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Entrevista com o artista circense Jonatas Campelo

Cristiana Fernandes - 22 de julho de 2018

Ainda não era noite, mas a Casa de Artes Sustentáveis (CAS) já estava em ritmo acelerado. Hoje tem espetáculo? Tem sim, senhor! Até parece um reforço de um bordão que nos remete à magia do circo, mas, sim, em 29 de junho, o artista circense Jonatas Campelo, 30, não se preparava apenas para o espetáculo que iria apresentar naquele dia, como também para a entrevista ao Impressão Digital 126.

Ao se caracterizar, Jonatas não entregava somente o corpo ao personagem, mas também o seu discurso. Ao fazer sua maquiagem, reforçava cores e traços que caracterizam o palhaço negro, personagem quase invisível no universo da palhaçaria. Após duas horas de conversa, foi possível notar que, desde a recepção, e, ao longo da entrevista, o jeitão analista do palhaço Capivara já estava em cena.

Cristiana Fernandes: Como iniciou a sua relação com a arte circense?

Jonatas Campelo: Quando eu era criança, tinha um circo próximo a minha casa, o Pé de Ferro, que meu pai me levava. Às vezes, ele não me levava porque tinha que ir para igreja. Daí, de vez em quando, eu fugia da igreja para poder ir pro circo, isso em Camaçari. Nesse processo, comecei a ter essa identificação desde pequeno com o circo. Até tenho fotos de palhacinho que minha mãe me arrumava.

Já na adolescência eu tive contato com o malabarismo, primeira arte técnica circense que eu comecei a desenvolver. Eu estava começando a participar de convenções, de encontros com artistas que já faziam muitas coisas, e eu vi que eu não era tão bom até chegar numa convenção, fazer um número de malabares e todo mundo rir de mim. Aí eu entendi que o ‘negócio’ é para o outro lado. Comecei a estudar os processos do palhaço, de como funciona a comicidade, as linhas de palhaçaria, por exemplo: Augusto (atrapalhado), Branco (arrumado), Bufão (exposto por anomalias), enfim, os tipos de palhaço e como eu me encaixaria neles. Foi quando eu conheci um cara chamado Jamelão, um palhaço negro que fazia de um tudo no Centro Cultural Martim Cererê, em Goiás.

CF: Como foi a sua relação com O Jamelão durante esse período de estudo?

JC: Jamelão me dizia que estava precisando de mais palhaços negros, mais criativos, que a galera estava “esbranquiçando” tudo e mantendo a arte branca, não tinha algo novo. Decidi construir algo novo e passei um ano e seis meses dentro de um curso de acrobacia e malabarismo, mas ele acabou sendo um professor também de palhaçaria para mim.

CF: Como surgiu o seu palhaço?

JC: Quando cheguei aqui em Salvador, eu ainda não tinha o Capivara, mas eu precisava criar meu número, meu espetáculo, porque eu não queria ser um palhaço animador de festa. Na verdade, não quero até hoje. Então eu comecei a criar, na minha cabeça, de que forma fazer algo meu, com um tema meu, não a reprise de outro palhaço ou o número de outro artista, mas algo de minha autoria. Passando numa loja, eu vi um frango de borracha – o Mestre, mas não sabia o que fazer com ele, com os malabares, as cordas, com todos esses números que eu tinha mas não sabia dar um nome ou definir como funcionaria.

O Capivara com o Mestre surgiu de uma brincadeira entre amigos e eu falei que o frango ia dar um salto mortal. Eu fiz o número e todo mundo riu. Foi quando um filho de um amigo falou: “Esse aí é mestre!”, daí batizei o frango e também nasceu o espetáculo. Esse é o meu Mestre, envolve todas as artes circenses de solo, rolamento, acrobacia de solo, malabarismo, truque de mágica e ilusionismo. Aí passei a inserir com força a comicidade.

CF: Como você definiria o Capivara em cena?

JC: Nos números, o Capivara é mais técnico, é mais de criação com objeto. Tem número de malabares com papel higiênico que, ao mesmo tempo, pode virar uma rosa ou pode virar várias coisas dentro do espetáculo, não só os malabares. Ele vai estar sempre mostrando uma destreza ou uma habilidade que ele tem e que as pessoas não têm. A cena com o Mestre Frango é um diálogo que só ele e Capivara compreendem. Como o Mestre faz o maior salto de todos os saltos porque ele é o grande, isso faz do Capivara um ótimo malabarista e acrobata. Eu coloco o Mestre para representar o Jonatas enquanto o Capivara vai desenvolvendo as coisas que o Mestre o ensinou. O Mestre nada mais é que uma auto-reflexão do Jonatas.

CF: O Capivara é um palhaço que se afirma nos seus discursos?

JC: Eu sempre brinco com algumas questões, sobretudo raciais. Quem quiser entender as mensagens, entenda, quem não quiser entender, só precisa rir. Geralmente as pessoas que entendem as piadas, principalmente adultos, na hora, estouram no riso. Quando não entendem a piada, mas pegam a frase, alguns param e ficam refletindo e, pra mim, são esses que estão entendendo na verdade. Eles estão refletindo o que aconteceu e eles não perceberam, mas que nos outros bateu e já foi. Uma outra postura é a do Capivara mais povão. Em termos de palco, ele é muito mais direto, mais político e, por causa disso, eu já perdi dois cachês.

CF: O que representa a CAS nesse processo?

JC: Hoje a CAS é a realidade de um sonho do Jonatas que acreditou bastante na possibilidade de ter um espaço que poderia estar recebendo artistas de todo o mundo e ao mesmo tempo exportando artistas. Estamos começando a fazer esse processo aqui com a casa agora. Eu vou ser o primeiro residente a sair da casa para o Estados Unidos a convite para fazer uma exposição sobre artistas negros circenses que não são conhecidos. Entre eles Benjamim de Oliveira, Pé de Ferro, Jamelão, Chocolate, primeiro palhaço negro da França, entre outros artistas que não são divulgados porque a história do artista circense não é midiática.

CF: É fácil ser o Jonatas e o Capivara?

JC: Os dois não. O Capivara é mais difícil porque ele tem um papel social muito grande. O Jonatas também tem as suas responsabilidades com a CAS e as atividades administrativas, com o Treino Livre de Malabares do Largo da Mariquita, no Rio Vermelho, além do trabalho pessoal como arquivista. Porém, o Capivara tem essa questão da cena, de encarar o público, mesmo sabendo que as pessoas estão esperando algo dele, que estão ali pra sugar. Então eu acho que a construção do Capivara é mais complexa que a construção de vida do Jonatas. A vida do Jonatas foi uma construção “comum” de família, mas sempre com a ideia de que está buscando o seu espaço de conforto. O Capivara está dentro do espaço de conforto e desconforto a tempo todo. 

O Jonatas é um sonhador, um maluco que acredita em possibilidades, que desde cedo teve contato com a arte circense e, ao mesmo tempo, não teve acesso a outros tipos de arte ou outros espaços. Sempre fui limitado à minha cidade e com uma visão de que eu tinha que trabalhar no Polo Petroquímico. Aí entra a minha formação como metalúrgico, montador de andaime e caldeirante soldador. Só que o Jonatas é meio preguiçoso para coisas pesadas,  então acabei me formando em administração.

CF: Já que você é um sonhador, o Capivara é a realização de um sonho ou uma válvula de escape?

JC: Eu queria ser malabarista, meu sonho era esse. Só que o Capivara veio como uma válvula de escape mesmo. O malabarismo sozinho não dá, mas palhaçaria com malabarismo dá. Então decidi juntar esses dois e fazer fluir uma ideia mais consistente. O Capivara aconteceu na minha vida, tanto que eu tô escrevendo um livro “Eu não esperava ser palhaço” porque eu realmente não esperava. O palhaço veio como entidade, incorporou, eu o abracei e agora digo “tome aí”.

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