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Em defesa da ciência

Thiago Freire - 9 de julho de 2018
Ildeu Moreira, presidente da SBPC

Ildeu Moreira, presidente da SBPC

Sal e álcool ajudam mesmo gelar a cerveja mais rápido? “A ciência explica”, diz o clichê. Neste 8 de julho, no entanto, a ciência dá uma pausa nas explicações para comemorar. Por força das leis 10.221/2001 e 11.807/2008, a data marca o Dia Nacional da Ciência e o Dia Nacional do Pesquisador. Pensados como uma homenagem à fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), os dias nunca tiveram destaque. Mas este ano a data será lembrada em diversas cidades do país, por um motivo especial: a ciência pede socorro!

“(A data) não têm sido comemorada desde que foi aprovada. Mas vamos passar a fazer isso, pois a ideia é mostrar a
importância da ciência e denunciar o quadro grave de cortes orçamentários que essa área está sofrendo”, afirma o físico Ildeu Moreira, presidente da SBPC, entidade que completa 70 anos. O orçamento do Governo Federal para a área tem sido reduzido desde 2014, com quedas drásticas após 2015. Está previsto que, este ano, o governo Temer invista pouco mais de um terço do que o montante de 2011, já corrigido para a inflação. “É completamente absurdo, é catastrófico”, brada Moreira.

O impacto da falta de recursos já está sendo sentido e há pesquisas paralisadas, segundo o presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), o também físico Luiz Davidovich. Diversos equipamentos de laboratório estão obsoletos, faltam insumos para as pesquisas e jovens pesquisadores estão deixando o país. “É uma situação muito grave, que representa uma estrada de alta velocidade em direção ao passado. É um grande retrocesso para o país”, lamenta.

 

 

Por que isso é importante?

Luiz Davidovich

Luiz Davidovich, presidente da ABC
Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Engana-se quem pensa que ciência serve apenas para “inventar o futuro” ou construir grandes projetos ultra-tecnológicos. Ou ainda que são trabalhos universitários sem importância para a vida fora da academia. A ciência pode sim fazer diferença no presente e em qualquer âmbito da vida humana. “É graças à ciência desenvolvida aqui no Brasil que nós temos segurança alimentar, que nós temos saúde de alto nível. Por exemplo, a ciência permitiu o enfretamento da epidemia de Zika recentemente”, cita Luiz Davidovich. Um dos laboratórios que pesquisa a Zika, inclusive, não tem dinheiro nem para tubos de plástico.

Ainda de acordo com o presidente da ABC, todas as áreas da ciência estão sendo prejudicadas pela escassez de recursos, mas a preocupação é maior com aquelas que afetam a qualidade de vida da população e o desenvolvimento do país, como saúde, alimentos, energia, agricultura, petróleo e gás. “Você leva muitas décadas para criar um quadro científico relevante como nós temos no Brasil. Mas para destruí-lo é muito rápido. Então essa é a nossa preocupação”, resume Davidovich.

 

 

Cientistas baianos protestam no 2 de Julho

Na Bahia, além dos cortes federais a ciência também sofre com o governo do estado. A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), que é o vetor de financiamento do Poder Executivo, simplesmente parou de funcionar por falta de recursos. O órgão ainda não pagou os aprovados no edital de 2015, tampouco realizou novos editais. Por causa da situação delicada com os dois governos, os cientistas baianos resolveram antecipar o Dia Nacional da Ciência, saindo em protesto no tradicional desfile do 2 de julho.

Vestidos com uma camiseta azul marcada com o mote “Em Defesa da Ciência”, cerca de 200 cientistas acompanharam o cortejo que simboliza o heroísmo baiano na luta pela independência. “Resolvemos usar essa data para mostrar para a população o valor da ciência. Há uma diminuição contínua de recursos nos últimos anos, precisamos chamar a atenção da sociedade e cobrar dos Três Poderes”, discursa o presidente da Academia de Ciências da Bahia (ACB), o químico Jailson Andrade.

Cientistas no 2 de julho

Foto: Milena Teixeira/CORREIO

A ACB foi a entidade que organizou o ato, que contou ainda com representantes das academias baianas de Letras, Medicina e Medicina Veterinária; da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); das quatro universidades estaduais; dos dois institutos e quatro universidades federais do estado. Os presidentes da SBPC e ABC também estiveram presentes.

 

Na Ufba, o pior está por vir

Olival Freire, pró-reitor da Ufba

Olival Freire, pró-reitor da Ufba
Foto: Léo Chaves/Revista Fapesp

A Universidade Federal da Bahia (Ufba), principal polo de pesquisa do estado, continua produzindo, ainda que meio cambaleante. A situação, no entanto, vai piorar. A avaliação é do pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, o físico Olival Freire Jr. “A dificuldade maior ainda vem adiante, porque a pesquisa de laboratório que depende de insumos químicos e biológicos, eu diria que boa parte dos grupos tinham projetos com o CNPq, com a Fapesb, e esses recursos (já recebidos) acabaram ou estão acabando”, analisa. “Acho que o drama maior virá nos próximos três a seis meses”, prenuncia o pró-reitor.

Segundo Freire Jr., um dos principais programas afetados foi o dos INCTs – conjunto de grupos de pesquisa para criar uma rede nacional de referência em áreas estratégicas da ciência. Dos aprovados pelo CNPq, financiador do programa, a Ufba liderava oito deles. “Já na primeira rodada, alguns dos aprovados foram deixados de lado, como o das DSTs e AIDS. E as políticas públicas de combate a AIDS estão na iminência de serem consideradas ineficientes, pois a doença está ressurgindo no Brasil”, aponta. Outro que não recebeu financiamento foi o de Tecnologias da Saúde.

Os seis INCTs restantes – nas áreas de geofísica do petróleo, energia e ambiente, doenças tropicais, ecologia e evolução, democracia digital e oceanografia – estão recebendo muito menos recursos do que o prometido, segundo o pró-reitor da Ufba. “Tem chegado recursos para bolsas e viagens, mas não para compra de equipamentos. E a contrapartida que seria dada pelo Estado da Bahia, através da Fapesb, nada foi pago ainda”, denuncia Freire Jr.

Outra grande dificuldade sentida pelo pró-reitor da Ufba foi a redução, de 70% em relação a 2014, das verbas de custeio dos programas de pós-graduação. “Entre outras coisas, essa verba serve para custear apresentações de trabalhos em congressos. Na atividade científica, não adianta ter um grande resultado, é preciso divulgar. E o primeiro caminho é a apresentação desse resultado em algum evento. Sem mobilidade nacional e internacional, não há divulgação científica”, lamenta.

 

Entenda o orçamento da ciência

Inforgráfico

 

Protestos em defesa da ciência

Em 2017 houve forte mobilização de pesquisadores, professores e estudantes contra os cortes na ciência. O governo Temer tinha anunciado um orçamento minúsculo para 2018. Deputados se juntaram à causa e houve até um movimento chamado Conhecimento sem Cortes, que tinha um contador em seu site, o tesourômetro. No fim, o governo recuou e deixou o orçamento quase no patamar de 2017, ainda com cortes.

Veja abaixo a programação da SBPC, em diversas cidades, para o Dia Nacional da Ciência 2018:

01/7 – Fortaleza – Ciência no Parque;
02/7 – Salvador – Dois de Julho em Defesa da Ciência;
08/7 – São Paulo, no Instituto Moreira Salles, Av. Paulista;
08/7 – Rio de Janeiro, em frente ao Museu Nacional;
08/7 – Belo Horizonte, Espaço do Conhecimento, na UFMG;
08/7 – Recife/Olinda, no Espaço Ciência;
08/7 – Belém, na Faculdade de Eng. Mecânica, na UFPA;
12/7 – Brasília, Marcha para a Ciência ao Congresso Nacional.

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Se o caso for de racismo, a(s) vitíma(s) devem procurar o Ministério Público, que possui o Centro de Apoio Operacional especializado no combate aos crimes raciais e, mais recentemente, ao Crime Cibernético.
Os usuários, mesmo que não sejam vítimas, podem denunciar as publicações através de ferramentas nas redes sociais ou em sites especializados, como o SaferNet.

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