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Dublagem tende a se tornar “mecânica”, diz dublador de Shrek

- 13 de dezembro de 2013

Fábio Arcanjo e Luiz Fernando Teixeira

O dono da voz em português do ogro mais famoso do cinema é um ator que, de ogro, não tem nada. Mauro Ramos – conhecido por ter dado voz à personagem Shrek após a morte do “casseta” Bussunda – conversou, com a maior gentileza, com o ID126 quando esteve na Bahia, em novembro.

Nesta entrevista, Ramos – que também dublou personagens como Pumba (O Rei Leão), Sully (Monstros S.A.), e atores como Gary Oldman e Danny DeVito – reflete, do alto de seus 24 anos de carreira, sobre os desafios da profissão em tempos de novas tecnologias e métodos de gravação das vozes – que, apesar de terem melhorado a qualidade sonora das dublagens, não permitem mais que os atores gravem num mesmo ambiente. “Meu medo é pela nova geração, que já entra nessa época sem contracenar com os colegas, ficar muito mecânica na hora de dublar”, alerta.

No trabalho de dublagem do Shrek, você pegou a franquia em andamento, após o falecimento do Bussunda. Como foi assumir um personagem de sucesso e dar continuidade à dublagem?

Em primeiro lugar, quem dublou inicialmente o Shrek no primeiro filme fui eu, que fui escolhido pela DreamWorks. Depois que eu já havia encerrado o processo e recebido meu cachê é que a distribuidora local decidiu pelo Bussunda, como forma de vender o filme, porque ele estava parecido fisicamente com o personagem. Então, para mim não teve mistério: quando Bussunda faleceu, a DreamWorks já havia feito os testes e me escolheu.

[Assita aos principais trechos da entrevista:]

Uma tendência atual tem sido a utilização de atores e cantores famosos na dublagem dos personagens principais como forma de promover o filme comercialmente. O que você acha que isso significa para o mercado da dublagem?

Isso acontece em qualquer lugar do mundo – a utilização de atores que originalmente não dublam, mas chamam bilheteria para dublar determinados personagens. Claro que há uma diferença de cachê, porque o cara está vendendo a voz e a imagem dele. Mas eu não vejo nada demais nisso. O que me incomoda bastante nesse processo é a desvalorização do profissional que trabalha com a dublagem. Se for ator, ou tendo a autorização do sindicato daquele local, se ele fizer um trabalho bom de dublagem, isso só nos ajuda, mostra o trabalho dos dubladores. Mas também tem que valorizar os colegas que vivem somente da dublagem. Somos atores, e a dublagem é mais um aspecto dessa profissão. Então, o que me incomoda é a desvalorização do trabalho do colega dublador que, como eu, vive quase que exclusivamente disso.

Qual personagem mais difícil que você já dublou e por quê?

Foram três em filme e um em desenho animado. Em filme é o Geoffrey Rush fazendo o pianista David Helfgott em “Shine – Brilhante” (1996 – Fine Line Features), porque eu não tinha como respirar, porque o cara não parava de falar, e reagir ao mesmo tempo, sem pausa. Em “Um Ratinho Encrenqueiro” (1997 – DreamWorks Pictures) em que eu fiz o Ernest Smuntz, personagem do Nathan Lane, a dificuldade foram os gritos. E atualmente eu estou fazendo a série “The Blacklist” (Davis Entertainment, Universal Televison e Sony Pictures Television) do James Spader, e o personagem é difícil porque, quando fala, fala muito rápido e é difícil de acompanhar. E em desenho animado, foi um desenho que eu fiz para a TV Globo, que é “Os Davincibles”. Eu fazia um vilão chamado Dr. Cuba. A cara dele é como se tivesse sido desenhada na fase cubista do Picasso e era difícil de dublar, muito difícil.

[Lançamos um desafio a Mauro Ramos: como seria uma conversa entre Shrek e Pumba, de O Rei Leão? Assista ao resultado:]

Alguém já te reconheceu por sua voz?

Já, já! Antigamente não éramos reconhecidos, porque a referência era só a televisão, então as pessoas perguntavam se a gente estava em alguma novela. Hoje, no mínimo perguntam se eu sou dublador. Já é um reconhecimento.

Desde o início da sua carreira até hoje, que mudanças você vê na dublagem brasileira? E no processo de gravação?

Quando passamos a utilizar material digital a clareza de som ficou melhor, mas a gente deixou de contracenar com o colega. Disso que eu sinto falta, só disso. Porque a gente rendia muito quando contracenava com o colega. Não que hoje não rendamos tanto, mas o processo era diferente. Meu medo é pela nova geração, que já entra nessa época sem contracenar com os colegas, ficar muito mecânica na hora de dublar.

Não vemos muitos dubladores de outras regiões que não a Sul e Sudeste do país. A que você atribui isso? É o sotaque, a concentração dos estúdios nessas regiões ou algum outro fator?

O sotaque é uma coisa riquíssima e eu me interesso muito por isso. Acontece que o ramo da dublagem ficou mais concentrado no  eixo Rio-São por causa das várias distribuidoras que abriram escritórios lá. Mas tem profissionais de vários lugares trabalhando lá. São poucos goianos, pernambucanos, gaúchos, paraenses. Mas o mercado é difícil, nós temos que tirar o chapéu para quem sai da própria terra e vai pra lá. Mas eu digo que temos que lutar pelo que acreditamos, então se é isso que você quer, vai lá e tenta mesmo. Sobre o sotaque, acho que é uma questão de mostrarmos aos nossos amigos distribuidores que o Brasil é uma terra diferente do resto da América Latina e eles têm muito a aproveitar com isso.

Como você faz para criar uma voz?

Primeiro que a gente não fica sabendo anteriormente o que a gente vai fazer, ficamos sabendo somente na hora. E lá, temos que pensar com muita rapidez, ouvindo o original, pegando a proposta que ele quer, a proposta da direção, e tentando adaptar. Esse é o processo da criação. Os caras pensam que mandam roteiro, mandam o filme pra gente, mas não é nada disso. A gente chega lá, nos passam o trecho, e aí que a gente vai criar o personagem. E hoje, como tudo é gravado em canais separados, gravamos sozinhos, não contracenamos mais. Então o processo de criação está relacionado à sua capacidade de síntese das informações que você tem à disposição.

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