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Figurinista, diretor, maquiador e ator, Rino Carvalho tem a cara do teatro baiano

- 16 de julho de 2013
“Todo mundo começa da mesma maneira. Eu produzia meus trabalhos e, como não tinha patrocínio, tinha que fazer tudo: luz, cenário, figurino, escrever, dirigir e atuar”

Lorena Vinturini e Simone Melo

Com aproximadamente 20 anos de carreira, Rino Carvalho, um paulista já abaianado, é figura conhecida no teatro em Salvador. Diretor teatral formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ator formado pela Fundação das Artes, de São Paulo, Rino acumula em seu currículo experiências como ator, diretor, maquiador e figurinista. Nesta entrevista, ele nos conta sobre seu trabalho como figurinista, o processo criativo no espetáculo Amor Barato e sobre o mercado de trabalho soteropolitano para os profissionais da área.

Para Rino aparecer em fotografias é como gostar de jiló. Tem gente que gosta e gente que não. Foto: Lorena Vinturini

Impressão Digital 126 – Você venceu o Prêmio Braskem de Teatro 2012 na Categorial Especial pelo figurino da peça Amor Barato. Como foi o trabalho de criação para esse espetáculo?

Rino Carvalho – Normalmente eu trabalho da mesma forma. Primeiro converso com o diretor para saber o que ele está pensando e querendo. É também fundamental assistir o ensaio porque você tem que ver a movimentação dos atores em cena para criar uma unidade no trabalho. Em Amor Barato, quando li o texto, achei bem bacana e muito forte a comparação entre humanos e animais como ratos e baratas. Propus retratar esses bichos como pessoas da classe média-alta porque sempre que se fala em bicho, temos uma tendência a pensar em coisas sujas, na miséria. Por isso, pensei em fazer o contrário porque, na verdade, é a classe rica e a ganância que estão destruindo tudo. Sugeri também fazer a barata descascada, branca, que as pessoas têm ainda mais nojo. E também porque ela é jovem, vai ganhar uma casca e ficar adulta. E o rato é de laboratório, branco, burguês, que ninguém tem nojo. Como eu queria buscar o luxo, quis usar materiais interessantes e achei que os ratos deveriam ter pele de veludo e a barata ter pele de renda. Bem chique, né? (risos)

ID 126 – Na relação entre figurino e personagem, como se dá a influência entre um e outro?

RN – É uma troca muito forte e importante. O personagem inspira a criação do figurino, mas na hora que o ator veste os elementos, ele começa a ver por fora o que ele está criando por dentro e isso ajuda muito na própria construção daquele personagem. O figurino traz isso e sua importância é fazer visível a identidade daquele trabalho. Além disso, tem algumas diferenças entre os tipos de figurinos. Fazer o figurino para um show, por exemplo. Você não veste um personagem, mas sim uma pessoa. Então é muito importante, além do contexto do espetáculo em si, saber o que a pessoa curte, o que ela quer. Essa é a diferença entre atores e músicos. Às vezes, os músicos não estão tão disponíveis quanto os atores. Se o diretor concordar com a proposta, o ator será apenas o instrumento.

ID 126 – Onde você busca suas inspirações para trabalhar?

RC – Eu sou muito imagético, eu vejo mais imagens do que ouço músicas. Então pesquiso muito em fotografias, pinturas e filmes. Eu pesquiso a moda também, é algo que me inspira.

ID 126 – O processo de confecção dos figurinos é realizado em equipe?

RC – Eu trabalho com mais gente, mas não tenho uma equipe ao meu dispor. Tenho uma costureira que está sempre comigo, que é minha parceira, a Lucimaureen Agra.

ID 126 – Além de vestir os atores em cena, você também ministra oficinas de figurino. O que você procura transmitir para os alunos?

RC – Em primeiro lugar, sempre digo que não sou um professor. Digo que é um encontro em que vamos trocar experiências e informações. Busco explicar como chegar a um figurino através da ótica do diretor ou de quem esteja à frente do espetáculo. Ensino essas pessoas a desenhar e também como colocar as ideias que elas têm nos croquis.

ID 126 – Quantos profissionais atuam em média como figurinista em Salvador?

RC – Figurinistas têm poucos. A maioria das pessoas fazem de tudo no teatro, mas atuando como profissionais mesmo aqui, não são muitos. Não posso afirmar a quantidade, mas sei que somos poucos. E por isso eu trabalho muito. Às vezes, eu fico com oito trabalhos de vez.

ID 126 – Por que isso acontece?

RC – Primeiro, porque não tem uma formação específica para isso. Quem estuda moda, por exemplo, raramente vem para a área de teatro por vários motivos, inclusive pela questão financeira. Além disso, a arte cênica de forma inconsciente mexe muito com a nossa vaidade, com o desejo de ser visto. É muito mais fácil aparecer atuando do que fazendo um trabalho que está por trás. Eu não sei dizer exatamente o porquê, mas sei que somos poucos. É uma pena, mas eu acho que é um processo lento e que vai se modificar.

ID 126 – Como você vê o mercado de trabalho atualmente em Salvador?

RC – Como existem poucos profissionais na área, os figurinistas acabam tendo muito trabalho. Eu vivo praticamente de figurinos. Porém, o mercado é difícil porque não tem um piso, nem um teto. Então há trabalhos em que você faz 60 figurinos e ganha um valor e há outros em que você faz dois figurinos e ganha muito mais. Hoje, funciona assim: “Rino, a gente tem x para te pagar”. Então, muitas vezes, nós trabalhamos na raça mesmo, compramos a ideia e vemos onde vai dar. Eu acho que isso dificulta bastante o mercado de trabalho e o profissional acaba trabalhando muito e ganhando pouco.

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