entre a época de ouro do cinema de rua e a expansão das grandes redes Tomar um café enquanto espera o horário do filme, entrar numa sala de cinema pequena, com menos de 100 lugares, para assistir a uma produção nacional. Esse ritual, muito comum até a década de 1990, é […]

Carol Cerqueira, Catarina Carvalho e Maria Andrade - 1 de dezembro de 2021

Direito à mobilidade

Pessoas com deficiência denunciam falta de acesso ao transporte de Salvador

Falta de fiscalização afeta funcionamento de elevadores em coletivos. Gabrielle Medrado, Gustavo Arcoverde, Marcela Villar e Rafaela Dultra Cadeirante desde 2014 após uma tentativa de assalto, o baiano Luan Veloso, 32, é paracanoísta profissional e terceiro colocado no ranking dos melhores do Brasil na maratona de sua categoria, a KL1, na qual atletas utilizam como […]

Gabrielle Medrado,Gustavo Arcoverde,Marcela Villar - 1 de dezembro de 2021

RAP em Salvador

O ritmo não para: batalhas de rima movimentam a cultura nas comunidades

Batalhas de rap voltam a acontecer em Salvador após suspensão causada pela pandemia de Covid-19 Após quase um ano e meio da pandemia de Covid-19, o setor artístico e cultural soteropolitano começou a tomar fôlego com a última fase de retomada das atividades econômicas, decretada pela prefeitura da capital baiana no dia 9 de julho […]

Danielle Campos, Kamille Martinho, Renata Falcone - 1 de dezembro de 2021

Direito à Segurânça

Não vá que é barril: A violência contra motoristas de aplicativo em Salvador

“Foi quando ele pegou a arma e apontou na minha cara, aí foi complicado”. Estamos na rua Candinho Fernandes, Fazenda Grande do Retiro, Salvador. São 8h30 da noite do dia 23 de dezembro de 2019, perto da véspera de Natal. Anselmo Cerqueira, que é motorista por aplicativo, está com o carro estacionado. Dois homens se […]

Adriano Motta, Lula Bonfim e Victor Lucca Ferreira - 1 de dezembro de 2021

Gerar problemas não é saudável

Consumidores relatam transtornos e dificuldades com planos de saúde

Mensalidades  subiram  quase 50% este ano, conforme aponta um levantamento divulgado pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) Por Andressa Franco, Everton Ruan e Laisa Gama No dia 25 de Março, Maria*, grávida de cinco meses, precisou ser encaminhada às pressas para o Hospital Santo Amaro. Ao chegar lá, precisou realizar uma cesária de […]

Andressa Franco, Everton Ruan e Laisa Gama - 1 de dezembro de 2021