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E agora, para onde vamos?

- 18 de novembro de 2014

Após o corpo humano ficar sem vida, a decomposição começa em 24h; em até dois anos, restará apenas a estrutura óssea

Vitor Gabriel | Foto principal: Estela Marques

Provavelmente, após a morte, seu corpo será cremado ou enterrado em algum cemitério. Se a segunda opção for a escolhida, até que toda carne seja decomposta e sobrem apenas os ossos, o tempo pode variar entre um ano e meio e dois anos. Se a causa for considerada natural – como infarto, derrame, velhice ou neoplasia (câncer) – depois de constatado o óbito, o cadáver é enterrado quase sempre no prazo de um dia. Até aí, uma das únicas modificações corporais é a coloração esverdeada por causa das bactérias putrefativas intestinais, que vão começar a destruí-lo em questão de horas.

A temperatura média do corpo fica em torno de 37 graus. Depois da morte, ela cai em média 1 grau por hora por conta do metabolismo até igualar-se à temperatura ambiente, causando a sensação de que ele está gelado. Já a palidez é causada pela falta de circulação. “O sangue obedecerá a lei da gravidade e vai ficar na parte mais baixa do corpo. Se você olhar as costas do cadáver, ela estará toda avermelhada, cheia de sangue”, explica o médico legista do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues (IMLNR), Raul Barreto Filho. A rigidez cadavérica começa poucas horas depois. “Isso é a câimbra. Se o corpo não está oxigenando, ele contrai”, conta.

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Durante o velório, é colocado algodão em todos os orifícios do morto no momento da preparação para o enterro. Isso acontece, segundo o médico legista, porque a maioria das mortes são agônicas, com edema agudo – situação de morte iminente, com exigência de atendimento médico urgente. Dessa forma, os pulmões ficam encharcados e passam a expelir um fluído pela boca e pelo nariz. Após o caixão ser coberto pela terra, a sete palmos, como se diz, é que os processos de decomposição começam a se acelerar. Entre 36 e 48 horas após o coração parar de bater, os gases como metano e sulfeto de hidrogênio começam a ser liberados e o defunto infla. Essa fase dura entre trinta e 45 dias e o cheiro já não é dos mais agradáveis. “Depois que os gases se desprendem, ele volta quase ao seu tamanho normal”, esclarece o médico.

Apesar de não haver uma linha cronológica de decomposição dos órgãos, o primeiro a começar a se decompor é o encéfalo, entre cinco e oito minutos, num processo de autólise – a destruição de si mesmo. Pâncreas, fígado, rim e baço começam a se desfazer logo em seguida. Até dois meses ainda é possível encontrar os olhos, que se decompõe primeiro que os músculos. De acordo com o legista, depois disso, todos os outros órgãos começam a se deteriorar de forma quase simultânea.

Já a liquefação ou coliquação é o momento em que a matéria orgânica do cadáver começa e se desprender do corpo, podendo durar até dois anos. A pele fica solta e começa a se dissolver numa coloração que lembra a um umbu após o cozimento. Depois desta fase, serão encontrados apenas a estrutura óssea do indivíduo, que tem duração indeterminada. “Essa é a esqueletização”, afirma Barreto. De acordo com o legista, o Código Sanitário determina que a sepultura seja aberta depois de três anos para a retirada dos ossos para poderem ser guardados em um ossuário à disposição da família.

Cabelos, unhas e dentes – Cabelos, unhas e dentes, além dos ossos – a não ser em caso de osteoporose – também não se decompõem por serem mineralizados. “Eles são os chamados fâneros, é como se fosse uma secreção do organismo”, explica Raul Barreto Filho. Como as bactérias se alimentam apenas de material orgânico, é por conta da ação desses seres unicelulares que o corpo entra em estado de putrefação.

Morte por afogamento – Caso uma pessoa morra por afogamento, os estágios de decomposição serão os mesmos. Porém, a depender da temperatura, o processo pode ser diferente. Se for um local de temperatura baixa, as bactérias irão congelar e não poderão entrar em ação. “No caso da Air France (acidente aéreo ocorrido em 2009 na rota entre o Rio de Janeiro e Paris), que o avião estava a 5 mil metros de profundidade, o corpo não se decompõe. É como colocar carne no freezer”, explica o médico legista. Na geladeira do IMLNR, por exemplo, o corpo é conservado numa temperatura que varia entre 10 e 15 graus negativos.

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