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Fanatismo religioso estimula cultura do ódio e gera violência

- 17 de outubro de 2014

Conviver com a diversidade ajuda o fanático a respeitar a crença ou descrença do outro

Virgínia Andrade

Falar em fanatismo religioso já foi uma redundância. O termo “fanático”, cuja origem é latina, referia-se a “lugar sagrado, templo”. Mas o sentido inicialmente positivo abriu caminho a outros maciçamente negativos. O motivo seria o comportamento extremista dos devotos de algumas religiões que motivava violências, desde manifestações verbais de ódio a ataques terroristas.

No período anterior ao primeiro turno das eleições no Brasil, as redes sociais foram inundadas com ataques a candidatos que incluíram nas propostas dos seus planos de governo bandeiras defendidas pelas minorias, como: a criminalização da homofobia, o direito ao casamento civil igualitário para casais do mesmo sexo e a legalização do aborto. As opiniões preconceituosas e conservadoras foram representadas pelos ideais do pastor Silas Malafaia, famoso pelas declarações de ódio aos gays.

De acordo com o doutor em Ciências da Religião Carlos Eduardo Calvani, o fanático é alguém incapaz de perceber o mundo a partir de referenciais diferentes do que elegeu como absolutos para sua vida. Exatamente por isso, costuma dividir o universo em dois polos distintos: o bem e o mal. O primeiro diz respeito à escolha, gosto ou preferência do próprio devoto e o segundo se refere ao universo alheio.

Para Carlos Calvani, conviver com a diferença é o melhor modo de combater o fanatismo | Foto: Arquivo pessoal

“O fanático religioso jamais admitirá que é fanático. Fanáticos são sempre os outros. No caso religioso, as posturas fanáticas costumam emergir quando a cosmovisão religiosa que dá sentido ao mundo do fiel, começa a ser  questionada ou abalada no intercâmbio com outras formas de crença”, explica. Segundo o pesquisador, para o fiel que deposita naquela religião todas as suas fichas e esperanças, essa interação representa um abalo de alicerces pessoais e culturais.

Calvani explica que todo extremista religioso lançará mão da violência para provar uma causa, dependendo do grau de fanatismo. “Soa como julgamento dos absolutos que ele construiu. Quando o solo seguro da fé começa a tornar-se movediço e alagadiço – e outros solos, diferentes, parecem mais estáveis – a reação natural do fanático é a intolerância e a tentativa de reforçar suas seguranças”, pontua.

“As formas de violência podem ser várias. Não precisa ser necessariamente a violência física (ataques terroristas ou destruição de símbolos religiosos de outras crenças). A violência pode aparecer também na insistente tentativa de desqualificar o outro, acusá-lo publicamente ou silenciá-lo”, observa. Para o cientista, o problema é que o fanático costuma justificar suas atitudes como atos de fidelidade à sua fé e se recusa a operar a autocrítica de sua própria crença. O fanático deve aprender a conviver com a diferença.

Respeito às crenças pressupõe um Estado laico – Professor do Núcleo de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Carlos Calvani ressalta que só será possível estabelecer parâmetros de convivência em meio à diversidade religiosa, se esses forem estabelecidos por instâncias que não se fundamentem em autoridade religiosa. “Parâmetros para um comportamento religioso fanático e extremista, só podem ser estabelecidos por um Estado laico”, enfatiza.

A laicidade seria a única garantia que diferentes crenças convivam em um mesmo espaço político-geográfico. Ela é condição fundamental para garantir avanços sociais, políticos, culturais e intelectuais. “[O fanatismo impede avanços] em vários níveis. Quando, em nome da religião, proíbem-se pesquisas médicas, científicas, intervenções cirúrgicas, transfusões de sangue etc., a religião apresenta-se muito mais como promotora da morte em nome de crenças que como promotoras da vida. Isso já aconteceu muito na história do cristianismo, mas vem diminuindo aos poucos, ao menos em alguns setores”.

De acordo com o cientista da religião, a tendência ao fanatismo é maior em religiões monoteístas. “As religiões politeístas, por sua própria constituição teológica, admitem um intercâmbio de diferentes deuses e deusas no plano transcendental. Cada deus ou deusa teria seu papel e sua função na manutenção do cosmo e da vida. O monoteísmo, porém, seja judaico, cristão ou islâmico, se constituiu historicamente pela eliminação gradativa de outras divindades, subjugadas ou absorvidas pelo ‘Deus maior’ que passa a ser visto como único”, esclarece.

Em relação ao cristianismo, a doutrina da Trindade – o mesmo Deus é percebido de modo diferente em três “pessoas” – ameniza o potencial excludente do monoteísmo cristão. No caso das religiões de matriz africana ou o hinduísmo, devido à sua fundamentação plural e por admitir e conviver bem com diferentes forças divinas, tem menor potencial de fanatismo. “Isso se reflete na convivência social. Por isso fieis dessas crenças geralmente só reagem de modo mais violento quando são atacadas”, explica.

O professor de Teologia e Ciências da Religião da Universidade Metodista de São Paulo, Cláudio de Oliveira Ribeiro, acrescenta a importância de diferenciar atitude combatente de fanatismo. “Por serem historicamente discriminadas e oprimidas no Brasil, as religiões afro-brasileiras tendem a possuir vozes contundentes de combate à opressão. Isso não pode ser confundido com fanatismo”, destaca.

Ribeiro elenca quatro comportamentos que ajudam na hora de identificar um fanático religioso: irracionalidade, autoritarismo, passionalidade e agressividade. Estas características podem ser traduzidas, por exemplo, em “ênfase excessiva em um único tema (combate aos homossexuais, por exemplo), mudança frequente do tom da voz (falar mais alto) e da pele (ao se defrontar com assuntos que lhe são contrários), gestos ou posturas corporais agressivas permanentes”, observa o pesquisador.

Cenário religioso do país – De acordo com os dados do último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, a religião evangélica registrou no Brasil um crescimento de 61,45%. O número representa cerca de 42,3 milhões de brasileiros ou 22,2% da população. Dez anos antes, 26,2 milhões se declararam evangélicos, ou 15,4% do total de habitantes do país. Em contrapartida, o número de católicos caiu em 1,3%. A tendência foi registrada no início do século XX, mas acelerou desde o censo de 2000.

Para Gilmar Costa, professar a fé, seja cristã ou não, está mais difícil | Foto: Arquivo pessoal

Adventista há quase 30 anos, o professor Gilmar Costa integra um grupo em expansão no Nordeste, o dos evangélicos. Desde o início do período eleitoral, o cristão diz perceber uma hostilidade ainda maior em relação aos evangélicos. “Muitas pessoas, inclusive próximas a mim, afirmaram que não votariam na Mariana Silva porque ela era evangélica e, como tal, representava um perigo para o avanço social do país. Isso é assustador. O fato de ser evangélico torna uma pessoa perigosa para o progresso?”, questiona.

Quanto à laicidade do Estado, o professor acredita que o fato de o país não ter religião, não inclui a ideia de repúdio à presença de pessoas que professem alguma crença. “Não defendo a ideia de que as leis sejam feitas para agradar crença de qualquer doutrina, mas se as ações dos homens fossem pautadas pelo ‘assim diz o Senhor’ o mundo seria melhor”, opina. Para Gilmar, são tempos difíceis tanto para quem professa a fé cristã quanto para quem defende outra crença.

“Se há o fanatismo por parte dos religiosos, há o desprezo e, por vezes, perseguição por aqueles que não creem ou não aceitam a fé”, pontua. Embora o fanatismo não esteja presente nas discussões da congregação que frequenta, o professor observa que a postura em relação ao tema é bastante clara. “A Igreja Adventista tem o cuidado de orientar seus membros sobre o cuidado no tratar os diferentes como iguais, seguindo as orientações divinas”, finaliza.

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